Rio de Janeiro. 80 anos de idade. Aposentada. O jornalista Fábio Gusmão, do jornal Extra carioca, que publicou a história com exclusividade, lhe deu o nome de Dona Vitória. O povo brasileiro, de Dona Coragem. Há dois anos ela comprou uma câmera e começou a filmar o movimento de pessoas fazendo um comércio ilegal na favela vizinha ao seu apartamento, em Copacabana. Indignada por ter de acordar com o barulho de tiros e cansada de testemunhar o livre trânsito de traficantes armados vendendo drogas ou impondo a mesma, ela decidiu que precisava dar um basta naquilo.
Ela filmava tudo. Mesmo ameaçada de morte, mesmo tendo a vidraça de sua janela despedaçada por tiros, ela não desistiu e acabou produzindo um documentário fundamental para o trabalho da polícia. Com voz firme e corajosa, apesar da proximidade com o inferno do tráfico, Dona Vitória narrou as cenas ela mesma, relatando o que via. Como escreveu o jornalista do Extra o relato de Dona Vitória "é um misto de espanto, revolta e emoção", mas ela não abriu mão da missão a que se dispôs. Afinal, não suportava ver o futuro do Brasil, com idades entre 6 e 12 anos, se consumindo enquanto cheirava cocaína.
A persistência e a coragem dela resultaram em 22 fitas, com 33 horas de gravação. Foi tudo entregue à polícia. De posse do documentário, o secretário de Segurança Pública do Rio de Janeiro, Marcelo Itagiba, determinou uma ação imediata de caça aos bandidos que aparecem nas fitas. Resultado: 15 bandidos foram presos e outros identificados. Agora, Dona Vitória está sob guarda do Estado e não mora mais no apartamento onde viveu por 38 anos. Um sacrifício em favor de todos, um exemplo para o Brasil.
Nem sempre para saber onde há crimes e ilegalidade é preciso que uma aposentada de 80 anos passe dois anos filmando. São os casos em que se os agentes fiscalizadores decidirem cumprir as suas missões, resolverem agir na direção certa para apurar os escândalos, investigar as denúncias, punir os culpados, a sociedade ganharia sem o sacrifício do cidadão. Seria assim no Maranhão, mas não é.
É cada dia mais notório que o governo José Reinaldo marca período como o mais corrupto da história do Maranhão. Chovem denúncias, sobram escândalos, repetem-se as fraudes, mas o governador navega em águas tranqüilas, sem ser incomodado pelo Ministério Público ou pelo Tribunal de Contas do Estado. A Assembléia Legislativa, desta nem se fala, é a trincheira onde José Reinaldo obtém mais do que precisa, recebe mais agrados do que merece. Talvez o Maranhão precise de um batalhão de Donas Vitórias, com suas câmeras na mão, para que sejam despertados os que deveriam fiscalizar o governo e não o fazem como devem.