A criação de um consórcio de empresas e a instalação de catracas eletrônicas nos ônibus são as responsáveis pela mais nova crise no sistema de transporte coletivo de São Luís. Empregados e patrões não se entendem e a prefeitura não consegue ser clara em suas intenções. Uma reunião entre representantes do Sindicato dos Rodoviários e das empresas e o secretário de Transportes Urbanos, Canindé Barros, acabou sem consenso. Os trabalhadores dizem que as demissões já começam a acontecer e já passam de 500. Canindé e os patrões negam. Foram três horas de discussão sem resultado e uma nova reunião foi agendada para a próxima segunda-feira.
Para o presidente da Junta Governativa do Sindicato dos Rodoviários, Roberval Silva Tavares, as demissões em massa estão acontecendo, sim. "O consórcio está desempregando muitos pais de famílias", diz. Segundo Roberval, "a iniciativa do consórcio não foi discutida com o pessoal do transporte rodoviário. Só tivemos conhecimento quando começaram as demissões". Roberval afirma que o número de demitidos já ultrapassa os 500 trabalhadores. "Os trabalhadores contratados para trabalhar no consórcio estão tendo muitas perdas (cita o plano de saúde) e não têm garantia de quanto tempo vão trabalhar lá. As pessoas precisam entender que esse consórcio é para acabar com as empresas pequenas".
O presidente da junta diz que houve a redução de 12 linhas, com a retirada equivalente de 60 ônibus. "Isso representa um índice de 300 pais de famílias desempregados, entre motoristas e cobradores. A única empresa que não foi mexida é a Taguatur, que é de José Luis Medeiros", diz referindo-se ao presidente do SET.
Na defesa
Canindé Barros reage à declarações do líder sindical e diz que não está acontecendo e nem vai acontecer demissão em massa. Segundo ele, se isso está acontecendo é "um problema do Ministério do Trabalho". Para o secretário de transportes, as supostas demissões não são conseqüência da implantação do sistema de integração (os terminais nos bairros) ou do sistema de consórcio. Segundo ele, no consórcio, várias empresas se juntam para administrar. "Isso facilita a diminuição de custos dentro do sistema. Foram cortadas algumas linhas que estavam se sobrepondo.” E garante: “o sistema de consórcio e o de integração vão continuar".
Segundo o secretário, as 12 linhas que o Sindicato dos Rodoviários alega terem sido reduzidas, seriam na verdade 12 ônibus que foram retirados da Bacia do São Cristóvão, uma das bacias definidas no sistema de consórcio de ônibus e que já está em funcionamento, assim como as do Rio Anil e Cohatrac (à qual teriam sido acrescidos seis ônibus). As outras três bacias a serem postas em funcionamento são: Centro, Cohama e Distrito Industrial.
Controvérsias e ameaça de greve
Mas se falta consenso sobra controvérsia. Para o sindicato dos rodoviários, o sistema de consórcio de empresas de ônibus em implantação é desastroso. Segundo José de Ribamar Alves, do grupo de apoio da Junta Governativa do sindicato, não está claro como o consórcio irá funcionar. Entre os prejuízos que o sindicato alega que o sistema irá trazer estão "a redução de frota e a demissão de trabalhadores. A passagem fica mais cara. Socialmente não beneficia". De acordo com dados apontados por Ribamar como tendo sido fornecidos pelo secretário da Semtur, a frota teria diminuído de 755 ônibus em 2002 para os 710 atuais, o que equivale a 45 ônibus fora de circulação.
Um dos responsáveis pelo sistema de consórcio da Cidade Operária, Euler Duarte, proprietário da empresa 1001, diz que a intenção do consórcio é baratear a passagem e dar condições para a população da região se locomover com apenas uma passagem. Segundo ele, são 40 linhas com um total de 245 ônibus participando do consórcio da área da qual é responsável.
Para o empresário, as demissões em massa denunciadas pelo sindicato de rodoviários não existem. "O que foi feito foi adequar a frota à operação. Eles estão errados. Tanto que vieram discutir comigo". E continua: “o excesso vai ser mandado embora. Vamos garantir emprego para as necessidades do consórcio".
O presidente da junta do Sindicato dos Rodoviários, Roberval Silva, diz que o sindicato se reunirá com os advogados para debater o que foi discutido na reunião. “Vamos convocar o setor jurídico e convocar a categoria para explicar”.
Ele diz que há sempre uma possibilidade de paralisação já que a categoria está sendo prejudicada. "Poderá não ter greve. Tudo vai depender da reunião de segunda-feira", alerta. Na reunião, será definido um aditivo para que os trabalhadores não percam 40% do que têm direito na rescisão contratual, como vem acontecendo, segundo o sindicato.