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“Sempre quis uma filha. Não ia fazer essa monstruosidade”


Fonte: Edição 01
Data de Publicação: 19 de julho de 2005
 
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Como era Camila, mãe

Na comunidade o sentimento de revolta é geral. Todos acreditam que ela seja culpada e, ininterruptamente, perguntam-se como Camila teve coragem de fazer isso com os filhos. Considerada uma excelente mãe e dona de casa, a jovem gozava de muita simpatia. Além das vítimas, a mesma é mãe de Wendell Bruno, de 4 anos.

"Quando a notícia se espalhou, corremos para saber se era mentira ou não. Pensávamos que as crianças haviam ingerido algum medicamento. Diante da confirmação, fomos para casa dela e não arredamos pé de lá. Depois de saber o que realmente aconteceu, fiquei com tanta raiva de mim mesma. Como pude ter chorado com pena dessa mulher? Acho que ela é uma louca. Como uma mãe pode ter coragem de matar seus próprios filhos?", indagou revoltada a dona de casa Maria dos Remédios Silva.

Para Célia Costa a atitude de Camila não tem explicação. "Ela merece pena máxima. Se foi capaz de fazer isso com os próprios filhos, imagine o que não faria com os filhos dos outros. Espero que a Justiça se faça", finalizou.

Relatório

Encaminhado à Justiça no último dia 19, no relatório, além de indiciar a mãe das vítimas, Camila Cristina Gomes dos Santos, a delegada Ana Karla Silvestre Fernandes, informou o modus operandi da acusada. Ela foi indiciada por homicídio qualificado. Segundo a polícia, Camila Cristina envenenou os dois filhos. Primeiro, o veneno teria sido dado ao menino, e quando o garoto já estava morto, segundo testemunhas, ela foi vista na beira da maré, que fica ao lado de sua casa, com a criança nos braços.

A polícia acredita que a mãe teria pensado em jogar o corpo do menino na água, possivelmente para forjar um afogamento, mas mudou de idéia. Ainda segundo o relatório, após a morte de Wesley, a mãe deu o veneno para a menina de 11 meses. As duas crianças teriam sido levadas para o posto médico, limpas, banhadas e trocadas, conforme atestaram os médicos que as receberam.

O que diz a Psiquiatria

A Justiça já solicitou que seja realizado em Camila o exame de Sanidade Mental. Através dele, será emitido o Laudo Médico Psiquiátrico. A decisão de solicitar um exame dessa natureza é tomada em duas situações, estando uma ligada diretamente à outra. A primeira, quando a autoria de um crime é negada, já a segunda, faz-se necessário quando a suspeita recai sobre uma pessoa, a qual a posição que ocupa faz com que ninguém acredite ser ela autora do delito, como no caso de Camila, pois, normalmente, toda mãe tem como característica a super proteção.

Segundo o Dr. Manoel Ramos Costa Filho, professor da Universidade Federal do Maranhão, diretor da clínica La Ravardiere, funcionário da Pensão Pública Protegida Nina Rodrigues, que há 30 anos trabalha com Psiquiatria, 20 deles na área Forense, é grande a possibilidade de Camila ser autora do delito.

Ele afirma que acompanhou o caso pela imprensa, e se surpreendeu com a frieza de Camila. "Se ela realmente for culpada, com certeza, ainda na adolescência apresentou desvio de conduta, o que foi maquiado pela família. Aparentemente, ela pode ser vítima de uma personalidade psicopata, intitulada de frio de ânimo", disse.

Segundo ele, isso quer dizer uma pessoa que comete o crime, mas mostra inércia ao constatar o mesmo. A avaliação médica também será capaz de diagnosticar, o trauma que pode ter sido responsável pela psicopatia adquirida. Trauma esse, quase sempre, ligado à sexualidade. Camila deverá ser avaliada por ele e outros três especialistas, os quais compõem a Junta Oficial. Os profissionais terão um prazo de 45 dias para emitir o laudo.

