Um homem acuado, tenso e ressentido. Foi assim que o deputado Domingos Dutra compareceu na última sexta-feira à Assembléia Legislativa para depor no processo aberto na Polícia Federal a pedido do Ministério Publico Estadual para investigar a remessa de R$ 327.000,00 que teriam sido repassados pelo Diretório Nacional do PT para o comando do partido no Maranhão. Com lágrimas nos olhos e alegando constrangimento, sonegou informações ao delegado que preside o inquérito; tentou, inutilmente, se inocentar e demonstrou profundo ressentimento em relação ao presidente do PT Washington Luiz Oliveira, ao ex-ministro José Dirceu e ao ex-presidente do PT, José Genoíno.
Dutra, secretário estadual do PT confessou, em depoimento ao delegado da polícia Federal, Charles Sobreira dos Santos, que tem em seu poder informações altamente comprometedoras para a cúpula nacional do partido, mas se recusou a fornecê-las, alegando que as mesmas constam da ata da reunião do Diretório Estadual realizada no dia 22 de janeiro e cujo esboço somente na sexta-feira ele entregou ao presidente do PT, Washington Luiz. Dutra disse também que a ata ainda pode ser modificada antes de sua aprovação na próxima reunião do diretório, o que pode impedir que a PF tenha acesso a essas informações.
O deputado confessou, também, que o montante do dinheiro enviado pela direção nacional do partido para as despesas de campanha foi mesmo de R$ 327.000,00. Ele disse desconhecer a origem do dinheiro ou como ele teria sido gasto por Washington Luiz e pelo tesoureiro Henrique Sousa.
Na reunião de 22 de janeiro, segundo Dutra, o tesoureiro Henrique Sousa teria afirmado que havia recebido do Diretório Nacional do PT uma mala contendo R$ 327 mil para ajudar a cobrir despesas de campanha, que somariam R$ 1.543 mil. Segundo Dutra escreveu em carta à direção nacional do PT o tesoureiro teria dito ainda na ocasião que tinha conhecimento de vários fatos graves que poderiam comprometer o partido.
Lágrimas e mea culpa
O deputado, que concorrerá com Washington à presidência regional do PT no dia 18 de setembro, deu duas entrevistas aos jornalistas que foram cobrir seu depoimento a Polícia Federal, ontem à tarde, na Assembléia Legislativa. Na primeira, antes de se fechar com o delegado Charles Sobreira, seus advogados e a escrivã Heloisa Helena Barcelos Ferreira no gabinete da Presidência, Dutra chegou a chorar e fez um breve relato sobre a crise que atravessa o PT tanto no plano nacional quanto no estadual. Pediu desculpas aos jornalistas, fez um "mea culpa" em nome do PT e disse que o partido não deve pagar pelas atitudes, ações e omissões de alguns dirigentes: "Cada um deve responder no limite de suas responsabilidades", disse, sem se incluir entre os que se omitiram na denúncia do caso e impediram a ação da Justiça.
O ex-líder da bancada petista na Assembléia Legislativa procurou a todo instante isentar de culpa o seu grupo e responsabilizar somente a ala do PT denominada "Campo Majoritário", liderada no Maranhão pelo seu desafeto Washington Oliveira e, no plano nacional, pelo ex-ministro José Dirceu e pelo ex-presidente José Genoíno. "Nós não temos nada a ver com nenhum ato da campanha de 2004". Ele alegou que seu depoimento a PF se restringe ao fato de, na condição de secretário-geral do PT, ser o responsável pela redação das atas das sessões.
Ata fantasma
Entretanto, Dutra não disse porque ficou tanto tempo sem elaborar a ata e porque só na última sexta-feira entregou a Washington Luiz um esboço da tal ata. Numa postura criticada por observadores políticos, Dutra disse que não existe ata formal do encontro e que a ata deverá ser modificada pelos participantes, o que permitiria sua manipulação e a supressão das acusações da existência de fatos comprometedores contra o PT.
Embora reiterando que não iria fornecer aos jornalistas informações que estão no esboço da ata que entregou ao presidente do PT e segundo já adiantou "são graves e comprometem o partido", Dutra deu várias outras informações contidas na suposta ata que, segundo suas justificativas estapafúrdias, ainda precisariam ser referendadas pela Executiva Estadual. A principal delas foi a confirmação de que o tesoureiro Henrique Sousa havia recebido 327 mil reais do PT nacional e que só o mesmo havia dito que só prestaria contas a Genoíno e Delúbio Soares.
O que Dutra omitiu foi que a ata já deveria ter sido redigida e entregue à Executiva Estadual, que deveria, então, convocar uma nova reunião para colocá-la em votação. É impensável, para qualquer pessoa de bom senso, que o deputado Domingos Dutra, com atuação como advogado de entidades de direitos civis, desconheça que com a sua função de secretário do PT pudesse ficar todos esses meses sem redigir a ata e sem forçar a apreciação da mesma.