"Aqui, no meu segundo lar, encontrei coisas que não encontrei no primeiro. A família que tenho são esses que vêm me visitar. Trabalhei a vida inteira pra criar meus filhos, mas olha aonde vim parar?". Esse é o desabafo da aposentada Inês Alves Rodrigues, 80 anos. Matriarca de uma prole de 9 filhos, há 3 meses seu endereço é o Centro de Atenção ao Idoso Solar do Outono. Viúva e paralítica a dona de casa que priorizou o sustento da família e adiou indefinidamente o tratamento de que necessitava, agora reclama muito da atual situação em que se encontra.
Para construir a humilde casa, no bairro do Coroadinho, onde morava sozinha, apesar da lesão no quadril sofrida há anos Dona Inês, trabalhou como empregada doméstica. Quando a idade não permitiu mais que lidasse com afazeres domésticos ela teve que pedir esmolas. Segundo D. Inês, os filhos só lembravam dela no período do pagamento da aposentadoria. Certo dia, preocupada com essa situação, uma vizinha denunciou o caso à Promotoria do Idoso que a encaminhou ao asilo.
Solidão
Diante da solidão provocada pela ausência dos familiares, de acordo com o Serviço Social do asilo, D. Inês mergulhou em estado de depressão. "Esta velha foi muito útil para cada um. Gostaria que meus filhos me dessem mais atenção" desabafa emocionada. As histórias do gaúcho Julio Teitelbaum e do catarinense Nilo Cunha, ambos de 82 anos, são um pouco diferentes. Eles se desligaram da família, saíram viajando pelo País, e foram morar no asilo porque não têm um único parente no Maranhão. O catarinense Nilo Cunha foi encaminhado pela promotoria do município de Alto Alegre.
Histórias como essas são comuns em ambientes destinados aos idosos. Em São Luís, os dois abrigos mais antigos são o Solar do Outono e o Asilo de Mendicidade. O primeiro, com 25 anos de existência, precariamente, é mantido pelo Governo do Estado. Já o Asilo de Mendicidade, localizado no São Francisco, foi fundado em 1919. Mais antigo do estado, tinha a princípio o objetivo de abrigar mendigos da terceira idade. Atualmente, é mantido pela Loja Maçônica Renascença Maranhense que é responsável pela folha de pagamento e pelos encargos sociais.
Os dois asilos - o Solar do Outono e o de Mendicidade - aceitam homens e mulheres acima de 65 anos que não tenham família ou cujos parentes não tenham condições financeiras para cuidar deles. As exceções são os idosos que tenham alguma doença infecto-contagiosa ou sofram do Mal de Alzheimer.
Mudança de local
O Solar do Outono em sido alvo de queixas quanto á estrutura física, considerada deficiente e prejudicial aos idosos, mas a mudança de local já está prevista. O asilo deverá funcionar na Cohab, no local onde funcionava a Creche Beija-flor, próximo ao CSU. Segundo o MP a mudança deverá ser feita em 30 dias
A higiene dos locais é diária. Os materiais de limpeza são de responsabilidade do asilo, mas também há doações. Enquanto o Asilo de Mendicidade possui dois carros para passeio ou necessidades médicas dos idosos, o Solar do Outono possui apenas um veículo.
Nos casos de emergência são solicitadas ambulâncias. "Não temos esse tipo de transporte, porque aqui não é hospital", explica Francisco de Assis, diretor do Solar do Outono há um ano. A alimentação é boa, diz D. Dionísia Lopes, 84 anos e há 2 anos no Solar do Outono. O básico é dado pelo asilo, mas os idosos podem comprar algo diferente conforme desejarem.
Assistência médica
No Solar do Outono existe uma médica exclusiva, que atende duas vezes por semana, além de uma auxiliar de enfermagem que atende diariamente, além de psicóloga, terapeuta e maqueiro.
No de Mendicidade são três profissionais de saúde exclusivos. Um clínico geral, um dermatologista e uma enfermeira, que atendem duas vezes por semana em dias alternados. Casos de cardiologia, geriatria, pneumologia são atendidos por médicos específicos em clínicas particulares. Os mais graves são encaminhados para pronto-socorros próximos, como os hospitais da Vila Luizão, Geral ou Socorrão. Mesmo com todos esses cuidados, do início do ano para cá, morreram três idosos. "Faz parte da realidade dos asilos, mas procuramos sempre contornar essa circunstância. No dia seguinte a uma morte já estamos cantando", explicou a assistente social do Solar do Outono, Joseildes Alves.
MP fiscaliza
A aposentadoria é geralmente um assunto que gera muita polêmica. A Promotoria do Idoso já recebeu denúncias de filhos ou parentes que se apropriam de parte ou de toda a aposentadoria do idoso, mas atualmente não existe nenhuma insinuação. Nos asilos o idoso colabora com 50% a 70% do que recebe para suas despesas de remédios e custos pessoais, despesas com produtos não fornecidos pelos asilos. Segundo o promotor Paulo Roberto Ramos essa retenção é prevista na legislação e os idosos, ao entrarem no asilo, assinam documento autorizando o desconto. Nestes casos, as assistentes sociais administram os proventos e prestam contas à promotoria do idoso.
Rotina
Diariamente os idosos recebem visitas de grupos religiosos, estudantes e voluntários que tentam amenizar as dificuldades e a solidão que sentem.
Todas as datas comemorativas, incluindo aniversários, são festejadas. No asilo de Mendicidade tem um Conselho Social e no Solar do Outono as próprias assistentes sociais promovem os eventos. Nesse período de festas juninas, grupos folclóricos de diversas tendências, como o Bumba-meu boi se apresentam nos asilos.
O asilo ainda promove passeios a shoppings, praia, mas o idoso que puder e preferir pode sair sozinho levando um crachá com identificação e hora marcada para retornar. Um exemplo é o morador mais antigo do asilo de Mendicidade, Jerônimo Jorge Miranda, 96 anos e 25 no asilo. Ele costuma sair para fazer compras no Centro Histórico e almoçar. "Quando ele volta traz alguma coisa para eu 'sobremesar', como ele mesmo fala", disse Maria José, auxiliar administrativa do asilo de Mendicidade.
Apesar de todo esse esforço para o bem-estar e socialização dos idosos, muitos se dizem infelizes. "Não é um lugar feliz. É melhor envelhecer em família", concorda Joseíldes Alves, assistente social do Solar do Outono.