Por: Edson Moura *
"Quos Deus vult perdere prius dementat" (Quando Deus quer perder os homens primeiro os enlouquece).
Esse conceito, que data de tempos imemoriais, continua sendo atual. Demonstra que o fenômeno não tem nada de novo. Sucedem-se os tempos. Variam os cenários. Mudam os personagens. Surgem conjunturas diversas. Mas a essência das situações permanece inalterada.
O que perdura é o fato de que há momentos em que pessoas que se tornaram as mais altas expressões em diferentes domínios da atividade humana sofrem uma metamorfose de comportamento, cuja única explicação é uma perda de rumo.
Uma vez colhidos na espiral vertiginosa da perdição confundem as coisas e tornam-se agentes de uma empresa de auto-destruição, porque o primeiro atributo que perdem é o próprio instinto de conservação, como se estivessem sob o domínio de um poder maligno.
Prova de que isso não é apanágio de nenhum país foi o "affaire" que, em passado não muito distante, abalou a França e que teve por protagonistas o presidente da ELF (o equivalente francês da Petrobrás) e Roland Dumas, dono de uma das mais prestigiosas bancas de advocacia daquele país, ex-Ministro das Relações Exteriores e, na época, Presidente do Conselho Constitucional, a mais alta instância judiciária.
De quebra, como é de praxe, faziam parte do elenco figuras do submundo, inclusive a versão francesa de PC Farias. E, para completar o quadro, a inefável participação feminina (cherchez la femme, dizem os franceses que sabem das coisas), representada por Christiane Devier Joncour, como uma espécie de musa da bandalheira, que escreveu um livro de memórias que ela própria intitulou de "La Putain de la Republique".
Trata-se de um manual, ou breviário se se preferir, da arte da corrupção, com todos os clássicos ingredientes do poder, dinheiro e sexo em doses variáveis, mas numa combinação altamente volátil. Qualquer coincidência com situações análogas, locais ou não, presentes, passadas ou futuras, seria mera semelhança, no todo ou em parte.
* Edson Moura é professor aposentado