Ao bairro que falta estrutura, sobram histórias. Ivanhoé Souza Pereira, 44, morador da Cidade Olímpica há 8 anos, lembra algumas delas. Fala com propriedade da luta dos moradores pela terra – foi um dos fundadores do bairro. Diz que foram quase sessenta dias dormindo no local, em um galpão onde os ocupantes armavam suas redes. Foi assim até que a então governadora Roseana Sarney comprou a área da Butano, proprietária do terreno e assinou um acordo através do qual os ocupantes passaram a moradores. Ivanhoé recorda uma noite em que os “jagunços” (como ele chama) da Butano vieram com cerca de 300 policiais. “Na ocasião tinha menos de 100 pessoas dormindo, lembra. Nos armamos de pedras e pau. Foi uma briga boa”.
Quem também guarda as lembranças da luta pela terra é José Luís Menezes. “No início foi muito tumulto, inclusive com a polícia. A Butano não queria liberar a área. Foi a governadora Roseana Sarney que comprou e doou para os ocupantes. Na época, quase perdi o emprego. Lutei muito para conseguir o que tenho hoje. Foram vários conflitos de invasores com a polícia. Lutei muito para conseguir o que tenho hoje”, garante.
Os nomes das avenidas são testemunhas da luta pela terra. Uma delas, a Avenida Jailson (uma das duas únicas asfaltadas), é uma homenagem a um jovem de 14 anos que segundo Ivanhoé teria sido morto pelos “jagunços da Butano”. O rapaz teria desaparecido no dia 24 de dezembro, tendo sido achado morto em 25 de fevereiro, na Bacia. Ivanhoé conta que o lugar era vigiado pelos jagunços, que proibiam a passagem de moradores por lá. “Chagas (Francisco Chagas) assumiu que tinha matado, mas foram os jagunços”, garante.
A Avenida 29 de dezembro lembra o dia em que os moradores botaram os jagunços para correr. O dia em que tiveram inícios as negociações entre a Butano e o governo é lembrado pela Avenida 23 de janeiro. Já a 23 de março é a data em que a governadora Roseana Sarney comprou as terras da Butano.
Apesar da solução dada ao conflito pela então governadora Roseana Sarney, o problema não está definitivamente solucionado. Segundo o presidente da Associação de Moradores, embora o perigo da desocupação tenha sido afastado, o Estado ainda é oficialmente o dono da terra. Os moradores deveriam receber os títulos de posse, mas a Secretaria de Desenvolvimento Social, antiga GDS, responsável pelo cadastro dos moradores, resolveu fazer o cadastro como se fosse do município de São José de Ribamar. A comunidade não aceita. A lei de 1985 diz que a Cidade Olímpica pertence a São Luís, defende Darlan.
Falta de saneamento e doenças
Em outro ponto da Cidade Olímpica, próxima ao bairro Santa Clara, uma grande área onde se acumulam o mato e o lixo é hoje um problema para os moradores do bairro. A “Bacia”, como é conhecido o lugar, serviria para o sistema de escoamento de águas fluviais, segundo informações de José Adail Fernandes, 46, comerciante, há 8 morador do bairro. “Agora está entupida. A água alaga tudo. Quando chove vira mar, diz o morador referindo-se à avenida principal e às ruas no entorno.
A mesma informação é dada pelo presidente da Associação de Moradores. “Aqui falta infra-estrutura. Não tem saneamento. Em 90 % das casas nem existe fossa, só buracos no chão”, denuncia. Já reclamaram até na FUNASA (Fundação Nacional de Saúde). O problema já foi tema de um encontro de dois dias em um hotel na cidade.
Segundo Darlan, a falta de saneamento provoca doenças nos moradores. Ele diz que este ano já foi registrado um caso de Calazar e um de meningite, esse com óbito. Há algum tempo, uma outra pessoa morreu em conseqüência da doença, de acordo com o presidente.
Apesar do tamanho do bairro e da população residente no mesmo, a Cidade Olímpica conta com apenas três postos de saúde que funcionam apenas de dia, em sistema de saúde preventiva. No local não existe atendimento emergencial.
Quem precisa desse tipo de atendimento tem que se deslocar até o Socorrão II, na Cidade Operária. O presidente da Associação de Moradores diz que a comunidade já solicitou à Prefeitura o serviço de emergência, mas até agora não houve retorno do pedido. “Estamos esperando há seis meses”.
Água é luz são outros problemas para os moradores. Atualmente, o bairro conta com um poço artesiano construído pela Prefeitura e que serve a uma parte da população. Segundo Darlan, existem ainda os poços particulares, onde a água é vendida a R$ 2,50 (dois reais e cinqüenta centavos) o tonel. Quanto à energia, o presidente cita a Vila Sapinho, uma invasão. Diz que existem cerca de 1500 famílias morando no local. “Lá, só tem gambiarras”, garante.