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Pichação - o dom em prol do vandalismo

Fonte: Edição 27
Data de Publicação: 24 de agosto de 2005
 
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Em um passeio rápido pelas ruas da cidade é fácil observar prédios, casas e monumentos "decorados" com pichações, na maioria das vezes ininteligíveis. Igrejas, bustos de pessoas ilustres, caixas d'água de prédios e outros lugares inusitados ostentam as marcas desse tipo de vandalismo.

Os pichadores são, na maioria das vezes, jovens, membros de gangues que disputam os lugares onde imprimem suas marcas. Às vezes são usuários de drogas. Muitos picham para fazer um novo círculo de amigos. As informações são do técnico ministerial em execução de mandados Leonardo Henrique Aragão Bluhm, lotado na Delegacia do Adolescente Infrator - DAI. A reação do pichador apreendido é quase sempre a mesma. "Alega que estava com amigos. Que não foi ele, foram os amigos e que foi a primeira vez".

Segundo Leonardo, por serem menores de idade os adolescentes não cometem crime, mas atos infracionais. O menor pichador pode sofrer sanções que passam por desde uma simples advertência, obrigação de reparar o dano, prestação de serviços à comunidade, liberdade assistida, até uma internação provisória. "Geralmente as penas são subjetivas e aplicadas de acordo com a gravidade e com os antecedentes do infrator. O juiz e o promotor é que decidem”, informa o técnico". No caso de reincidência, a FUNAC - Fundação Nacional da Assistência à Criança faz o acompanhamento do infrator, explica Leonardo. "Mas é difícil acontecer".

Quando o alvo dos pichadores é uma propriedade privada, a pena é de recuperação dos danos e advertência. Mas muitas vezes o infrator e a família não têm como pagar o dano causado. Nesses casos, a punição pode ser uma pena alternativa. "Nós trabalhamos com muitos carentes. Os pais, às vezes, fazem bico para não deixar faltar comida em casa".

Leonardo conta um caso de que jovens que foram flagrados pichando uma escola da capital. Como as famílias eram carentes, as mães "fizeram uma vaquinha" para a compra das tintas e os pichadores pintaram o muro que haviam pichado.

Pichação e arte

A assistente social da DAI Margarida Barbosa Santos diz que nem sempre há denúncia de pichação. "São raríssimas. Esse ano só um caso foi registrado. As pessoas não contam. Às vezes porque têm alguma relação de amizade com a família do infrator. Outras vezes por se tratar de membro de gangue, as pessoas têm medo".

Para Margarida quando não há denúncia, "perde-se a oportunidade de discutir com o infrator, de chamá-lo para a razão, mostrar que ele não pode sair por aí fazendo o que bem entende". Leonardo Henrique completa: "pichação em lugar apropriado é bonita, faz bem para os olhos. Os adolescentes que têm esse dom deveriam embelezar a cidade, ao invés de destruí-la".

Transformar pichação em arte é o que propõe o trabalho da Favelafro, organização nascida do movimento hip-hop, movimento sócio-cultural oriundo dos EUA que abriga quatro vertentes: a musical - o rap; a arte visual - o grafite; a dança - o breack-boy e os DJs.

Segundo um dos integrantes da Favelafro, Aurélio Fernandes a idéia é tentar desenvolver o trabalho de grafite com quem faz pichação. Para Aurélio, "a diferença é na questão do vandalismo. Na questão artística, material, grafite e pichação são iguais. O grafite veio substituir a pichação de forma produtiva".

Aurélio explica que em São Luís o grafite é trabalhado por grupos que atuam em vários bairros como Coroadinho, Divinéia, Cidade Operária e outros onde são realizados cursos e oficinas para a comunidade. "É um trabalho estratégico. Nós vamos às ruas fazer grafite, rap, dança, música. A partir daí surge o interesse dos jovens. Eles nos procuram naturalmente".

Para o rapaz, quem faz pichação normalmente tem um conflito com a família ou está envolvido com a criminalidade, com drogas. O trabalho da Favelafro é fazer o resgate desses jovens, "o resgate da cidadania, da identidade, justamente o que falta", garante Aurélio. Os cursos realizados pelo grupo já atenderam a cerca de 2000 jovens.

"Não impomos nada. Damos alternativas. Eles fazem o curso. O problema é a aceitação da sociedade, o retorno desses jovens à sociedade". Para o rapaz, a não-aceitação da sociedade faz com que muitos acabem voltando para a pichação. Aurélio fala dos muros grafita dos por esses jovens. "Em São Luís, as pessoas não tem aceitação por grafite. Os muros não passam muito tempo.

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