O deputado estadual Chico Gomes (PFL) é um dos mais preparados parlamentares em atuação no Maranhão. Firme, comprometido com os anseios da população, ele diz nesta entrevista exclusiva ao Veja Agora, que ficou contra o governador José Reinaldo antes mesmo do rompimento dele com o grupo político que o ajudou, por causa da inoperância e da omissão do governo. Chico Gomes lembra que José Reinaldo tinha apenas 3% nas pesquisas em 2002 quando o PFL, com Roseana à frente, deu-lhe as condições para eleger-se. Hoje, constata o deputado, José Reinaldo é refém de uma oposição que mesmo sabendo de toda a corrupção se aproximou para levar vantagem. A seguir, os principais trechos da entrevista.
Deputado, como o senhor está vendo a situação política no Maranhão?
No Maranhão, nós vivemos uma situação bastante grave. O PFL elegeu o governador, elegeu a maior bancada na Assembléia Legislativa e devido a essa prática política da própria legislação que orienta os partidos políticos e as eleições, o que é que nós assistimos? O governador resolveu usar o mandato da maneira que ele bem entende, sem seguir nenhum compromisso com o partido que o elegeu, que lutou por ele. No início da campanha, em 2002, ele tinha 3% da preferência dos votos, e foi o PFL, o partido mais forte que tem hoje no Maranhão, que o levantou com seu grupo organizado em todos os municípios do Maranhão, levou o seu nome às bases, junto ao eleitorado, e ele conseguiu ser eleito.
Depois disso ele não tem mais compromisso com o partido, não tem mais compromisso com o grupo político, não tem mais compromisso com nada. Os compromissos dele são outros, e o Maranhão entrou nesse caminho que nós vemos até hoje. Nós não temos um governador com pulso, nós não temos um governador que tenha o controle da situação do Estado, nem administrativa, nem politicamente e nós sentimos esse vazio, esse vácuo no poder. A gente sente que é um Estado que não tem governo, que não tem governador. É um Estado, um governo, que peca pela omissão. Omissão de fazer aquilo que o povo está esperando que seja feito. A omissão de cuidar daquilo que já está feito e tem de ser conservado, preservado, como o caso das nossas estradas, das nossas escolas, dos nossos hospitais, que estão todos sendo sucateados.
E ele não está cumprindo o que prometeu em campanha?
Nada! Nada daquilo que ele prometeu em campanha está sendo cumprido. Absolutamente nada. Acho que ele até esqueceu tudo aquilo que foi escrito. Ele começou a querer implantar, até mesmo antes da eleição, uma forma de campanha política e depois esqueceu todos os programas sociais do governo. Programas que já existiam e ele continua dizendo “O Maranhão é o estado mais pobre da Federação”. É o Estado mais pobre em termos de renda per capta, não em IDH – Índice de Desenvolvimento Humano, mas de renda per capta é, apontado pelos dados do IBGE.
Mas ele, a despeito disso, esqueceu os programas que beneficiavam essa população mais pobre, como o programa Viva Luz, que dispensava de pagamento da conta de energia os consumidores mais pobres que consumiam inicialmente 30 kw, depois até 40 kw. Isso era um grande alívio para essa população pobre. Ele acabou com o programa do Primeiro Emprego, que era uma oportunidade de dar uma experiência de trabalho a jovens que nunca exerceram uma profissão e que ali, durante aquele período, eram treinados, capacitados, e que tinham uma vivência de trabalho, oportunizando uma melhor colocação no mercado de trabalho. Foram programas destinados à população mais pobre que ele extinguiu e isso com um prejuízo muito grande para a população pobre do Maranhão. E a situação que nós vemos no Maranhão é essa. É um caos; tudo se acabando, piorando cada vez mais a nossa situação em todo o Estado e em todos os setores.
Na sua opinião, qual seria o interesse da chamada oposição nessa aproximação com o Governo?
Havia uma oposição no Maranhão construída ao longo de muito tempo, que tinha uma característica de luta, como oposição. E hoje eles se aliaram ao governo e perderam a sua identidade como oposição no Maranhão. Continuam dizendo que são oposição mas não têm mais essa identidade de oposição. Ele estão apoiando, defendendo esse governo que está aí, nessa situação que está aí, nas corrupções que existem.
