Ninguém é louco de dizer que o rei está louco. Tampouco nos arriscaríamos a afirmar que o governador mente. Entretanto, essa história da viagem a Paris é muito curiosa, para dizer o mínimo. Sabe o leitor que a comunicação do governo que pode ser levada a sério deveria ser feita por meio do diário e do portal de internet oficiais. Quando o governador José Reinaldo viaja, em tese, nesses dois meios de divulgação devem estar as informações relativas à viagem: data de embarque, destino, chegada, objetivos, retorno, etc. Em tese, porque a prática difere em muito do que seria a obrigação.
Está José Reinaldo em Paris, capital da França, acompanhado da mulher, Alexandra (por falta de informação oficial, não se sabe quem mais viajou com o governador, mas, normalmente, ele leva um séqüito de amigos e amigas e, eventualmente, as filhas). Os dois jornais chapas brancas - O Imparcial e Jornal Pequeno publicaram que a viagem do governador e da primeira-dama deve durar de uma semana a oito dias. Para dar um caráter oficial ao passeio internacional por conta do contribuinte, os "oficiais" disseram que o governador vai receber um prêmio pelo programa de combate à febre aftosa.
Que prêmio, quem concede, o local e o dia da solenidade ninguém sabe, ninguém disse. Não há qualquer informação sobre isso no Diário Oficial ou no portal do governo estadual na internet. Na agenda OIE, a Organização Internacional de Epizootias, responsável pela emissão do certificado de zona livre da aftosa para o mundo inteiro, não há encontro, seminário, reunião ou solenidade de entrega de prêmios. Há um mistério em torno disso. E uma explicação complicada para o governador dar quando voltar (ou, como de praxe, mandar que Lourival Bogéa e Marcos Nogueira o defendam com um argumento falacioso qualquer).
As viagens internacionais do casal já são comuns e ninguém questiona que pode o governador viajar. Já se acostumou o maranhense também com a idéia de que, diferente da maioria, José Reinaldo tira férias duas vezes por ano e ainda viaja para fins de semana inesquecíveis em Caldas Novas, Rio, Brasília. Certamente cansa-lhe, sobremodo, governar o Maranhão.
O que ninguém se acostuma - e nem pode - é com o desperdício de tempo e de dinheiro público. Repetimos: não está sendo acusado o governador de mentir. No entanto, ele viajou sem esclarecer os motivos reais. E isso é sério. Não pode José Reinaldo achar que pode governar sem dar satisfação à sociedade. É provável que a população sinta a sua falta, mas episódios como essa viagem a Paris devem ser melhor esclarecidos, Aconteceu que a comunicação oficial faz silêncio e a subordinada inventou o pretexto.
Como entendemos que a responsabilidade da imprensa é questionar. Isso fazemos: não há programação da viagem do governador em qualquer meio oficial. Nenhuma nota, nenhum comunicado sério. Sabe-se ainda que não é tempo de férias. Tampouco está a administração estadual em situação tranqüila, há uma enorme dívida, faltam obras, há desconfiança e um enxame de denúncias. De Paris não terá José Reinaldo melhores notícias. Nem lá poderá fazer nada para melhorar a situação do Maranhão e do seu governo. A verdade, afinal, é que se trará um prêmio porque está fazendo a obrigação de combater a aftosa, não é para isso que passará tantos dias na Cidade Luz. Chegará o casal governamental com mais que uma estatueta ou diploma na sacola. Afinal, Paris é uma festa. Para poucos.