Por: Itamargarethe Corrêa Lima
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"Eu não consigo chorar. Parece que tem algo dentro de mim sem vida. Me sinto muito mal com isso. Dói minha cabeça, barriga, tudo, mas chorar, gritar, me desesperar, não faz parte da minha essência. Quando mamãe morreu tive o mesmo comportamento, e nem por isso a matei", declarou a carioca Camila Cristina Gomes Santos, 20 anos, presa acusada de ter envenenado os próprios filhos, Wesley Vinícius dos Santos Carvalho, 1 ano e 11 meses e a pequena Luisa Helena dos Santos Carvalho, de apenas 10 meses. O fato ocorreu no dia 2 de maio do ano em curso, na localidade Coqueiro, zona rural de São Luís.
Apesar dos indícios apresentados pela polícia, Camila continua negando que tenha matado os dois filhos. Eu falei com ela na sala de visita da carceragem do 13º Distrito Policial, no Cohatrac. Foi quando ela me contou que o nascimento de Luiza Helena, a filha mais nova, representou a realização de um grande sonho. "Sempre quis ter uma filha mulher, e quando Deus me concedeu essa graça, não seria louca de fazer uma monstruosidade dessa", declarou.
Diante das provas constantes dos autos, Camila afirma não ter como explicar o que aconteceu, entretanto, jurou inocência e ratificou o amor pelos dois filhos mortos envenenados.
Muito distante dali, na localidade do Coqueiro, Maria Helena Rodrigues Carvalho, 65 anos, avó do marido de Camila , coloca em xeque a forma carinhosa com que ela falou dos filhos. Com um leve sorriso no rosto, ela responde em tom de ironia a minha indagação sobre o comportamento da nora em relação às crianças: "Deixa quieto minha filha. Deus é quem sabe se ela era ou não uma boa mãe. Eu já estou sofrendo demais com essa história. Só sei de uma coisa, na hora que tudo isso passar, ela vai sair e continuar vivendo normalmente. Poderá casar, ter outros filhos, mas as crianças não. Elas tiveram a história de vida interrompida por uma desequilibrada"..
O sentimento de pai e marido
Wendell Rodrigues de Carvalho, 26 anos, é o marido de Camila e pai de Wesley Vinícius dos Santos Carvalho, 1 ano e 11 meses e a pequena Luisa Helena dos Santos Carvalho, as crianças envenenadas, e de Wendell Bruno, de 4 anos, que ficou vivo. Eu também falei com ele. Na entrevista, em nenhum momento, Wendell esboçou sentimento de ódio em relação à esposa. Com um olhar perdido e perturbado, pareceu-me que ele não consegue acreditar que a mulher tenha sido capaz de envenenar os próprios filhos. Mostrou ainda, como já era de se esperar, fraqueza diante dos acontecimentos.
"Eu não sei o que aconteceu lá. Na verdade, não sei nem o que pensar. Fico entre a cruz e a espada. Se meu sentimento de pai fala mais alto, tenho raiva; quando é o contrário, se penso como marido, sinto muita pena", afirmou. No dia da tragédia, Wendell estava em São Paulo, em companhia de alguns tios.
Ele conta que incentivado por Camila foi para São Paulo em busca de emprego."No início não queria deixá-los sozinhos, mas acabei decidindo viajar, para juntar dinheiro e, assim, puder comprar nossa casa. Agora em julho tinha o propósito de mandar buscá-la", disse. Um dia antes de começar a trabalhar, Wendell foi surpreendido com a trágica notícia.
O casal, que convivia maritalmente há 5 anos, aos olhos de todos parecia ter uma vida normal, embora, de acordo com alguns vizinhos, Wendell fosse manobrado por Camila. Apesar do desemprego, a família levava uma vida confortável. Familiares dele, que moram no Sudeste do País, mandava o que o casal e as crianças precisavam, incluindo roupas, brinquedos e eletrodomésticos. A alimentação diária era dada pela avó de Wendell. A casa onde moravam, à beira do porto do Coqueiro, era cedida pelo padrasto de Camila.
Quando perguntei se a atitude da mãe poderia ter sido motivada por problemas de infidelidade, tanto Wendell quanto Camila foram taxativos em afirmar que não. Já a avó de Wendell, mais uma vez, respondeu com um leve sorriso. Saí da localidade do Coqueiro com uma certeza, mesmo diante do ocorrido, o amor que ainda nutre por Camila é visível, entretanto, a pressão da família também.
A tragédia
No dia do triste episódio, Maria Helena, avó do marido de Camila, contou que amanheceu com um pressentimento ruim. Segundo ela, como era de costume, chegou na janela de sua casa e chamou pelas crianças, que moravam ao lado, tendo Camila respondido que as mesmas estavam assistindo TV.
"Quando foi um pouco antes do meio-dia, fui surpreendida pelos gritos dela dizendo que as crianças haviam morrido. Já sai daqui chorando. Quando entrei na casa, deparei-me com meninos deitados na cama, banhados, Wendell estava de cueca e Luiza Helena de calcinha. Ela foi fria, dissimulada, perversa. Não tenho palavras para descrevê-la. Esse ato não merece perdão nem dos homens, muito menos de Deus", disse. Revoltada, Maria Helena finalizou a entrevista dizendo que, no dia 23 de maio, Vinícius teria completado 2 anos, já a menina, no último dia 8, comemoraria um aninho.
Assim como avó de Wendell, a equipe médica que atendeu as crianças na Unidade Mista da Estiva, depois de serem levadas ao posto do Coqueiro, garantiu que, ao dar entrada, a menina ainda estava com os cabelos molhados. Camila desmente a informação, assim como também desmente que o desejo em voltar ao Rio de Janeiro teria motivado os crimes. "Isso tudo é mentira. Tinha apenas três anos quando cheguei ao Maranhão. Nem sei quem era minha madrinha. A pessoa que conheço no Rio é madrinha da minha mãe, e meus contatos com ela, diga-se de passagem, sempre foram via telefone".