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Prefeitura abandona as feiras de São Luis
Fonte: Edição 02 Data de Publicação: 1 de julho de 2005 | | |
| Grandes geradoras de emprego e renda As feiras fazem parte da história de São Luis. Cada bairro tem a sua feira particular, com suas características e peculiaridades. Existem as mais antigas, as maiores, as mais tradicionais, mas todas têm a merecida importância. Muitos dependem deste trabalho para sobreviver e sustentar várias pessoas.
A feira do Mercado Central, a mais antiga da cidade, foi fundada em 1937, devido ao grande número de feirantes que não tinham onde trabalhar e comercializavam suas mercadorias por conta própria, ao ar livre. “Hoje trabalham aqui cerca de 1500 feirantes, diretos e indiretos, já que muitos contam com o auxílio de dois ajudantes”, conta Sebastião Oliveira, administrador da feira do Mercado Central. 
Sempre muito movimentada na feira do Mercado Central podem ser encontrados, quase todos o produtos típicos da Ilha como alhos, ervas, temperos, o camarão rosa, pescado em Tutóia, e a farinha biriba, por exemplo.
Outra feira muito tradicional é a do João Paulo, criada em 1978, na Praça Ivar Saldanha. Depois foi transferida para um espaço no João Paulo, cedido pela prefeitura. Um mercado foi construído, já que o número de feirantes era muito grande.
Em 1999, prefeitura terceirizou o mercado para os feirantes de São Luís. Segundo a presidente da feira do João Paulo, Domingas Cutrim, foi bom porque as pessoas tomaram mais cuidado, mas o poder público nunca mais fez reparos na estrutura, nem na fiação elétrica. “O dinheiro que arrecadamos só dá para manter nossos funcionários, que são muitos. O poder público é muito ausente”, reclama.
Metropolitana iniciou mudança e governo barrou
São 29 feiras em São Luís sob a responsabilidade da prefeitura. A maioria funciona em condições precárias de infra-estrutura e de higiene. Mas o Instituto Municipal de Produção e Renda (IPR), já anunciou que o projeto de revitalização das feiras e mercados ainda vai demorar para ser implantado. Se for implantado. A prefeitura calcula que a modernização das feiras vai custar R$ 17 milhões.
Entre as feiras com mais problemas estão a da Cidade Operária e a da Cohab. Esta semana o IPR anunciou que a prioridade será a construção do novo mercado da Cohab. Mas, não era para a feira da Cohab estar na atual situação. Um projeto de modernização da feira foi elaborado pela Gerência Metropolitana, em 2003, aprovado para ser iniciado no ano passado. Até um prédio de um antigo supermercado foi adquirido para melhorar a organização e o funcionamento da feira.
O projeto foi apresentado aos feirantes e à comunidade pelo então gerente metropolitano Ricardo Murad. O governador José Reinaldo aprovou o trabalho elaborado pela Metropolitana, compareceu ao local ao lado de Ricardo, mas acabou extinguindo a Metropolitana dois meses depois, cancelando o projeto e deixando os feirantes e a comunidade sem justificativa. Situação precária
A feira da Cohab, por sua vez é uma das maiores da cidade. De acordo com o vendedor de bebidas Walter Lima, a feira surgiu quando os conjuntos habitacionais da Cohab foram construídos. “A feira deve ter uns 30 anos, pois estou aqui há 20 e ela já existia há um bom tempo”, explica. Hoje as reclamações giram em torno da infra-estrutura, que, segundo Seu Lima, está precária. “Muitas solicitações à Prefeitura são feitas, mas nenhuma é atendida. A Prefeitura diz que faltam recursos para esse fim. Na verdade, fomos abandonados pelo poder público”, denuncia.
O CEASA também é uma referência quando falamos de feiras. A cooperativa que o administra abastece todas as feiras-livres e conta, hoje, com 110 associados. A cooperativa é formada por um grupo de comerciantes, cada um responsável pelos produtos que vem de todo o país.
Quanto à qualidade dos produtos, “a cooperativa acompanha e fiscaliza. No entanto, o próprio consumidor faz esse trabalho. E como a concorrência é grande, o feirante também tem que oferecer bons produtos”, conta o presidente da cooperativa. “Trabalho aqui há oito meses. Vendo no varejo e atacado. Vendo bananas, que vêm da Bahia e de Pernambuco e quando chegam, a seleção é feita aqui mesmo, já que muitas frutas maduras estragam rápido. Trabalho aqui todos os dias e abastecemos, principalmente, sacolões e feiras livres”, explica José Reinaldo, 32 anos.
