Na opinião de especialistas, com uma população de quase um milhão de pessoas, São Luís não poderia continuar com suas atividades comerciais concentradas em apenas uma área. É o conceito da cidade policêntrica, em que mais de uma área oferece opções tanto comerciais quanto de lazer para os moradores. Mas, em São Luís, o surgimento de outras áreas comerciais tem motivos também estruturais. O antigo centro, por exemplo, sofre com a falta de estacionamentos e com as dificuldades de tráfego, em ruas estreitas e de grande fluxo de carros e pessoas. Problemas que afetam também a região do São Francisco, ainda um dos centros comerciais mais ativos da cidade.
Por estas e outras razões, como o nível de exigência do consumidor, fizeram surgir outros locais, principalmente nos últimos 15 anos. Um dos destaques é a Avenida Colares Moreira, em volta dos shoppings Monumental e Tropical. Mais recentemente a expansão comercial de São Luís passou a apontar para a Avenida dos Holandeses, cuja extensão e facilidade de tráfego favorece à diversificação comercial. Primeiro apareceram os restaurantes e as lojas de carros importados. Hoje a avenida abriga um comércio variado que serve a quem usa aquela via de passagem e aos moradores dos bairros a que ela dá acesso. A Avenida dos Holandeses vem se transformando em dos vetores do crescimento comercial da capital.
Segundo Fabiana Cordeiro, superintendente da Associação Comercial do Maranhão, o crescimento aconteceu pela própria configuração social da cidade que direcionou os empresários ao encontro das necessidades do seu público. Além desse fator, para o tipo de empreendimento que cresceu, na Avenida dos Holandeses, segundo a especialista, outros locais não ofereceriam o mesmo retorno, “o status conta muito, grandes investimentos requerem um consumidor com maior poder aquisitivo”, analisou.
Quem mora no entorno da avenida ou quem utiliza aquela via são pessoas da classe A e B, na opinião de André Alexandre Costa Neto, dono de uma loja de conveniência. Seus clientes são, normalmente, moradores do Calhau, Renascença, São Francisco, Olho D’água e Turu. “Dificilmente vem alguém de outro bairro, raramente do centro”, conta André Alexandre.
Os setores que mais se desenvolveram na avenida foram os de automóveis e de prestação de serviço, de acordo com a Associação Comercial do Maranhão. “Aqui é a avenida das concessionárias!”, exclamou Valdirene Cardoso, supervisora de vendas de carros. Na Holandeses, as opções são muitas para quem quer comprar carro e peças. Pioneiro nesse ramo de automóveis, o gerente de uma concessionária, Ângelo Gusmão, percebeu que nos sete anos em que trabalha no local, muitas marcas se instalaram na avenida. Para Ângelo, o público é segmentado, mas o fluxo do comércio é forte.
Disputando um espaço, Antonio Lobato está há seis meses com uma concessionária de carros usados. Ele escolheu o local acompanhando a lucratividade que o ramo tem no local e garante que ainda tem muito a crescer, “muitas lojas estão abrindo filiais e muitas com qualidade superior a outras pela própria exigência dos consumidores daqui”, afirmou.
Visão empreendedora
Joel Jaime da Silva é gerente de um restaurante que foi inaugurado quando a avenida ainda nem estava pronta, há 17 anos. Ele compara os empreendimentos locais com o nível do seu públicoalvo, “ninguém que não tenha capital se aventura num local desses. Os empresários aqui são de grande porte e o retorno é garantido”, avaliou.
Visando um público específico, há nove meses a proprietária de uma butique de vestuário e acessórios de moda jurídica, não se arrepende de ter escolhido a Avenida dos Holandeses para abrigar a loja. “A loja se tornou conhecida rapidamente e clientela é boa e fiel”, assegurou a vendedora Marise Penha. A farmácia que Jerson Moraes gerencia tem filiais em toda cidade, mas ele diz que enquanto a filial do Centro, por exemplo, recebe um número maior de consumidores, na filial da Holandeses as vendas são maiores mesmo com a clientela menor.
Para muitos empresários essa é uma das razões (e resultado) da escolha daquela região: o poder aquisitivo. “A localização é estratégica e o aumento da clientela é gradual”, disse Pat Lopes, gerente de uma loja de móveis. Sua loja também é uma filial, a outra fica no Bequimão. Segundo ele, os clientes não são diferentes de uma loja para outra. “A vantagem da Holandeses é que ela é passagem para vários bairros onde reside um público consumidor mais exigente, mas, também, melhor aquinhoado”, opina um lojista.
Os senões existem
Como nem tudo são flores, a região também tem suas desvantagens. Alguns comerciantes se ressentem da falta de clientela de bairros mais afastados. “Aqui há produtos e serviços que não são oferecidos em outras áreas, mas nem todos sabem ou podem vir comprar”, diz Elizana Araújo, coordenadora de perfumaria de uma farmácia.
Além de concessionárias e restaurantes, na Avenida dos Holandeses existem consultórios, cursos de línguas, clínicas de estética, academia, boates e muitos outros empreendimentos, mas alguns comerciantes reclamam que sistema de transporte da cidade não ajuda muito. “O local é muito favorável aos negócios, mas é restrito a quem tem carro. Quem depende de ônibus tanto consumidor como quem trabalha em alguma loja aqui tem pouca opção”, disse Elizana Araújo.
Já para Joel da Silva, é inadmissível uma área nobre não ter sistema de esgoto e fornecimento de água. No restaurante a água é de poço artesiano e o esgoto eles fizeram, “em algumas áreas já tem, mas chegou há pouco tempo”, contou.
Mas o campeão de reclamação é a falta de segurança, quase todos os estabelecimentos comerciais visitados já foram assaltados pelo menos uma vez. “Chega gente bem vestida e a gente pensa que vai comprar e é assaltante”, contou Valdirene Cardoso, supervisora de vendas de carros.