Em meio ao caos denunciado por professores, servidores e alunos da Universidade Estadual do Maranhão, a reclamação mais comum diz respeito ao desvio irregular de verbas da entidade.
Durante a paralisação de advertência, ocorrida nos últimos dias 16 e 17, na qual servidores exigiam da reitoria da universidade e do governo estadual o cumprimento do acordo coletivo assinado em julho de 2004, servidores e alunos reclamaram irregularidades.
O presidente do Sindicato dos Trabalhadores da UEMA, Valber Tomé, fala do não cumprimento do acordo e do que ele considera um “assalto ao orçamento da UEMA” – os repasses de R$ 15 milhões à Universidade Virtual do Maranhão – UNIVIMA, de R$ 5 milhões para a GEAGRO, além de R$ 1,8 milhão para pagamento a “iluminados”, ironiza referindo-se aos secretários estaduais que receberam jetons, conforme denúncia feita pelo deputado César Pires (PFL) e confirmada pelo próprio lider do governo na Assembléia, Carlos Braide (sem partido).
A indignação do presidente do sindicato é maior com relação à quantia que falta para pagar o acordo: R$ 56 mil. “A direção da UEMA tem que ter uma outra postura critica. A universidade tem 5% da verba destinada à educação garantida e ainda assim fica de “pires na mão”. A biblioteca está há um ano fechada. No interior é uma calamidade, em todos os centros. Os laboratórios estão funcionando precariamente. Não tem livros. Quem sofre são os alunos”, denuncia.
Caos e jetons
Entre os muitos problemas apontados na instituição, o estudante Artemio Macedo fala da paralisação da biblioteca e da deficiência de livros. Diz que isso dificulta as pesquisas. Afirma que a UEMA não repassa verbas para os pesquisadores do Programa de Iniciação Científica. “As verbas vinculadas à instituição não foram repassadas até hoje”, denuncia. “Os estudantes de Veterinária estão pagando o material para pesquisas e o laboratório de informática não funciona”.
Apesar das opiniões contrárias, para o pró-reitor de graduação da UEMA, Raimundo Vale, não existe caos. “A UEMA é uma autarquia especial mantida pelo governo. Se há uma crise no Estado, ela se reflete na Universidade. A universidade tem problemas, sim. Mas não existe caos. Tem é crescimento”, avalia.
Segundo o pró-reitor, a afirmação de que a Biblioteca Central está parada não procede. “A biblioteca está funcionando em três turnos”, afirma. Vale diz que, com a reforma, parte do acervo foi deslocada, o que provocou um funcionamento parcial. “Os empréstimos estão prejudicados, mas as consultas estão normais”.
Raimundo Vale alega que a informação de que os laboratórios não estão funcionando não procede. Ele diz que alguns laboratórios da instituição têm conceito A. Quanto ao desvio de recursos para o pagamento de jetons a secretários estaduais afirma que o governo já repôs totalmente a verba. Ou seja, em algum momento a verba foi tirada.
Mensalão na universidade
Para a professora-doutora Zulene Barbosa, de Ciências Políticas, há nove anos lecionando na instituição, “a universidade tem que se afirmar como pública, democrática, de qualidade”. Diz que a classe docente tem um processo histórico longo de lutas. Reclama do não cumprimento do acordo firmado no ano passado entre governo e professores. “Quando do repasse da 2ª parcela eles romperam o acordo”.
“O mensalão já existe aqui desde o ano passado”, continua, referindo-se a deputados que segundo ela receberam premiações para votar contra o cumprimento do acordo. De acordo com a professora, apenas 30% da diferença prometida foi paga no final do ano. “O restante só em julho de 2006”, critica.
Zulene avalia a situação atual da UEMA. Além da paralisação da biblioteca e da defasagem dos laboratórios cita problemas havidos com o Restaurante Universitário, que voltou a funcionar recentemente, “depois de muita luta”. Diz que o quadro retrata a situação das instituições públicas do país. “O único caminho é a luta”, acredita. “O Maranhão é uma amostra do que está acontecendo no país: desvios de dinheiro público, corrupção, deputados premiados...Cabe aos que são vítimas desse processo denunciar”.
Univima – causando espécie
De acordo com o pró-reitor Raimundo Vale, os professores da UEMA estão em processo permanente de qualificação. Vale ressalta ainda que para elaborar um plano de cargos, carreiras e salários já existe uma comissão de professores trabalhando. A UEMA já tem um plano, mas está desatualizado”.
“Nos últimos dez anos mais de 550 professores foram nomeados através de concursos públicos, diz Vale. Isso é inédito nas universidades brasileiras. Hoje a UEMA conta com cerca de 23.000 estudantes entre cursos regulares e seqüenciais”. Em relação ao repasse de parte da verba do ensino superior destinado à UNIVIMA, o pró-reitor diz que a Universidade Virtual “é uma criação do governo que está causando espécie. A UEMA já estava trabalhando. Não havia sentido em criar uma universidade para fazer a mesma coisa”, avalia.
O estudante de História Artemio Macedo é outro que critica o repasse de parte da verba destinada ao ensino superior à Universidade Virtual do Maranhão. “A UNIVIMA não atende à realidade do ensino superior, não encaminha pesquisas, só capacita cursinhos pré-vestibulares. É um programa eleitoreiro. Essa dicotomia UNIVIMA/ universidade tem por objetivo sucatear a universidade e privatizá-la”, defende.