São 28 os bufões
Do Rei incrédulo e nu
Ruminando nos porões
As migalhas do urubu
Atiradas aos leões
Famintas tal gabiru
Como festa dos ladrões
Em pleno Carandiru
São 28 bufões
São 28 chalaças
E alguns centuriões
Já arriadas as calças
Entrelaçadas as mãos
Segurando as mesmas taças
Deste fel da traição
Nas cabeças só trapaças
São 28 bufões
Todos eles amilhados
São 28 senões
Em conluio amarrados
Mamam nas tetas os anões
Sofrem como condenados
Aos favores dos vilões
Estão todos algemados
São 28 bufões
Da intriga e vilania
Banhando no mesmo lago
Da inveja e da anarquia
Na podridão mais rasteira
Que há muito não se via
Cada um na ratoeira
Lambendo o queijo do dia
São 28 bufões
Na soleira e na janela
28 covardões
Sem prestígio, na banguela
Aliciando os canhões
Pra ficar com o sentinela
O cravo negro da escória
Pendurado na lapela
São 28 bufões
28 almas penadas
Confessando num convento
O pecado das estradas
Onde os fantasmas vagueiam
Com morcegos em manadas
Da aftosa que mata
Com a baba revelada
São 28 bufões
Os cegos da vilania
Acedendo dentro d’alma
Uma vela a cada dia
Apagada no descaso
Da traição mais vadia
Agachados ante aos pés
Da sórdida covardia
São 28 bufões
No Rei, aplaudem o demente
São 28 rojões
De um tiro
deprimente
Ferindo de morte a fé
Que há na cultura da gente
Acertando o próprio pé
Ao dar um passo à frente
São 28 bufões
Bufando de boca aberta
São 28 grilhões
Que o mesmo anjinho aperta
Presos na mesma ciranda
Da luta que não acerta
Por onde a inveja anda
O ódio sempre acoberta
São 28 bufões
De adersons e carneiros
São 28 vilões
Unidos como parceiros
São morcegos, os mais raivosos
Odientos e obreiros
Que em outros pastos brigaram
Mas hoje são companheiros
São 28 bufões
28 mequetrefes
28 anarquistas
Com 28 tabefes
28 malfeitores
28 parasitas
28 delatores
Periquitos, periquitas
São 28 bufões
28 cafajestes
São 28 bujões
Que não passaram nos testes
São 28 traíras
28 mamulengos
São 28 coíras
De lourenços lengo-lengos
São 28 bufões
28 odientos
São 28 versões
De macacos fedorentos
28 levianos
28 escariotes
28 havaianos
Todos nus, dançando xotes
São 28 safados
São 28 bacanas
São 28 babados
São 28 bananas
São 28 ofélias
São 28 mãos frias
28 bundas velhas
Todas cheias de estrias
São 28 bufões
São 28 canalhas
São 28 machões
E 28 navalhas
São 28 insólitos
São 28 agourentos
São 28 depósitos
De imundice, sofrimentos
Zé Fuleiro, onde chega
O covil do descompasso
A ingratidão peleja
Vence a honra, que fracasso
28 traidores
Da cana chuparam um maço
Mas com fé em Deus, senhores,
Vão morrer só de inchaço