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A moldura e o retrato



Data de Publicação: 6 de novembro de 2005
 
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Cantador: Zé Fogaréu

Zé Fuleiro tenho um mote
Pro nosso próximo ato
A Frente da Traição
É quadro do mesmo ato
Aonde um é moldura
O outro é o próprio retrato

Retrato nu de um castelo
Que desabou no início
Moldura de um palácio
Na beira de um precipício
E a do doutor pouca telha
Tudo para ele é difícil

Castelo que desmorona
Como areia movediça
Palácio com cara nova
Mais lisa do que cortiça
E um lago que vai secando
Com dentadura postiça

Pouca telha, o evangelista
Que o evangelho nunca abriu
Não reza a salve rainha
Pois dela se dividiu
Mas reza pro Zé em nosso
Que outro Zé já traiu

O Roberto caganeira
Que de uma pedra brotou
Vai ficar a vida inteira
Como a rocha que quebrou
A herança de prateleira
Que nunca administrou

A não ser um bom pedaço
Que veio do céu por malícia
Que era um grande terraço
Que pertencia à polícia
Hoje todo incorporado
Do que tomou da patrícia

E nesse trai o Castelo
Também um Zé enganou
Pra enganar outro Zé
Nisso ele é professor
Pois quem aprende a trair
O fim é ser traidor

Nesse lago de traíra
O Jackson tem doutorado
Cafeteira que o diga
Tá até hoje magoado
Com o antigo secretário
Que não se fez de rogado

E abandonou o Cafifa
Se mandou pra Fortaleza
Assim também Zé Carneiro
Caiu na mesma fraqueza
Por causa de uma Xandra
Quebrou todos os pés da mesa

Abandonou o Sarney
O seu pai, como dizia
De plebeu chegou a rei
Bem como Sarney queria
Deu-lhe tudo mas não deu
Pouco de sabedoria
Mas caráter é outra coisa

Já nasce com a gente e morre
Quem nasceu pra parasita
Fica parado e não corre
E a preguiça na razão
Lhe deixa sempre de porre

É obra da natureza
A traição dessa raça
Quem nasceu com essa esperteza
Anda sempre na desgraça
Com a inveja no coração
O ódio vira uma traça

Lázaro de Melo foi
Traidor de Bequimão
De Tiradentes Silvério
Foi o rei da traição
De Zé Sarney são vocês
Calabar do Maranhão
O traíra pro seu ato
Nega o fato da paixão
Todo galho da figueira
Quando há sombra cai no chão
A razão do traidor
É o silêncio da razão

Os traidores são natos
São gatos cheirando algum
Gato que o próprio ato
Não leva a lugar nenhum
Mas todo traíra tem
Com outro algo em comum

Zé Fuleiro eu aprendi
Essa lição no batente
O traidor dissimula
Engana todo contente
Quando tu menos espera
Ele te trai inda mente

O traíra é dissidente
De todo bem que há no homem
O ódio que abre os dentes
É o mesmo que te consome
Esse Zé não vai pra frente
Porque seu reinado o come

Traíra é ave que voa
Avoa mas é agourenta
É bicho que morre à toa
Metendo os paus pela venta
Ingratidão que ressoa
Quando a cabeça esquenta

Traíra também é peixe
Quando a doce água do rio
Forma um lago em que se deixe
Todo amor passando frio
É vara do mesmo feixe
É porco do mesmo cio

Traíra também é nuvem
Vestimenta esfarrapada
É fuligem de descarga
De carro velho furada
É calote de fantasma
Assustando na estrada

Traíra é o aniversário
De quem pousa de cadela
Botar todo secretário
Pra bater palmas pra ela
E fazê-los de otário
Pra ir rezar na capela

Traíra é a rave mundana
Gastando nossos tostões
Com proseco na cabana
Do Palácio dos Leões
Bebendo e chupando cana
Do alambique de Matões

Traíra é obra acabada
Não tem cheiro nem odor
Só a maldade velada
De matar o professor
Não cumprir com o prometido
E tomar o que pagou

Traíra é alma penada
Não leva a lugar nenhum
É o fantasma da estrada
Passando a mão no bumbum
É briga de cachorrada
Que se desfaz em Cancum

Traíra não tem rateio
Quer carinho só pra si
Alcunha de nome feio
Que corta com bisturi
Quando a moça mostra o seio
Ele não gosta mas ri

Ri assim como a hiena
Que de bosta se alimenta
É burra velha pequena
Com ciúme da jumenta
Traíra é de dar pena
Se ninguém mais agüenta

Traíra não tem mais rosto
Tem cara sem ruga e lisa
É mel que não tem mais gosto
Quando ninguém mais precisa
Traíra ao deixar o posto
Um outro vem inda pisa

Zé Fuleiro ser traíra
Como disse Fogoió
Acaba pegando pira
Na brasa do mocotó
É festival de coceira
Entre os dedos a noite inteira
Entre os punhos dado nó

Traíra não tem família
Nem nome de praça tem
É cachorro de vigília
Desse mal que lhe faz bem
Nunca foi nome de rua
Nem de prédio de ninguém

Meu amigo Zé Fuleiro
Já chega de trairagem
A ingratidão é o dinheiro
Que pro traíra é vantagem
Aquele que trai primeiro
Justifica com chantagem
Vou pegar meu carro agora
Se não eu perco a viagem

Quem reza no adoremos
Nem sempre tem alma pura
O nome que não nos demos
Se esfola na pedra dura
Evangelista é o retrato
Zé Reinado é a moldura

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