Hoje a oposição está batendo palmas para tudo isso que está havendo aí: desvio de recursos públicos, as estradas fantasmas. Eles acobertam tudo isso aí. Eu acho que esse pessoal todo perdeu a sua identidade como oposição no Maranhão.
Diante disso, qual leitura o senhor faz do quadro para 2006?
Eu ando muito pelo interior do Maranhão, especialmente em cerca de 30 municípios da Baixada Maranhense. Nós vemos um favoritismo muito grande da candidatura de Roseana Sarney ao governo do Estado. Sei até de pesquisas que foram feitas recentemente que comprovam isso. Mas eu comprovo no dia-a-dia no interior – uma saudade que o povo tem do governo de Roseana, que era um governo que existia de fato; realizando, fazendo grandes obras e beneficiando a população mais pobre desse Estado.
Eu dirigi um dos programas mais importantes desse governo que foi o Comunidade Viva, e nós tivemos a oportunidade de ouvir as comunidades. Não era o governo que ditava o que deveria ser feito. Nós ouvíamos as comunidades, as aspirações da comunidade. E era a própria comunidade que apresentava a sua reivindicação, através de um projeto, e o dinheiro era repassado à comunidade. Era o programa mais descentralizado que existia no Maranhão. E era a própria comunidade que contratava a empresa que iria fazer as suas obras, que contratava a assistência técnica que deveria assisti-la na execução dessas obras, dos serviços que eram feitos.
Nós tivemos oportunidade de implantar 5 mil quilômetros de rede de eletrificação rural no estado do Maranhão. Foi o maior programa de eletrificação rural que já teve no Maranhão e que não foi feito para isso. As comunidades, pela carência que existia disso, reivindicavam em primeiro lugar a energia elétrica – a reivindicação primeira das nossas comunidades. Em segundo lugar as estradas. E aí o abastecimento d’água. Outra grande reivindicação era a melhoria habitacional, das casas, e assim, uma série de programas que partiam da própria comunidade.
Fale-nos mais desse caso das estradas fantasmas....
Eu confesso que aplaudi o Ministério Público quando ele desvendou toda essa questão, quando constatou a inexistência dessas estradas, o que já havia sido denunciado pela imprensa. Ele constatou que as localidades de onde deveriam partir e chegar essas estradas não existiam, eram nomes fictícios, e que o dinheiro foi pago efetivamente, não só aquele da licitação, que era um limite de até R$ 150 mil, que era carta-convite, mas todos eles foram aditivados. Quer dizer, esses recursos não foram suficientes para construir aquelas estradas que nunca existiram, mas foram aditivados e pagos sem ter nada construído. Tudo acertado, tudo autorizado, como foi constatado.
O que nós estranhamos é que depois disso, desse trabalho do Ministério Público, a Justiça quase que perdoa tudo isso – “não, as empresas podem continuar fazendo, trabalhando para o Estado”. Eu estranhei muito essa atitude da Justiça ao anistiar, praticamente, essas empresas que participaram desses atos ilícitos na construção de estradas e pontes no Maranhão.
O que o senhor acha de um governo que gasta 30 milhões de dólares com propaganda e que briga com senadores maranhenses reclamando um empréstimo no mesmo valor, dizendo que é para o combate à pobreza?
Do empréstimo, culpo inteiramente o governo do Maranhão por até hoje não ter saído esse recurso. Se o governador quisesse efetivamente resolver o problema, se ele tivesse isso como uma bandeira de luta sua, trabalhar pela elevação do IDH no estado do Maranhão, ele estaria dando apoio já ao programa Luz para Todos, que é um programa do Governo Federal, que tem uma contrapartida do Estado que é de 10% e até hoje ele não deu absolutamente nada. Mas o programa está continuando com recursos do governo federal e com uma contrapartida de 15% da CEMAR, e a do Estado era menor, de 10 %, mas até hoje ele não colocou um tostão nesse programa. E é um programa que está levando alegria a nossa população e à população mais pobre do interior do Maranhão.
Cerca de 1 milhão de maranhenses que viviam e vivem na escuridão – a grande maioria deles ainda, e que estão recebendo isso como o grande programa da vida deles; é ter energia elétrica.
