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Estranho amor

Fonte: Edição 25
Data de Publicação: 21 de agosto de 2005
 
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A primeira-dama Alexandra Miguel Cruz Tavares disse várias vezes em entrevistas de rádio que ama o Maranhão e o seu povo como ama as filhas. É inquestionável o amor da mãe (e do pai) pelas três meninas. Quem já presenciou momentos em que um deles (ou os dois) está com as filhas testemunhou cenas de muita ternura e cuidado. A crer que Alexandra fala a verdade quando compara seu carinho para com o estado do Maranhão ao que dedica às garotinhas, teríamos uma mãe para o povo e, efetivamente, haveria motivos mais que suficientes para perdoar o fato de que ela manda no governo sem a legitimidade eleitoral para tal.

Porém, os flagrantes do Ministério Público e da Vigilância Sanitária em unidades da Fundação da Criança e do Adolescente - FUNAC, fartamente noticiados pela imprensa na semana passada, representam a confirmação mais clara e forte de que Alexandra não tem esse amor todo pelo Maranhão. As imagens mostradas são desoladoras. Uma instituição que deveria ser mantida com a melhor qualidade é um exemplo de desprezo, depredação, abandono e desrespeito. Recursos para isso existem e vêm do Governo Federal. Alexandra sabe disso porque a FUNAC é ligada à sua pasta, a Secretaria Extraordinária de Solidariedade Humana.

O presidente da FUNAC, cujo site o governo tirou do ar, como acontece toda vez que acontece algum escândalo ou algum setor fica sob suspeita, é Felipe Klant, um dos fiéis escudeiros da primeira-dama e um de seus melhores amigos. Sabe-se que na secretaria de Alexandra todos os assuntos, quando ela permite, são discutidos por ela, Flávia Regina, secretária de comunicação, Klant, que acumula o cargo de assessor para a juventude, e Marcos Nogueira, assessor especial. Mas, o grupo calou-se, nada disse, ninguém se manifestou oficialmente, mesmo depois que o MP fez a vistoria, constatando o péssimo estado das unidades, com visíveis prejuízos à qualidade de vida das crianças e adolescentes que dependem daquela instituição.

E ela vai se defender falando do mutirão da cidadania, uma oportunidade rara em que ela viaja com assessores distribuindo óculos e fazendo consultas médicas, geralmente em locais onde a ação do governo é nenhuma ou zero. Um evento para fotografias e notas nas colunas previamente acertadas. Nada mais, ainda que se faça um estardalhaço acerca disso. O que não se pode é vender esses eventos curtos e pontuais como ações que vão melhorar o Índice de Desenvolvimento Humano, o IDH, sigla presente em 9 de cada 10 pronunciamentos da primeira-dama e do marido quando falam de suas metas para o estado.

No caso da FUNAC já tem gente defendendo Alexandra e Klant, com a preconceituosa desculpa de que ali ficam menores infratores, “delinqüentes”, disse alguém próximo. Crianças e adolescentes, na verdade. Seres humanos com os quais o Estado já falhou uma vez e que não pode falhar de novo, deixando-os em situação subumana, sob o pretexto de economizar dinheiro ou de puní-los com mais sofrimento ainda do que já tiveram em suas vidas complicadas pela sorte e pela desassistência social.

Se amasse o Maranhão e seu povo como ama as lindas filhas que tem, Alexandra não deixaria essas coisas acontecerem. Uma mãe não discrimina filhos.

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