Engana-se quem pensa que lixo é privilégio de bairros de periferia da cidade. Em lugares considerados como áreas nobres, onde moram pessoas de poder aquisitivo médio ou alto, uma pessoa que se dê ao trabalho de dar uma volta pelas ruas depara-se com terrenos onde a sujeira acumulada lembra o que acontece em bairros distantes e cuja população é de poder aquisitivo baixo.
É o que acontece por exemplo em pleno Renascença II, bem próximo aos shoppings, lanchonetes de “marcas” famosas, academias de ginástica caras, prédios luxuosos, casas grandes e bonitas. Na rua das Gaivotas, quase em frente a uma academia, pode-se conferir esse tipo de situação. Os sacos de lixo amontoados no terreno e os restos de sujeira espalhados ao redor destoam da paisagem de um dos bairros mais caros de São Luís.
Além de prejudicar a paisagem, o lixo acumulado atrai ratos e insetos. A dona de casa Maria das Graças (que não quis dizer o sobrenome), reclama. Para ela, falta empenho por parte da prefeitura na solução do problema. “Não é possível. Bem aqui, no meio desse monte de prédios bonitos, perto das casas da gente, esse lixo todo. Isso é nojento. Fica resto de comida, toda imundície. Faz um tempão que isso está aí. Tenho medo de doenças. Aqui costumam aparecer ratos e as baratas vão para as casas próximas. De que adianta fazer campanha contra a dengue e deixar esse depósito de porcaria bem aí?”
Mais adiante, no vizinho Renascença I, a cena se repete. Na rua dos Acapus, um espaço entre duas casas tornou-se um ponto de descarrego de lixo. Lá também são vários sacos e muita sujeira espalhada. O terreno, que segundo a comerciante Fernanda Neves, 60, deveria ser a continuação de uma rua, virou lixeiro há algum tempo. “Faz muito tempo que jogam lixo aí”, diz a comerciante que mora há mais de 20 anos quase em frente ao terreno. “Agora já melhorou. Antes tinha muita mosca, rato avançava até na gente. Parece até mentira, mas é verdade. Um rato já avançou em um filho meu. Isso aí não tem jeito. Só quando fizerem a rua que dizem que vai passar aí. Esse problema é antigo. Acho que a gente até já se acostumou”.
Algumas quadras à frente, na curva onde acaba o loteamento, um grande terreno situado ao lado de um condomínio fechado enfrenta o mesmo problema. No lugar, a sujeira se acumula incólume compondo a paisagem. Quase ao lado do muro do condomínio, outro ponto de depósito de lixo. Quem mora no condomínio e nas adjacências reclama. Alice Maia, 77, há quase 30 anos morando no lugar, diz que “sofre com o descaso do poder público. Será que ninguém vê isso?
Mais lixo
Do outro lado da avenida que corta o loteamento, na Avenida Grande Oriente, bem próximo à Lagoa da Jansen, a situação é a mesma. Num grande terreno de esquina próximo a uma venda de botijões de gás, o lixo que se avoluma tira o sossego de moradores como Iraci Lucena de Jesus, 70, aposentada. Proprietária da casa vizinha ao terreno usado como lixeiro, d. Iraci é obrigada a regar a grama e algumas plantas que cultiva na parte do terreno que fica ao lado de sua residência. Diz que plantou para evitar que o lixo seja colocado ali. Fez até uma cerca para isolar um pouco o local.
Indignada, d. Iraci fala dos problemas que o depósito de lixo gera para ela e para a família. Diz que as janelas dos quartos da casa são voltadas para o terreno, o que faz com que o mau-cheiro e as moscas invadam os aposentos. Ela mostra um ponto do terreno onde as pessoas que jogam lixo fizeram um buraco para poder depositar mais sujeira no lugar. Diz que paga para mandar limpar a parte do terreno contígua à casa dela. “Isso é uma molecagem”, reclama.
Segundo a moradora, todo tipo de sujeira é jogado no terreno. “Botam bicho morto. Outro dia foi um gato. É lixo que não presta. Todo dia gasto minha água regando as plantas para ver se não jogam a imundície do lado da minha casa. Queria que a Prefeitura botasse ao menos um container aí. Aqui jogam lixo até de dia e o caminhão da Prefeitura só passa à noite. Os cachorros ficam furando os sacos e espalhando a sujeira. Os varredores só recolhem os sacos. O que está espalhado fica assim mesmo”.
D. Iraci mostra a casa onde mora, cujo jardim é limitado por uma “cerca viva” (cercado por plantas) e onde se podem ver roseiras e outras plantas floridas, contrastando com o volume de lixo que se acumula no terreno vizinho. E indigna-se. “Isso é uma vergonha. Esse lixo enche minha casa de rato, barata, tudo o que não presta. Minha vida é limpar esse terreno. Dizem que isso aqui é bairro nobre. Não vejo nobreza nenhuma aqui. O que eu vejo é sujeira”.