SURTO DE AMNÉSIA
Como pontapé inicial na instrução criminal no processo que tramita na Vara Especializada em Crimes contra Criança e Adolescente, foram ouvidos na manhã de ontem, o padre Félix Barbosa Carreiro e o jovem Edson Correia Sousa Filho, presos preventivamente acusados de exploração sexual.
O interrogatório foi feito pelo juiz titular da vara, José Joaquim Figueiredo dos Anjos, pela promotora do Ministério Público, Fátima Travassos e pela delegada que presidiu o inquérito, Ana Karla Silvestre. Foi diante deles e do advogado de defesa, Jomar Câmara, e da imprensa que o padre negou todas as declarações prestadas no inquérito policial.
Durante pouco mais de duas horas, o padre negou que tinha usado maconha, ou qualquer outro tipo de droga em companhia de adolescentes. Também negou que tivesse mantido relação sexual, como consta no inquérito, mas admitiu que, na companhia de meninos, freqüentou bares na Avenida Litorânea, passeou de carro e esteve em motéis. Ele disse ainda não ser verdade que o hotel Abeville, no São Francisco, tivesse servido como palco para encontro com adolescentes.
"Tenho uma amizade pessoal com os proprietários do hotel e todas as vezes que estive lá, foi com o intuito de catequizar os funcionários", declarou o padre. Das sucessivas respostas negativas dadas pelo interrogado, uma em especial chamou a atenção. Ao ser questionado sobre a assinatura no auto de prisão em flagrante, o padre afirmou desconhecer a própria letra. A princípio, também afirmou desconhecer as nove testemunhas constantes nos autos, mas disse lembrar-se de alguns, com poucos detalhes.
Tendência sexual
Apesar de ter sido muito bem instruído, o padre deixou escapar afirmações contraditórias. Logo no início, assim como determina o Código de Processo Penal, ao ser perguntado pela autoridade judiciária se sabia o porquê de está sendo atribuída a ele tal acusação, Félix respondeu não saber.
No entanto, ao longo do depoimento, ele fez um breve relato da trajetória de vida, informando que mesmo antes de ser seminarista, aos 12 anos, tinha tendência homossexual. Para evitar a tendência, se submeteu a tratamentos psicológicos, em 1985, sob os cuidados do padre João Mohana, também fazendo uso de remédios, como Lorax. Anos depois, ao perceber que não estava curado da compulsão, foi por um ano ao psiquiatra William Cantanheide. O padre admitiu que antes de entrar para o seminário teve relações sexuais com homens e mulheres.
Era "refém" dos adolescentes
Quando perguntado pelo juiz sobre suas "saídas" com adolescente, Félix respondeu que consistiam apenasem passear de carro com o som no último volume. A constância desses encontros, segundo o padre, se dava em razão das chantagens que os adolescentes faziam.
"Eu vivia sempre assombrado. Era um refém, pois quando me negava a sair, eles faziam chantagem, mandando cartas, e-mail e ligando para o arcebispo, dom Paulo Pontes, ameaçando fazer um escândalo", afirmou.
Ele disse ainda que não gostava de sair com crianças e, pelo porte físico avantajado, já que muitos se "bombavam", nunca imaginou que fossem adolescentes, porém, confessou que para alguns chegou a perguntar a idade e se assustar ao saber que menores estavam no meio, já outros mentiam sobre a idade.
O padre relatou que os meninos que saíam com ele quando não eram carentes, eram jovens com problemas familiares. Ocasião que procurava aconselhá-los, deixando com que o lado sacerdotal e humano falasse mais alto. Quanto às sucessivas idas a motéis, Félix justificou como sendo para ter mais privacidade, em razão de ser um homem público. Alegou, ainda, que sempre freqüentou motel, inclusive para preparar aulas, pois é professor da rede pública estadual.
Padre Félix finalizou confessando que chegou a dirigir embriagado, em razão de não confiar nos adolescentes, que às vezes dividia as despesas com os menores e era chamado pelos adolescentes de "mão de vaca" em razão de não soltar muito dinheiro, mesmo assim era ele quem pagava as contas. O padre também afirmou que não se recorda de nenhuma das declarações dadas para a imprensa no dia do flagrante, dia 5 de novembro.
Conforme depoimento de um dos adolescentes na fase policial, na construção da igreja do Cohafuma, o padre teria desviado mais de R$ 100 mil, sendo grande parte desse dinheiro usado para bancar as farras dele.
Meia hora antes de terminar a audiência e depois de ter respondido dezenas de perguntas respondidas, o advogado Paulo Cruz mandou que o padre não respondesse mais nenhuma indagação das autoridades, tendo, inclusive, ameaçado sair da sala caso Félix não atendesse, mas de nada adiantou, pois as perguntas feitas pela promotora acabaram sendo respondidas pelo acusado.