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De costas para a política


Fonte: Edição 04
Data de Publicação: 10 de julho de 2005
 
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Idealismos desgastados e desilusões acumuladas fazem jovens riscarem Brasília do mapa

Por: Lucrecia Zappi/Folhapress com reportagem local


Política é osso duro de roer? As CPIs e o 'mensalão' são as gotas d"água para que você risque Brasília do seu mapa? Não é todo mundo que abomina o assunto política, mas, mesmo com as recentes denúncias com efeito dominó e um governo em crise, há quem prefira tapar os ouvidos e fechar os olhos.
'Prefiro qualquer coisa a política. Eu sei do "mensalão' porque todo mundo comenta', diz Thaís Helena de Paula, 16. Victor Cavalcanti Alem, 19, concorda: 'Eu acompanho política por osmose, ouvindo pelas outras pessoas'.
Para eles, a osmose faz a força. Estar informado sobre o que acontece na política é como ver a banda passar. E o voto? Quase com a boca na urna, Thaís diz: 'Neste ano eu vou ter que tirar o título, mas eu não tenho em quem votar porque eu não confio em ninguém'.
'É muita responsabilidade votar nesses caras que não estão nem aí para ninguém, que só prometem. Se não fosse obrigatório, ninguém votaria. Acho que, mais tarde, quando eu puder votar, vou ter que começar a prestar mais atenção', diz Thaís.
'Brinco que vou votar no Maluf. Ninguém gosta dele, todo mundo diz que ele roubou, mas ninguém consegue provar. Não sou malufista, na verdade nem sei o que sou. Só vai fazer diferença mesmo quando eu puder votar, mas eu também não tenho vontade', continua Thaís, que cursa o terceiro colegial.
Paulo Moreno Gozzo, 16, também acha que tem de se preocupar com seu voto: 'Não me preocupo muito com política, mas, agora que posso votar, tenho que me interessar, porque ela influencia a minha vida. Jornal eu leio de vez em quando, às vezes eu vejo TV. Não sou tão desinformado assim'.
Mesmo sem identidade política, Thaís fala em autoconscientização. 'Se todo mundo se conscientizar, se parar de ser corrupto, se o pessoal das ONGs ajudar, daí dá para melhorar', afirma a menina, que está no terceiro colegial e planeja estudar comércio exterior.
O faça-você-mesmo funciona também para Luisa Pereira Santos, 20: 'Não acompanho, não entendo, não sei. O país precisa de uma estrutura política, mas eu acho que depende de cada um. Não dá para esperar que o governo faça tudo por você'.
Todos os dias, Luisa levanta a bandeira do 'veganismo', que ela define como um vegetarianismo mais radical, escapando de qualquer produto animal, mesmo produtos que foram testados neles.
A garota vê no 'veganismo' um discurso político coerente. 'Minha participação política é essa, uma contribuição para a melhoria do meio ambiente, da sociedade, para estimular a ética entre os seres vivos, dos direitos dos animais e dos seres humanos.'
Segundo Luisa, idealismos andam em baixa: 'A minha mãe, por exemplo, participou do movimento estudantil. Ia às ruas, a passeatas enormes, para mostrar o que queria'. Filiada à Sociedade Vegetariana Brasileira, Luisa diz que hoje isso mal se vê: 'As passeatas de que eu participo, de antiglobalização ou de ambientalistas, são sempre pequenas, com poucas pessoas com garra e determinação. Mudou, em geral.'
'Hoje a molecada é mais acomodada', diz Victor, que está no segundo ano de psicologia. “Mensalão” e roubalheira não atingem e as pessoas diretamente como a ditadura militar, que afetava as pessoas através da censura, do toque de recolher, da repressão pesada', diz o recifense, que mora há cinco anos em São Paulo.
Luisa questiona as ONGs (organizações não-governamentais) como alternativa política. 'A maioria delas é corrupta. Gastam tanto com a própria estrutura que a renda destinada ao projeto acaba sendo tão pouca que seria fácil dar o dinheiro diretamente a quem precisa. Em vez disso, montam toda uma estrutura só para dizer que fazem projeto social.'
Paulo, que cursa o segundo colegial, diz se sentir mais atraído por política externa: 'Alca (Área de Livre Comércio das Américas) e globalização são coisas de que eu não sou a favor. Da Alca, por tirar os impostos e abrir as portas do comércio em países latino-americanos. Da globalização, porque tudo o que se veste e ouve, da classe média para cima, é coisa de americano. Mas, mesmo estando ciente disso, eu consumo'.
Victor faz a conta: 'Se eu me envolvesse sozinho já faria grande diferença. Se todas as pessoas se importassem um pouco mais com política, daria para mudar muita coisa', diz ele. E brinca: 'Logo eu, que passei 17 anos sem votar!'.
Quando Victor pensa nos políticos que conhece, a conclusão é uma só: 'No final, é tudo farinha do mesmo saco. Anarquia não funciona, democracia também não. Eu não acredito em nada. Eu sou um niilista', diz.

Por que acreditar?

Por: BIA ABRAMO
COLUNISTA DA FOLHA


A tarefa aqui é dura, mas necessária. Por que devemos (e o verbo é esse mesmo) seguir acreditando em política, apesar de tudo (tudo, tudo: o tamanho do tudo tem assustado)?
* Porque, do outro lado, não há alternativa possível; ou seja, terrorrismo, força bruta etc. são incomparavelmente piores;
*Porque em perspectiva, esta que está aí não é a única forma de fazer política; há que encontrar novas maneiras de lidar com o poder e para isso é preciso pensar politicamente;
* Porque, de outro ângulo, esta que está aí, a democracia representativa, mesmo que neste momento apareça toda torta e rota, significa um avanço real diante da tirania e do totalitarismo;
* Porque, olhando bem, liberdade, igualdade e fraternidade são princípios que estão longe de valer para todos os seres humanos; e acreditar que isso faz sentido talvez seja nosso único antídoto contra a barbárie;
* Porque, de todo jeito, viver é muito complicado. Mesmo. Em todos os terrenos. Ninguém disse que ia ser fácil aliás, dizem sim: o mercado tenta simplificar o mundo de forma que a gente fique despreocupado para consumir e ponto, e aceitar mais passivamente sua brutalidade desumanizadora. Não acreditem nisso. Se há alguma coisa em que devemos, com todas as nossas forças, desacreditar é que há uma maneira fácil e indolor de viver. Não há.
E, talvez, seja por isso mesmo que a gente deva seguir querendo o impossível.

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