Fabio Henrique*
Severino Cavalcanti vem ganhando notoriedade por ser uma personagem folclórica, prato cheio para chargistas e humoristas de uma forma geral. Atributos para isso não lhe faltam: corpo atarracado, carregado sotaque nordestino e opiniões polêmicas expressas com uma boa dose de sinceridade (mesmo que seus objetivos sejam discutíveis). Primeiro foi a tentativa de aumento dos salários dos deputados federais; depois a malograda pressão pública exercida sobre o presidente Lula para que emplacasse um apadrinhado político na reforma ministerial. Uma das últimas estripulias de Severino foi a defesa, aberta e sem constrangimentos, de empregar em cargos públicos parentes, amigos e demais agregados.
Não há dúvidas que eticamente é uma decisão para lá de reprovável, pois mesmo que o agraciado demonstre realmente competência, fica comprometida a transparência de todo o processo. O caso assume mais repercussão e causa uma maior indignação por ser protagonizado por uma figura pública, nada menos que o presidente da Câmara dos Deputados, e só vem colocar mais descrédito na já combalida imagem da classe política brasileira. Leva-se às últimas conseqüências a constatação de que a família é uma entidade sagrada. Critérios de competência na admissão de funcionários, atentando para a confiabilidade por parte da sociedade? Segundo Severino Cavalcanti isso é mero artigo de luxo, ou, na sua peculiar maneira de expressão, quem reclama é porque não soube criar seus filhos.
Entretanto, para além deste caso particular, encabeçado por um representante um tanto quanto estereotipado do velho coronelismo, subjaz a persistente constatação de que no Brasil a indistinção entre público e privado assume muitas vezes o aspecto de uma convicção. Na montagem da chamada identidade nacional, ao lado do futebol e do carnaval, bem que poderia figurar essa visão de que é sempre mais salutar esperar pelas benesses do Estado, encarado ainda de forma paternalista e como tábua de salvação. Lógico que não dá para afirmar que todos são partidários dessa idéia, mas é um logro identificá-la somente às altas esferas de poder. É algo cujas manifestações podem ser vislumbradas desde o favorzinho que se pede ao amigo que se elegeu vereador até a escolha de ministros de Estado baseada não em critérios técnicos mas para satisfazer aliados políticos. São variantes do mesmo vício. Fala-se da criação de uma lei que proíba práticas nepotistas. Uma lei que deverá ser votada por muitos daqueles que pretende atingir. É difícil acreditar que a curto prazo alcance objetivos significativos. Talvez surjam argumentos que, apesar de nos deixarem roxos de raiva, têm lá a sua graça. Como uma vez em que, após empregar a mãe e a esposa, e justificando que em seu gabinete eram necessárias pessoas de confiança, um prefeito disparou: "Uma dorme comigo e a outra me pariu. Se eu não confiar nelas, vou confiar em quem?" A família é realmente uma instituição falida.
* Fabio Henrique é graduado em História e estudante de Comunicação Social