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Embora apregoe moralidade, primeira-dama não dispensa mordomia



Data de Publicação: 11 de setembro de 2005
 
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A primeira-dama do Maranhão, a brasiliense Alexandra Cruz Tavares, que assumiu interina e ostensivamente o posto de governadora do Estado durante o período em que o marido esteve abatido por uma hepatite do tipo A, continua a dar mostras de que é a pessoa que realmente manda no marido. Eleito num conturbado processo eleitoral, em 2002, Reinaldo Tavares contou com o empenho da mulher durante a campanha. Mas ninguém imaginava que a consorte do governador fosse cobrar um valor tão alto. Naquela ocasião, ela era totalmente desconhecida para a maioria dos maranhenses.

Recentemente, numa entrevista do casal, o governador declarou que a mulher "até me bate" se levar a ela alguma proposta de candidatura sua para as eleições de 2006.

Aos 32 anos de idade, Alexandra vive a glória de uma carreira meteórica, iniciada quando ainda exercia a profissão de aeromoça de avião particular de empreiteira, ocasião em que conheceu o atual marido, na época casado e pai de família. Em 1992, Reinaldo não passava de um promissor candidato à vice-governadoria do Maranhão além de exibir o crédito de quem freqüentava o círculo de amizades do ex-presidente José Sarney (ele fora ministro dos transportes e era mesmo considerado o "quarto filho" do ex-presidente, pai biológico de três).

A novidade fez Zé Reinaldo, como é popularmente chamado, largar a então mulher e casar-se com a jovem Alexandra. Logo em seguida, Roseana Sarney elegeu-se governadora do Maranhão, tendo Reinaldo como vice. "No começo, eu cumpria um papel que tinham estipulado para mim. Demorou seis anos para eu estourar", afirmou Alexandra sem cerimônias em entrevista à revista IstoÉ/Gente (02/09/04), numa referência ao tempo em que o marido exerceu o cargo de vice-governador, de 1995 a março de 2002.

Conta a história que Reinaldo Tavares tentou nomear a própria mulher para ser chefe de seu gabinete. O intento precisava do aval da titular do governo, Roseana Sarney. A governadora, possivelmente após analisar o tênue perfil da candidata, vetou a indicação. Este fato teria feito germinar a mágoa em Alexandra, que, mesmo não tendo nascido em Juiz de Fora, como o resmunguento ex-presidente Itamar, parecer guardar os sentimentos na geladeira. "Ela (Roseana) simplesmente não assinou o ato", balbuciou Alexandra para a reportagem da mesma revista. Hoje, Alexandra ocupa uma secretaria assistencialista, a qual leva o simplório nome de "Solidariedade Humana".

Comportamento hedonista

Após o marido assumir o poder, Alexandra deixou externar sua veia festeira. No princípio transformou o Palácio do Leões, sede histórica do governo e residência oficial, em boate (o local ganhou o apelido de "Leomingo", em alusão a uma casa noturna de São Luís). Alexandra escolheu para dama-de-companhia a esposa de um promotor de eventos da cidade, já conhecido por orbitar a orla do poder maranhense. O promoter e a mulher são os próprios organizadores dos saraus da primeira-dama, que tem gosto especial para festinhas privê, aquelas em que a choldra não entra.

Em março de 2005, a primeira-dama escolheu Cancún, badalado balneário de milionários no México, para passar os aniversários dela e do marido, nascidos em dias próximos do mesmo mês, com 34 anos de diferença, glamorosidade só conhecida pelos realmente apaixonados. Embora ela própria tenha dado entrevistas desmentindo que o lazer tenha sido custeado com dinheiro público, até hoje não houve a prestação de contas sobre quem pagou a fatura da recreação em pleno mar das Caraíbas.

No requintado grupo que acompanhou o primeiro-casal estavam os mesmos promotores de festas prediletos da primeira-dama. "Adoro dançar. Se estivesse roubando, estariam dizendo que sou festeira?" perguntou na mesma entrevista da IstoÉ/Gente. Bem, a reportagem foi publicada em setembro de 2004. De lá para cá, Alexandra parece ter acordado para o fato de o poder ser transitório e as facilidades dele também.

