Há pouco mais de um mês, a vida de Odenei Cruvel Pinheiro, 17, e Raimundo Crispiano, 38, ambos portadores de insuficiência renal, o que os obrigava a fazer sessões de hemodiálise periodicamente, mudou de forma excepcional, o mesmo acontecendo com José Enes Barbosa, 69, e Cleonice Oliveira Rabelo, 30, com problemas visuais. O que motivou a mudança na vida dessas pessoas foi a morte da estudante Alessandra Nascimento Lima, 30 anos, vítima de atropelamento.
Após constatada a morte cerebral da estudante, a família autorizou a doação de órgãos de Alessandra, a partir da qual foi possível o transplante de rins e córneas realizado pela equipe do Hospital Universitário. Foi o primeiro transplante com doador cadáver (com órgãos de paciente acometido de morte cerebral) realizado pelo hospital, que já contabiliza mais de 100 transplantes com pacientes vivos.
Hoje, os pacientes beneficiados pela doação só têm a comemorar. É o caso de Crispiano, que recebeu um rim da estudante. Para ele, os oito anos de 3 sessões semanais de 4 horas de duração foram “como estar em uma prisão”. A família toda já havia tentado doar o rim para ele, mas não dava certo. Hoje ele se diz muito feliz. E aconselha: “quem puder, ajude as milhares de pessoas que estão precisando de um órgão para se salvar”.
“São 400 inscritos na fila aguardando doação”, informa a nefrologista Giovana Parada, coordenadora da equipe médica responsável pelo transplante. A médica informa que cerca de 700 pacientes fazem hemodiálise regularmente. “O transplante pode melhorar ou salvar muitas vidas”, diz. Para a médica, a sensação de vitória não tem preço. “Os pacientes vêm com tanta esperança. Ficamos na torcida por eles. Sabemos que é uma dor enorme para a família de quem está doando. Mas, com a doação, esse sofrimento pode trazer alguma coisa positiva para a sociedade”, disse a coordenadora.
Foi assim com Maria Celeste Nascimento, 56. Ela é a mãe de Alessandra, a doadora dos órgãos que proporcionaram o transplante. Ela não sabia da vontade da filha até que um irmão da estudante, ao ser constatada a morte cerebral dela, contou à mãe o desejo da irmã de doar os órgãos. “Não hesitei um minuto em fazer a vontade dela. Só não tive coragem de ligar para cá (HU). Pedi aos médicos que ligassem. Minha filha fazia enfermagem. Acho que quando começou a estudar resolveu ser doadora”, conta.
Celeste se diz aliviada por ter tomado a decisão. “Me sinto bem, mas triste porque perdi minha filha. Espero que outras pessoas tenham a coragem de fazer o mesmo. Muita gente espera por isso. Tem gente que está com os dias contados. Se os rins e as córneas da minha filha estivessem nela, estariam podres”, afirmou. Mostrando os pacientes, diz: “Aí, estão vivos”.