Para que um feirante possa trabalhar na CEASA, é necessário que este procure a cooperativa e se cadastre. Os que trabalham apenas no sábado, dia de varejo, pagam uma taxa diária de cinco reais. Já os que trabalham diariamente pagam mensalmente um valor calculado sobre o metro quadrado da loja, que custa R$ 7,99. Segundo Chico Estrela, presidente da cooperativa de hortifrutigranjeiros do Maranhão, “a taxa deve ser paga, já que o CEASA tem toda uma despesa com limpeza, energia e segurança”.
A luta pela sobrevivência
A feira também é palco de muitas histórias de pessoas batalhadoras que lutam diariamente para manter a família. Ali, o movimento começa muito cedo. Para centenas de pessoas, e o palco de uma verdadeira batalha , a história de gente como Dona Maria Hermógena, 55 anos, que trabalha no Mercado Central. “Sou feirante há 32 anos, comecei ajudando meu pai, que era peixeiro. Ele morreu e fiquei ajudando colegas. Depois, resolvi comprar minhas próprias coisas para trabalhar”, conta. Fatura de R$ 100,00 a R$ 170,00 por dia. “Começo de mês era bom, mas agora está pior que o final”, lamenta Dona Maria, achando o movimento da feira bem mais fraco. Sustenta nove pessoas, entre seus filhos e os de sua irmã falecida.
Como todo emprego tem suas dificuldades, o feirante, muitas vezes, passa por apertos já que precisa ter sempre dinheiro para comprar seus produtos. “Trabalho aqui há 15 anos. Compro as laranjas todos os dias, aqui mesmo no CEASA. O ruim é que às vezes não tenho dinheiro para comprar na hora”, conta Bernardo das Neves, de 50 anos.
Seu Walter Lima, 51 anos, vendedor de bebida, feira da Cohab. Começou a ser feirante há 20 anos. Vendia lanches, mas passou a comercializar bebidas, por serem produtos não perecíveis e, por isso, não haver desperdícios de mercadoria. Seu Walter acorda às 5h da manhã e junto com a mulher, que também trabalha sustenta, com o salário mínimo que fatura por mês, uma família de três pessoas . Ele acha que tem um bom emprego. “a feira é um questão de sobrevivência, onde posso ter uma vida digna, não pelo espaço, mas pelo serviço. Não dou trabalho à sociedade”.
Dona Rita, 80 anos, é feirante há 55. Hoje vende frutas na feira do João Paulo e o que ganha dá mal para se manter. “Às vezes tenho é prejuízo, mas nunca fico devendo ninguém. Sempre tenho crédito no CEASA”, conta. Ela diz também que as condições da feira são péssimas, o movimento é pouco e seu lucro também. Por outro lado, ela se diz feliz, já que a feira é também seu passatempo, sua diversão, o lugar onde passou boa parte de sua vida e criou seus filhos. “Acordo todos os dias às 04h30min. Meu filho quer que eu pare de trabalhar, mas estou aqui pra não entrevar”.
Supermercados X Feira
A higiene, a facilidade no pagamento e a maior oferta de produtos atraem cada vez mais clientes para os supermercados. Evandro Frazão, comerciante de mariscos no Ceasa, acha que as feiras estão perdendo espaço pela facilidade dos supermercados quanto à forma de pagamento. “Hoje as pessoas preferem muito mais usar o cartão de crédito e aqui na feira o pagamento é só à vista”.
Mas muita gente mesmo comprando freqüentemente nos supermercados, prefere a qualidade dos produtos e os preços baixos das feiras. “Venho ao supermercado uma vez por semana, mesmo assim, ainda prefiro a feira, pelo preço mais barato”, afirma a dona de casa Núbia Ribeiro.
Já a bibliotecária Crizeida Medeiros acha que a diferença entre feira e supermercado não existe. “É tudo igual, o mesmo preço, a mesma qualidade”, diz.
O presidente da cooperativa que administra o CEASA encara o crescimento da rede de supermercados como um ponto muito positivo. “O CEASA funciona como um entreposto de hortifrutigranjeiros e, por isso, 70% dos supermercados da cidade consome nossos produtos”, calcula Chico Estrela.
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