O Brasil registra um aumento de casos de doenças da tireóide e a causa é o excesso de iodo no sal. A afirmação é de um dos maiores especialistas em tireóide no Brasil, o endocrinologista Geraldo Medeiros Neto, professor da Faculdade de Medicina da USP e consultor do Ministério da Saúde.
O problema, diz, foi detonado em 1998, quando uma resolução da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) aumentou a proporção de iodo no sal. Passou de 40-60 g/kg (microgramas por quilo) para 40-100 g/kg. Em 2003, após estudos comprovarem que havia excesso de iodo na urina da população, os índices foram reduzidos para 20-60 g/kg.
O Ministério da Saúde alega que a mudança em 1998 foi em razão de pressões da indústria salineira. 'O setor teria reclamado que o limite mínimo de 40 e máximo de 60 g/kg de sal eram muito próximos, o que levava a erros de dosagens e, conseqüentemente, a multas', afirma Juliana Amorim, da coordenação de políticas de alimentação e nutrição.
O professor Medeiros Neto, que já era consultor do ministério da época, confirma. 'A alteração foi feita sem o aval dos assessores técnicos. Foi decidida pelo pessoal do segundo e terceiro escalões.' A indústria salineira nega.
Segundo Medeiros Neto, a ingestão de iodo em excesso durante um período prolongado _acima de três anos_ pode provocar o aumento da tireoidite crônica (tireoidite de Hashimoto) entre as pessoas que têm predisposição genética a doenças auto-imunes _15% da população, em média.
Pesquisas recentes feitas no país mostram incidência de até 20% de casos dessa doença, tipo mais comum de hipotireoidismo que atinge as mulheres e leva o organismo a produzir anticorpos contra a glândula tireóide, levando a uma inflamação crônica. O padrão internacional é de 7%.
'Não tenho dúvidas. [O excesso de iodo] é o gatilho que deflagrou esse aumento. As conseqüências aparecem mais tarde', diz ele.
Mas muitos médicos, como os endocrinologistas Mário Vaisman (UFRJ), Eder Quintão (USP) e Antonio Roberto Chacra (Unifesp), acreditam que o aumento dos casos esteja relacionado ao crescimento do diagnóstico da doença. 'Ainda não há estudos suficientes', diz Quintão.
Não há um padrão internacional para o nível de iodo no sal. Cada país tem sua norma, mas em geral varia de 20 a 100 g/ kg.