O ex-governador evitou o tempo todo analisar a administração de José Reinaldo, sempre dizendo que não gosta de julgar os outros e nem de fazer críticas pessoais – “nunca chamei ninguém de ladrão”. Mas, em pelo menos um momento ele deixou escapar uma alfinetada no governador. Quando afirmou, por exemplo, que em seu governo nunca ligou para secretário de finanças para mandar pagar ou não pagar a fulano ou a beltrano. “Governador tem que governar, cuidar de coisas maiores”.
Cafeteira também disse que não acha certo o governador querer tomar dinheiro emprestado. Para ele, o Maranhão está falido, atolado financeira e economicamente e não tem como pagar dívida nenhuma, além das que já tem. “No meu governo não tomei nenhum empréstimo, apenas administrei o que me foi deixada pelo governador Luiz Rocha, tomado para colocar água em São Luís e Imperatriz”.
“Hoje vemos começar a faltar água no Anjo da Guarda, que está sendo abastecido por cisternas, de onde sai uma água salobra, salinizada”, porque não há investimentos. A mensagem de Cafeteira foi igual do começo ao fim da entrevista. O Maranhão era um quando ele governava o estado e agora é outro: falido, atolado em dívidas, sem capacidade de investir, sem estrutura. “Vejo creches fechadas, a criança abandonada; a Casa do Menino de Rua é um departamento de polícia”.
O ex-governador deixou claro que é contra as privatizações. Ele não venderia a Cemar, nem o Banco do Estado e sonha que o Maranhão pode voltar a ter um banco. Cafeteira enalteceu o Departamento de Estradas de Rodagem do seu tempo e citou várias estradas que ele fez, como a João Lisboa-Amarante. “Uma estrada tão importante que por causa dela o povoado de Mucuira virou a cidade de Senador Henrique de La Rocque”. Para ele, o Estado precisa ter estrutura própria para realização de obras. “É preciso ter instrumentos para fazer o desenvolvimento. Tem que ter condições próprias para fazer. Não é possível fazer licitação para tapar buracos”.
Estado empresário
O estado é que tem que ser empresário na visão do ex-governador Epitácio Cafeteira, que caminha, segundo ele, para uma campanha de deputado federal em dobradinha com a filha, Janaína, que disputará uma vaga na Assembléia. “Cansei de ser traído, de eleger deputado e depois ser abandonado. Minha filha pensa como eu, Janaina é Cafeteira”, disse um pai orgulhoso para explicar porque não quer mais dobradinhas com “estranhos”: “uma vez ajudei um que enquanto eu pedia votos para ele dentro de minha casa, na minha família, ele distribuía camisas de Lobão”. Ele só não quis dizer o nome do candidato.
Janaína, a filha e futura deputada, se depender só da vontade de experiente político, já tem até um projeto para impedir que a ponte Marcelino Machado, sobre o Estreito dos Mosquitos volte a sofrer danos graves como os que levaram à sua interdição várias vezes (a ponte ainda está em obras). “Janaína vai apresentar o projeto de um porto seco, ainda no continente, para que a ponte não sofra com o tráfego de carretas cada dia mais pesadas. Isso vai ajudar também a conservar nossas ruas e avenidas”.
E Janaína, deputada, aprovaria o empréstimo de US$ 42,5 milhões que a Assembléia autorizou o governador José Reinaldo a tomar de um banco alemão, na terça-feira? O pai diz que não. Cafeteira mesmo se espantou. “Sou contra. O Maranhão não tem condição de pagar, está sem condição de pedir empréstimo. Só esse de US$ 30 milhões que o governo quer em dois meses as prestações serão maiores que o empréstimo”. Segundo Cafeteira a saúde financeira do estado é precária. “Não quero ser governador porque não há condição de fazer um bom governo com essa situação. O Maranhão não tem produção (soja não gera renda), não tem máquinas, não tem energia, não tem banco... E como eu sei que não poderei fazer um governo como o que fiz, eu não sou candidato a governador”.