Senhor Zé Noel,
Eu sei que o senhor não gosta muito de ser chamado assim, afinal, aquela puxada de saco daquele seu ventríloquo não caiu nada bem, e nós soubemos por aqui que o senhor ficou uma arara. Infelizmente, vou ter que chamá-lo assim, já que eu estou profundamente irritado com o senhor que eu também nem vou mais chamar você de senhor.
Eu não quero muito. Não espero que você consiga realizar milagres neste último ano que lhe falta para voltar ao anonimato de onde nunca deveria ter saído, ou, quem sabe, ganhar uma casa nova, cheia de grades e uma farda de listras horizontais. Eu e meus filhos já nem esperamos pelo outro Maranhão que você prometeu e nunca veio.
Também já não fazemos questão de bolas, presentes e um peru no dia de Natal. Pro-Seco, então, nem pensar. Isso é coisa pra madame grande. Afinal, com esse salário "fabuloso" que você paga, mal dá para três pães por dia e um chibé de farinha com água, cozido na cabeça de bagre que a gente pesca na Lagoa da Jansen que o senhor deixou poluir.
Árvore de Natal aqui é raridade. Luzinha colorida, nem pensar! Não dá nem vontade de enfeitar a casa. Pra quê, né? Fazer festa e não ter nem uma lembrancinha para dar...
Por falar em festa, ia ser uma festa se você mandasse devolver aqueles 20 paus que você tungou da gente e deu para prefeitos e deputados.
Sabe seu Zé Noel, minhas veias estão estropiadas. Os meninos que passam de carro pra cima e pra baixo por elas, levando o que produzem, sem ajuda do seu governo, e pagando taxas altíssimas, quando não morrem em acidentes, acabam caindo nas mãos dos bandidos que você não prende porque deixou a polícia desaparelhada.
Nosso Natal nunca foi dos mais completos, mas pela primeira vez o dinheiro não vai dar para comprar o panetone, as castanhas do Pará e o CD de Roberto Carlos. A gente sabe que na sua mansão em Nova York suas filhas vão fazer bonecas de neve e ganhar brinquedos maravilhosos que só os gringos sabem fazer. Enquanto isso, na nossa Nova York, os professores vão cantar: "Jingle bell, jingle bell, acabou papel". O dinheiro não vai dar pra comprar, Zé Noel. Ele foi todo para a Camargo Correa, que você deu.
A gente não quer muita coisa, Zé Noel. Sabe, a gente ficaria satisfeito se você ao menos não levasse tudo. Mas, todos nós ficaríamos muito, mas muito felizes e até seriamos capazes de perdoar algumas de suas traições, era se, tocado pelo espírito de Natal você resolvesse devolver tudo o que você e seus amigos rouba, ops, "pegaram emprestado" com a viúva. Ia dar pra gente passar um Natal com um pouco mais de conforto. Quem sabe uma galinha assada e um bom vinho São Braz?
Os R$ 150 milhões da Camargo Corrêa, somados com os US$ 35 milhões gastos em propaganda, mais os R$ 25 milhões das estradas fantasmas, juntando com os R$ 15 milhões da MA-373, os R$ 20 milhões dos livros didáticos iam devolver um pouco de nossa alegria. Talvez desse até para receber aquele cunhado chato que esta sempre querendo filar um trocado. Faz um esforço, Zé Noel. Abre esse saco de iniqüidades, te despe de toda ambição e vaidade, e pensa nos meus filhos, que morrem à míngua enquanto tu e a madame se esbaldam sob as luzes de Nova York.
E que Menino Jesus te dê juízo. Nem que seja no dia do juízo final.