Esse é um ponto do governador em relação à questão dos pobres. Ao outro eu já me referi: os programas que tinham para os pobres: o Viva Luz, Primeiro Emprego, e que ele acabou com tudo isso. Então, ele não gosta de pobre não. E eu quero constatar mais uma vez que ele não gosta de pobre; há muito tempo não se via a nossa Polícia Militar ser comandada para bater em pobre, como aconteceu em Vitória do Mearim, com os trabalhadores rurais que apanharam, foram metralhados, baleados e foram presos injustamente durante muito tempo aqui, e agora em São Bento, recentemente, quando pescadores também foram presos, espancados na rua, em frente à Câmara Municipal quando foram pedir apoio aos vereadores para uma luta sua e foram espancados pela Polícia Militar.
Então esse é o tratamento que o governador dá aos pobres do estado do Maranhão. É a polícia para bater. E a polícia que é formada de filhos de pobres também, de lavradores, mas que estão ali treinados e comandados. Alguém comandou que é o responsável por tudo isso. Para mim, quem é o comandante geral da Polícia é o governador do Estado.
E os gastos com propaganda?
Essa análise toda que eu estou fazendo é exatamente em cima disso. Se o governo destinasse pelo menos 2/3 desses recursos efetivamente em obras que o estado precisa, ele estaria fazendo um grande trabalho a favor dos pobres do Maranhão, ao invés de empregar em uma propaganda que tenta tapar aquilo que ele não faz. Esse vácuo que existe, essa omissão que existe no governo, esses desvios que existem no governo e que ele fica gastando todo em publicidade, em propaganda, em coisas que não existem. Como agora mesmo, a gente vê nos ônibus ele fazendo uma propaganda de educação. Ele bota um “quadrozinho” negro de um lado, que não dá nem para a gente ler – quase ninguém lê aquilo, mas está sendo gasto dinheiro naquilo.
Era antes, e agora depois. Antes era o número de matrículas que tinha no ensino médio, que efetivamente funcionava. E não era só aquilo. Aquilo era só nas escolas do Estado. O Estado não tinha assumido ainda todo o ensino médio do Maranhão, mas ele era conveniado com as prefeituras. Eram as prefeituras que mantinham o ensino médio. O Estado era conveniado e repassava recursos mensalmente para que os municípios pudessem pagar os professores dessas escolas. Porque? Porque o Estado não tinha condições de assumir tudo isso de uma vez.
Como esse governo fez? Quis assumir tudo e até hoje não funciona. De que adianta ele botar 300 mil matrículas se não tem aula, se não tem professor? Se os professores não são pagos? O ano passado foi um ano perdido na educação. Esse ano, esse semestre já foi um semestre perdido. As escolas começaram as aulas em abril, maio, outras em junho, e já estão de férias em julho. Então isso aí é uma propaganda enganosa. Se gastou 30 milhões de dólares em propaganda, são propagandas enganosas, efetivamente enganosas.
Deputado, mensalão é a palavra da moda na política brasileira. Na sua opinião há ou houve mensalão no Maranhão? Na eleição da Mesa Diretora da Assembléia, por exemplo, o deputado Carlos Braide disse que havia deputado recebendo cheque de R$ 100 mil.
O fato da denúncia do Deputado Braide houve, realmente está nos anais da casa, mas não houve nenhuma comprovação. Agora a distribuição de cargos, ou seja, loteamento de cargos isso aí está comprovado. Todos os parentes de deputados que passaram a apoiar a nova mesa da Assembléia, assumiram cargos importantes da hierarquia do Estado.
Então, os deputados teriam sido comprados para eleger João Evangelista?
Eu não digo comprados, mas sim cooptados, atraídos por estes cargos.
Deputado, para concluir, gostaria que o senhor fizesse uma avaliação da sua atuação na Assembléia.
Quando fui eleito deputado, eu olhei o resultado das urnas e vi que fui efetivamente votado na baixada maranhense, pela baixada maranhense: lá eu tive cerca de 22 mil votos. Então a baixada maranhense votou maciçamente em meu nome e eu vim para assembléia cumprir o meu compromisso com essa região. Vim aqui para isso. Logo no começo, por causa do descaso com a baixada, tornei-me independente, sozinho, pois não concordava com as ações do Governo José Reinaldo, daí passei a fazer críticas ao governo e votar contra tudo aquilo que não seja em beneficio do povo. Quando o governador rompeu com nosso grupo, passei a me posicionar como oposicionista ao Governo, pois não podia continuar com apoio a um governo inoperante, com um governo sem ação, um governo omisso.