Sempre que se anuncia a presença de grandes empresas no Estado, passamos a viver a expectativa de que, finalmente, é chegada a hora da grande redenção do Maranhão. Assim foi com a Alumar, assim com a Companhia Vale do Rio Doce, enquanto estatal e enquanto empresa privada. Assim também está sendo com o Pólo Siderúrgico ora entravado pela ineficiência dos governos estadual e municipal.
Seriam estas empresas fenômeno de desenvolvimento econômico, geração de emprego e renda e potencialização do empresariado local. Já nos acostumamos a viver essa doce ilusão e não nos cansa repeti-la a cada vez que superamos a desilusão que ela acarreta.
Atos e fatos mais recentes envolvem a Companhia Vale do Rio Doce com essa teia de desilusões maranhenses. Dados fornecidos pelo SINCOPEM - Sindicato da Construção Civil Pesada do Maranhão, informam que a Companhia exporta 75 milhões de toneladas de minério e que dentro em breve essa exportação atingirá 100 milhões de toneladas. Para tanto, precisa melhorar a ferrovia e alterar pátios de manobra que foram preparados para trens de 2,8 Km e passarão a receber trens de 3,2 Km. Dentro de 1 ano terão que aumentar a capacidade de manobra de 46 pátios já existentes e construir outros. Isso implica, efetivamente, em obras de melhoria dos acessos aos pátios e na abertura de acessos às florestas que a Vale do Rio Doce possui, grande parte no Maranhão, e de onde, provavelmente, será retirado o carvão vegetal de que a empresa se utilizará.
Somados, os acessos representam 500 Km de estradas. Um investimento de 200 milhões de reais em 1 ano. O empresariado local esperava que estes 500 Km fossem divididos em 4 regiões de 125 Km para que pudesse participar do leilão de cotas. Mas a Vale do Rio Doce fez exatamente o contrário: juntou todas as obras, impossibilitando, assim, qualquer participação das empresas maranhenses de construção civil pesada. Sem contar a existência de critérios perversos, como o que exige um faturamento mínimo de R$ 90 milhões para participar das cotas distribuídas pela Vale, o que está bem distante da realidade maranhense.
O resultado mais visível disso, é que todas as obras devem ficar a cargo de grandes empresas de fora do estado. E, para desespero do empresariado local, suas firmas estão sendo consultadas com vistas ao aluguel das máquinas de que dispõem às empresas alienígenas.
Ao que parece, a Vale do Rio Doce já tem tradição nesse tipo de procedimento. Até para a construção de um simples muro contrata firmas de outras praças. Os empresários explicam que existem casos de empresas maranhenses que ganham as cotas de serviços, como se tivessem vencido uma Concorrência, mas acabam desistindo porque a Vale do Rio Doce reduz o preço até que se torne impossível a operacionalização da obra.
Como a Vale do Rio Doce é, hoje, integralmente, uma empresa de capital privado, não está sujeita aos rigores legais de uma licitação. Mas há um aspecto moral a ser observado nisso tudo. Afinal de contas, está instalada no Estado e goza de incentivos. Natural seria que algum compromisso tivesse com o Maranhão. Mas não. Aos maranhenses caberão apenas contratos para serviços de terraplenagem orçados em 300 mil reais, no prazo de 10 meses, considerado um exagero pelos empresários que dizem poder concluí-los em até 3 meses. Às empresas do esquema da Vale do Rio Doce, contratos que atingem R$ 180 milhões.
Esta postura da Vale para com um Estado que a recebeu sem opor óbices e assistiu, inerte, sua privatização, é incompreensível. Se existe um grande investimento a ser feito e se empresas maranhenses estão em condição de tocar as obras, essa seria a grande chance da Vale do Rio Doce retribuir parte do que tem tirado de nós.