Quando esteve no Estádio Castelão para cobrir o jogo entre as seleções do Brasil e de Portugal, o falecido jornalista e ex-técnico da Seleção Brasileira João Saldanha disse que o estádio era uma berrante evocação das desigualdades de um estado pobre como o Maranhão. Segundo ele, o gigantismo do Castelão contrastava com a miséria quase absoluta, do que ele chamou de “favela: o bairro do Barreto.
Passados mais de 25 anos, o bairro ainda parece estar mais próximo de uma favela que de um bairro. Ali falta tudo. Falta iluminação pública adequada, calçamento, esgoto sanitário, posto médico, policiamento ostensivo e preventivo – embora esteja a menos de 200 metros do gabinete do secretário de Segurança Raimundo Cutrim. Ou seja, a indignação do falecido jornalista está hoje estampada na revolta dos moradores do bairro ante o desprezo a que foram relegados pelo prefeito Tadeu Palácio e pelo governador José Reinaldo.
Encravado entre a Avenida dos Franceses e a Avenida João Pessoa, o Barreto pode ser percorrido em pouco mais de meia hora. Com apenas 4 ruas e 13 travessas, em 35 anos de existência, sofre, visivelmente, com a total ausência de ações do poder público. A população - estimada em 1.800 pessoas, tem duas grandes reivindicações: ações sociais do Governo do Estado que gerem trabalho, permitindo aos jovens se integrar à sociedade, e um grande trabalho de infra-estrutura, que os tirem das condições subumanas em que vivem. “Seria interessante que fossem desenvolvidos programas sociais, pois só assim conseguiríamos minimizar a ociosidade dos jovens que, muitas das vezes, deixam-se enfeitiçar pelo dinheiro fácil oriundo do tráfico que impera no local”, declarou a diarista Maria de Fátima Silva.
Violência e medo
A falta de policiamento, repita-se, apesar da proximidade com a Secretaria de Segurança e de um batalhão da PM – provoca pânico entre os moradores. Esse pequeno núcleo encravado na parte baixa do Castelão abriga algumas das quadrilhas de traficantes que agem na área. Todos têm medo. A simples presença de Veja Agora no local provocou a desconfiança entre os traficantes. A todo momento olheiros do tráfico passavam pela equipe de Veja Agora buscando informações sobre o objetivo de nossa ida ao local.
Ainda segundo Francinete Rodrigues, presidente da Associação dos Moradores, a grande melhoria vivida no bairro aconteceu em 2003, quando Ricardo Murad esteve à frente da extinta Gerência Metropolitana. “O nosso maior tormento era o inverno, pois a água que escorria do Castelão inundava o bairro. Com a abertura do canal na Avenida dos Franceses, feita por Ricardo as coisas melhoraram sensivelmente”, disse.
Alvo fácil
O prefeito Tadeu Palácio é o alvo favorito da ira dos moradores. As reclamações vão desde as péssimas qualidades na coleta de lixo, passando pela iluminação pública, acabando na falta de saneamento básico e segurança. Segundo a dona de casa Maria Lourdes Pereira, o carro de lixo só percorre duas das ruas asfaltadas. “Eles nunca passam no mesmo horário e muitas vezes somos obrigadas a correr atrás do caminhão para jogarmos o lixo fora. Senão, temos que colocar as sacolas num terreno ali em frente, transformando a área no lixeiro a céu aberto”, disse.
“O Barreto mais parece terra de ninguém, mas em se falando de Executivo, cruz credo. A mim dá até nojo quando vejo esse prefeitinho na televisão falando meia dúzia de mentira”, declarou um senhor, aposentado, que temendo represálias pediu anonimato. Disse em tom de desabafo que a população tem o governo que merece. Ele ratificou a informação da presidente da Associação. “Quando Murad estava na Metropolitana o Barreto parecia um canteiro de obra, mas de lá pra cá, esse governo inoperante e corrupto não fez mais nada. Veja se alguém procurou votar no candidato certo. Ao contrário, preferiram continuar com uma administração que só tem embelezado a parte nobre da cidade”, finalizou o aposentado.
Escola precária
A qualidade da única escola existente no local é uma calamidade. O Rivanda Berenice, sem dúvida, precisa de uma reforma urgente. Apesar das péssimas condições, no turno matutino funciona o ensino fundamental de 1ª a 4ª série, as aulas do ensino fundamental de 5ª a 8ª acontecem no período vespertino. Já à noite é a vez do ensino médio.
Para o comerciante Gaudino Santos Cabral, 54 anos, fica até difícil se falar em administração pública, seja ela estadual ou municipal, pois a única benfeitoria feita pelo poder público no bairro, foi à construção das galerias que, muitas das vezes, funciona como transmissor, em potencial, de doenças. “Eu já nem cobro mais melhorias. Antes eles alegavam que não tinham como escoar a água, por isso a dificuldade em sanear o bairro. Daí teve um corajoso que veio e abriu o canal, mas cadê que o saneamento foi concluído? Na verdade, esses políticos que aí estão não fazem nada porque não priorizam o bem estar da população”, finalizou.