Numa demonstração clara que adota um discurso diferente do que pratica, o Partido dos Trabalhadores do Maranhão foge de suas responsabilidades e tenta evitar a elucidação das denúncias do envio de R$ 327 mil não declarados à Justiça Eleitoral. O presidente do PT, Washington Luiz foi o primeiro a demonstrar que tem medo de enfrentar a imprensa, quando antecipou o depoimento que daria ao delegado Charles Sobrera, que preside o inquérito instaurado a pedido do procurador regional eleitoral Juraci Magalhães. O depoimento de Washington Luiz estava marcado para a última quinta-feira, dia 30, mas para fugir da pressão da imprensa o advogado Dimas Salustiano, que representa o PT, pediu ao delegado a antecipação para a terça-feira, dia 28. Um petista de carteirinha disse que Washington foge da imprensa como o diabo foge da cruz.
O Diretório do Partido dos Trabalhadores no Maranhão não consegue unificar o discurso e explicar, de forma clara e lúcida, as denúncias formuladas pela revista Época e pelo jornal Folha de São Paulo sobre o suposto envio de uma mala cheia de dólares da Executiva Nacional para o pagamento de despesas de campanha da candidata do PT ao Governo do Estado em 2004, deputada Helena Heluy.
Silêncio conveniente
Adotando posturas que sempre foram condenadas pelas principais estrelas do partido, a alta cúpula petista no Maranhão se esquiva de dar as explicações à sociedade e várias são as versões "oficiais" apresentadas até agora. Um dos principais líderes petistas e uma das pessoas que poderiam elucidar a história toda, o deputado estadual Domingos Dutra, secretário-geral do PT, vem evitando a imprensa para não falar sobre o assunto e chegou até mesmo a deixar de comparecer à Polícia Federal, na quinta-feira, para depor diante do delegado Charles Sobrera.
Depois das denúncias envolvendo o ex-ministro da Casa Civil José Dirceu, o tesoureiro do PT, Delúbio Soares e o deputado Roberto Jefferson, a revista Época e o jornal Folha de São Paulo publicaram reportagens dando conta que a direção nacional do Partido dos Trabalhadores teria enviado uma mala de "verdinhas" (dólares), num total de R$ 327 mil para o pagamento de despesas de campanha do PT local. A Folha se baseou em informações do tesoureiro Luiz Henrique Souza, em reunião realizada em janeiro deste ano, quando teria dito que havia recebido uma mala contendo 327 mil reais.
Contradições
A deputada Helena Heluy negou que tenha se beneficiado da suposta ajuda e disse que dos R$ 217.879,79 gastos na sua campanha e declarados ao TRE, o diretório regional pagou 166 mil reais, sendo que destes, 150 mil reais foram para a agência de publicidade Opendoor Comunicação para a produção de programas de rádio e TV. Outros 16 mil reais teriam sido pagos pelo PT diretamente à Gráfica e Editora Nortesul pela confecção de cartazes e panfletos da candidata. A deputada também negou que tivesse participado de alguma reunião com o tesoureiro Luiz Henrique Souza onde tivesse sido relatada a existência da tal mala de dólares.
Ocorre que o publicitário Rogério Ferreira, dono da Opendoor e responsável pela campanha de Helena e de mais 16 candidatos do PT no Maranhão, disse em seu depoimento à Polícia que forneceu a nota fiscal solicitada pela deputada para a prestação de contas de sua campanha a prefeita, mas que recebeu dela dois cheques sem fundos de R$ 90 mil, R$ 180 mil, portanto, e não os R$ 150 mil que Helena declara. O publicitário afirmou à Polícia Federal que nada recebeu pelas campanhas que fez para o PT no ano passado, apenas cheques sem fundos que somam R$ 538 mil. Rogério esteve inclusive com José Genoíno e Delúbio Soares, presidente tesoureiro nacional do PT, que garantiram pagar ao publicitário a partir deste mês. Ele agora quer R$ 800 mil, por causa do atraso.
Em depoimento à PF, o tesoureiro do PT local, Luiz Henrique Souza, disse desconhecer a existência da tal mala. O petista informou que a Executiva Nacional do partido fez um único repasse para a direção local, no valor de 75 mil reais. A afirmativa do tesoureiro desmente a informação prestada por Washington Luiz Oliveira, presidente regional do PT, que afirmou ter recebido apenas 68 mil reais de Brasília. A informação de Henrique Souza também desmente as informações que foram prestadas por ele mesmo à Folha. O jornal afirmou que teria sido o tesoureiro do PT quem passou as informações sobre a mala de dinheiro.
O PT fujão
O mais estranho nessa história é o comportamento do deputado Domingos Dutra. Como secretário geral do partido, cabe a Dutra a elaboração das atas das reuniões do partido, onde supostamente a notícia da mala de dinheiro teria sido comunicada pelo tesoureiro Luiz Henrique Souza aos membros da direção do partido. Se a reunião existiu - e ela foi confirmada pelo tesoureiro, embora negue que ali se tenha tratado do assunto - Dutra é omisso, pois jamais redigiu a ata do encontro.
Mesmo instado pela deputada Helena Heluy, sua companheira de bancada na AL, a se pronunciar sobre a falta da ata dessa e de outras reuniões que teriam acontecido posteriormente, Dutra optou pelo mais absoluto silêncio, ao contrário de sua postura habitual, sempre eloqüente em reuniões informais, quando tem feito ácidas críticas - com denúncias de supostas irregularidades - à administração de Washington Luiz, com quem vai disputar o controle do PT na eleição prevista para setembro.
Para quem sempre manteve uma atitude cobrança dos adversários, a postura de Dutra surpreende aos observadores. Dutra tinha um depoimento marcado na última quinta-feira na sede da Polícia Federal, em São Luís, onde daria sua versão sobre a existência ou não da mala de dólares. Entretanto, abusando de sua prerrogativa de parlamentar, ele simplesmente não se apresentou ao delegado Charles Sobrera e nem deu explicações à imprensa, que chegou a especular que Dutra, ou estava com medo da polícia, pois não teria as respostas que se fazem necessárias ou estava ampliando o tempo que precisava para criar as condições necessárias para depor, inclusive elaborando as tais atas que não existem e que deveriam narrar o que realmente aconteceu nas reuniões em que foi tratado o assunto de despesas de campanha e a tal mala de "verdinhas".