O ano de 2005 começou com a denúncia, na revista Veja, de que Alexandra seria a principal beneficiária de um esquema de estradas-fantasmas. A denúncia sobre a sangria nos cofres estaduais, orçada pela publicação em 20 milhões de reais, ocorreu quando o casal estava em pleno reveillon na Flórida, Estados Unidos. A conseqüência mais grave do episódio foi apenas o afastamento do secretário de Infra-Estrutura, cunhado do governador.

Governador de um Estado que ostenta índices sociais ainda alarmantes, embora sensivelmente melhorados no governo de Roseana Sarney, Reinaldo não ensaiou uma ação prática para dar continuidade aos projetos sociais iniciados no governo da antecessora. Ao contrário, tenta permutar uma ajuda às famílias que vivem no meio rural maranhense com a obtenção de empréstimo de trinta milhões de dólares junto ao Banco Mundial. O argumento é difícil de engolir perante a visível elasticidade financeira vivida pelo atual governo.

Na assembléia do Estado, um deputado denunciou a existência de vinte cheques do governo no valor de cem mil reais, cada. Segundo o denunciante, o numerário serviria para persuadir os deputados mais renitentes em relação à eleição do candidato do governo à presidência da assembléia. Coincidência ou não, o candidato do governo conseguiu a eleição e o deputado que fez a denúncia dos cheques passou a ser líder do governo de Reinaldo Tavares. O mesmo deputado denunciante também teve o filho gracejado com a nomeação para a companhia de água, a Caema.

Natural da cidade-satélite do Gama, no Distrito Federal, Alexandra afirma ter grande preocupação com a qualidade de vida dos maranhenses. Costuma usar o termo "população de miseráveis" para rotular os maranhenses assistidos por sua secretaria. A cidade natal da primeira-dama, assim como todas as cidades-satélites de Brasília, tem graves problemas sociais. Alexandra é usuária contumaz da ponte-aérea S. Luís-Brasília. Gosto por viagens é outro fraco da ex-aeromoça. Em junho passado, ela pegou carona na viagem que a secretária de Saúde fez para um seminário. O evento ocorreu no Canadá.

Mordomia, aliás, é uma das características do governo de Reinaldo Tavares. Até aquisição de comida japonesa é licitada pelo governo do Estado, portanto, comprada com dinheiro público. É verdade que nem todas as compras do governo passam por exigência de licitação. Nos pronunciamentos que faz, Alexandra esforça-se para trazer ao público as realizações do governo do marido, para, logo em seguida, atacar sistematicamente o governo de Roseana Sarney. Demonstra ser apenas mais uma representante daqueles oradores dos quais devemos fazer tudo o que dizem, jamais o que fazem.

A esposa do governador também personifica o jargão da "Libertação do Maranhão", pseudo-movimento que alega a necessidade de o Estado se libertar do ex-presidente Sarney. Contraditoriamente, todos os políticos que apregoam tal "libertação" são oriundos ou já tiveram laços políticos com José Sarney, inclusive um ex-prefeito de São Luís, Jackson Lago. Lago solicitou, e obteve, o apoio da então governadora Roseana, filha de Sarney, para sua reeleição no ano de 2000.

Deputados, da sustentação do governo na assembléia, costumam mimosear Alexandra, chamando-a de "doutora" ou fazendo discursos atabalhoados em sua homenagem. Muitos deles compuseram a corte da ex-governadora Roseana, transformada em vilã do dia para a noite pelos deputados. Na mesma assembléia, já houve comparação de Alexandra com Evita Perón, primeira-dama argentina que liderou levante popular, nos anos 40, para reempossar o marido deposto.

Talvez a brasiliense Alexandra termine o governo do casal da mesma forma como começou. A primeira denúncia envolvendo a ambos, ainda em 2002, dava conta de uma sala de ginástica no palácio que teria custado cem mil dólares, quase trezentos mil reais pelo câmbio da época. Detalhe: naquele ano, o marido declarou um patrimônio de 500 mil reais à Justiça Eleitoral.
O leitor não deve ficar surpreso se, enquanto estiver lendo este escrito, ouvir notícia de que o governador do Maranhão está em nova excursão ao exterior.

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