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CORDEL - Dois cabras sem vergonha com medo de uma mulher



Data de Publicação: 17 de setembro de 2005
 
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Dois cabras sem vergonha com medo de uma mulher

Dois lagos de limo e lodo
Dois bocas de jacaré
E duas bestas cansadas
Correndo de um pangaré
Meu amigo me responda
Sem arrodeio sequer
- São dois cabras sem vergonha
Com medo de uma mulher

Três olhos cegos na testa
E um aberto no pé
Quatro mãos sujas de grana
Desde quando um tinha fé
Meu amigo me responda
Sem arrodeio sequer
- São dois cabras sem vergonha
Com medo de uma mulher

Dois relógios atrasados
Da João Lisboa e da Sé
Marcando um tempo passado
Que não acerta - O que é?
Meu amigo me responda
Sem arrodeio sequer
- São dois cabras sem vergonha
Com medo de uma mulher

Dois fantasmas companheiros
No mesmo barco e maré
Dois moleques de primeira
Só enganando a ralé
Meu amigo me responda
Sem arrodeio sequer
- São dois cabras sem vergonha
Com medo de uma mulher

Dois safados de joelhos
Perguntando o que quiser
Fingindo orar pro Santo
Enganando São Tomé
Meu amigo me responda
Sem arrodeio sequer
- São dois cabras sem vergonha
Com medo de uma mulher

E dois cabras vagabundos
Duas bestas sem arreio
Dois fuscas velhos sem fundo
Sem gasolina e sem freio
Meu amigo me responda
Sem arrodeio sequer
- São dois cabras sem vergonha
Com medo de uma mulher

E dois trilhos paralelos
Que nunca vão se encontrar
Um mais novo outro mais velho
Já deu o que tinha que dar
Meu amigo me responda
Sem arrodeio sequer
São dois cabras sem vergonha
Com medo de uma mulher

Duas luas apagadas
Que nunca vão acender
Duas corjas desalmadas
Que o povo vai esquecer
Meu amigo me responda
Sem arrodeio sequer
- São dois cabras sem vergonha
Com medo de uma. mulher

Uma vaca e um bezerro
Vagando pela campina
Comendo do próprio esterco
Bebendo da mesma urina
Meu amigo me responda
Sem arrodeio sequer
- São dois cabras sem vergonha
Com medo de uma mulher

E dois macacos falantes
Sem entender de cultura
Se afagando na mentira
Que a eles sustenta e jura
Meu amigo me responda
Sem arrodeio sequer
- São dois cabras sem vergonha
Com medo de uma mulher

E dois paletós surrados
Dois sapatos com chulé
E duas cuecas sujas

Que já tão ficando em pé
Meu amigo me responda
Sem arrodeio sequer
- São dois cabras sem vergonha
Com medo de uma mulher

Dois ratos na ratoeira
Comentando o mesmo fato
E dois miaus no fogão
Rasgados pelos dois gatos
Meu amigo me responda
Sem arrodeio sequer
- São dois cabras sem vergonha
Com medo de uma mulher

Dois velhos desajustados
Num lago dão cangapé
Brigando com dois banguelas
Dois carecas de boné
Falando mal da cultura
Querendo fazer banzé
Desprezando a criatura
Com um simples pontapé

Dois espíritos de porco
E dois bichinhos de pé
Dois indivíduos nojentos
Bebendo o mesmo chibé
No mesmo cocho e raspando
O que sobrou com a colher
Com o nariz escorrendo
De tanto tomar rapé

E dois valetes sem dama
Dois baralhos sem melé
Dois colchões na mesma cama
Dois sapatos num só pé
Duas línguas numa boca
Duas guias de pajé
Meu amigo me responda
Sem arrodeio sequer
- São dois cabras sem vergonha
Com medo de uma mulher

Dois pratarrás de galinha
Com cheiro forte e pixé

Duas moças virgenzinhas
Vivendo num cabaré
Todas duas linguarudas
Que ninguém deseja e quer
Falando da vida alheia
Querendo fazer croché

Dois galos sem terreiro
Dois jabutis-carumbé
Cujo espaço foi perdido
Pelo irmão do garnisé
Duas trompas estupradas
Pela trompa do oboé
Duas baratas cascudas
Que não largam do meu pé

Dois lagos de água salgada
Lá no fim do igarapé
E duas bestas quadradas
Pescando tucunaré
Jogando linha e pegando
Só papista e mandubé
Tomando choque na bunda
Porque visgou puraqué
Meu amigo me responda
Sem arrodeio sequer
- São dois cabras sem vergonha
Com medo de uma mulher

Dois olhares dois desejos
Dois abraços de quem quer
Fazer no casco do outro
Um pouco de cafuné
Um querendo ser a moça
O outro a própria mulher

Dois quilos de tornozelos
Contra um quilo de filé
Dois pés de galinha preta
Contra a figa de guiné
Duas cobras na ladeira
Subindo de marcha à ré

Dois galhos de planta seca
Que já murcharam no pé
Duas culturas mal feitas
Com a cara no bidê
Duas bundas arriadas
Como saco de café
Meu amigo me responda
Sem arrodeio sequer
- São dois cabras sem vergonha
Com medo de uma mulher

Dois noviços de godê
Dançando no candoblé
Dois lagos de água suja
Mais suja que a lama até
Duas frangas no poleiro
Seguras no contrapé
Dois ar-condicionados
Que já bateram o relé
Dois ventilador queimado
Fazendo calor inté
Dois pontos de uma luz froucha
Um sabido e um caburé
Meu amigo me responda
Sem arrodeio sequer
- São dois cabras sem vergonha
Com medo de uma mulher

Dois arrotos de jumento
Com dois peidos de Pelé
Dois dedinhos de cachaça
Lá do bar do Capilé
E duas roupas roubadas
Lá do boi de Santa Fé
Duas mentes doentias
Duas cucas tão lelé
Fazendo mal à cultura
Só por querer fincar pé
Não perdem por esperar
Ou esperem se quiser
Com dois medíocres dançando
Numa sala de balé
Dois papagaios falando
O mesmo inglês de Teté
Dois gulosos engasgados
Com dois pratos de carré
Meu amigo me responda
Sem arrodeio sequer
- São dois cabras sem vergonha
Com medo de uma mulher

Vou saindo pela porta
Pois não sou nenhum mané
Pra vocês que vão ficando
Eu vou dizendo até
E vou deixando meu mote
Como um decote qualquer
Pois duas garruchas velhas
Já batendo catolé
E duas línguas ferinas
Chupando meu picolé
Falando do que não sabem
E ouvindo do que não quer
São dois cabras sem vergonha
Com medo de uma mulher

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