Se for doente, ela deverá ser encaminhada a um manicômio judiciário. No Maranhão, como não existe esse tipo de ambiente destinado ao confinamento de apenados, ela ficará internada na Nina Rodrigues.

Apenas indícios são suficientes para condenar?

Ao chegar no 13º Distrito Policial, no bairro do Cohatrac, onde Camila Cristina aguarda o posicionamento da Justiça, deparei-me com uma jovem muito bonita, de traços finos, segura, espontânea e receptiva. Ao ultrapassar a porta que dá acesso ao chamado gaiolão, local onde a entrevista foi concedida, contrariando um dos princípios básicos do Direito, onde todos são inocentes até que se prove o contrário, tinha a certeza de que encontraria uma mulher fria e calculista.

Após vinte minutos de conversa, diante do meu sentimento de mãe, o qual me faz duvidar que ela tenha sido capaz de tamanha covardia, um fato não passou desapercebido. No início, Camila afirmou ter dificuldades em expressar sentimentos, mas logo em seguida, fazendo um certo esforço, não conteve as lágrimas que rolaram pelo rosto.

Em tom de indagação perguntou: "O que ganharia em matar os meus filhos? Nada. Estou aqui há vários dias, sem poder olhar o meu outro filho, sem saber se ele está doente, se tem fome, sem saber nada. Não sei como explicar o que aconteceu, só sei que acabaram com minha vida", declarou. Ao final da entrevista, após ser surpreendida por ela com um longo abraço, já não tinha a mesma convicção com que lá cheguei.

Em depoimento prestado no último dia 3, na 2º Vara Criminal, a mesma versão aqui apresentada foi dada por Camila ao juiz José Joaquim Figueiredo dos Anjos. Ela disse que era comum deixar os filhos só dentro de casa e, no dia do ocorrido, estava nos fundos lavando roupa, e quando entrou os dois já estavam desfalecidos no chão. A acusada também contou que, um pouco antes, recebeu a visita de um vizinho. "Quero que tudo seja esclarecido e o culpado preso. O que não pode acontecer é eu está pagando por um crime que não cometi", declarou Camila pouco antes de deixar o Fórum.

Recentemente, um acórdão do desembargador Bayma Araújo poderá ser dado como exemplo.Em tela, uma apelação impetrada pelo Ministério Público em um crime de estupro. O desembargador, ao manter absolvição do acusado, usou o princípio in dubeo pro reo, ou seja, na dúvida, absolve-se o réu. Na fundamentação do magistrado, em uma ação criminal, onde há a inexistência de testemunhas, não basta a comprovação da materialidade, mas também precisa estar evidenciada, a autoria.

Nesse caso, diante da firmeza em negar o delito, entretanto, a existência inegável dos indícios de autoria, a incógnita de saber se Camila é culpada ou inocente é uma realidade. Sendo assim, desta vez, esperamos que à Polícia Judiciária, o Órgão do Parquet e o Judiciário, não faça o mesmo que fizeram com Robério Silva, por exemplo. Ele foi preso, condenado há quase 20 anos pela morte do garoto Júlio César, um dos meninos intitulados "Emasculados". Anos depois, a polícia encontrou um tal Francisco das Chagas, que confessou o assassinato de mais de 40 adolescentes, no Maranhão e Pará, entre eles, a do menino que levou Robério ao banco dos réus. Pelo relato acima exposto, uma pergunta não pode deixar de ser feita às autoridades: É preferível a absolvição de um culpado ou a condenação de um inocente?

Versão

No dia do crime, para dar mais veracidade aos fatos, Camila afirmou que as crianças haviam ingerido um medicamento desconhecido, e que o fato ocorreu quando ela lavava roupa no quintal. Ela chegou a dizer que, ao serem encontradas, as crianças tinham fragmento do referido medicamento entre os dentes, o que não foi confirmado pelos peritos.

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