Num país de alarmantes desníveis sociais, causados, principalmente, pela falência do ensino público, chega ser assustador que interesses corporativos se sobreponham ao interesse público e causem danos irreversíveis à formação de milhões de brasileiros. A greve em 34 universidades públicas chega ao seu 95° dia sem que professores e, o Governo se empenhem realmente para buscar uma solução para a crise.
O bem articulado movimento para arrancar concessões do governo petista, que a bem da verdade não cumpre com o compromisso de valorizar a universidade pública, peca por não buscar uma solução contenciosa, já que o governo permanece impassível em relação às reivindicações da categoria. A intervenção do Ministério Público e conseqüentemente, do Poder Judiciário pode ser a solução, já que os direitos constitucionais dos alunos estão sendo feridos. Eles têm direito às aulas. O governo petista, pela sua insensibilidade, faz corar de vergonha até mesmo aqueles que antes se encontravam em trincheiras distintas quando, professores, com seus empregos e salários deteriorados pela política neoliberal dos tucanos, perdiam a cada ano as conquistas sociais duramente conquistadas.
Agora, são facções petistas que se digladiam. Professores, sindicalistas filiados à CUT, o braço sindical do PT, colocam o governo do PT contra a parede em busca de novas concessões que melhorem seus salários. Os docentes perdem, mas não tanto quanto os estudantes. Mesmo em greve - e isso já aconteceu 4 vezes de 2001 para cá- recebem seus salários integralmente sem trabalhar, mas os alunos, ao invés de um curso de cinco anos ficam na universidade mais dois anos por conta das greves, e esse tempo é irrecuperável. É uma violência que a sociedade brasileira não pode permitir.
Do outro lado da mesa de negociações, o governo ignora completamente o papel da educação pública. Quer forçar o sucateamento das universidades públicas, obrigando os estudantes a buscarem nas faculdades particulares o conhecimento e a formação que a sociedade lhes exige. O governo nada perde com a greve. Ao contrário, faz substancial economia de recursos, pois reduz o funcionamento da máquina e faz com que protele o pagamento das reposições salariais dos docentes.
No meio dessas posições extremadas e danosas para o Estado brasileiro, muitas e muitas gerações de futuros técnicos que poderiam estar no mercado, produzindo, gerando riquezas, mas que passam dois, três anos a mais nas universidades públicas em busca de qualificação, por culpa das sucessivas greves que emperram o funcionamento do ensino superior.
No Maranhão, os alunos dos cursos da UFMA estão sendo visivelmente prejudicados. Num estado com carência de médicos, dentistas, advogados, economistas e outros profissionais, é profundamente desumano que isso esteja acontecendo. E o pior é que esse quadro não tem nenhuma chance de ser revertido de imediato, pois nem o Ministério Público parece se entusiasmar a interferir no imbróglio e buscar uma solução que obrigue o governo a respeitar o direito dos alunos. O direito às aulas.
A situação beira o absurdo, quando se sabe que o vestibular e as provas do PSG foram adiadas, o que vai acarretar transtornos aos alunos que ainda vão concluir o ensino médio e tentar ingressar na Universidade Federal. Urge que seja buscada uma solução, ainda que temporária, para que não se destruam o potencial desses jovens que um dia sonharam em fazer carreira, usando como veículo a universidade pública e gratuita.