A ganância humana,que teve como reflexo a superlotação, conjugada com condições climáticas desfavoráveis e a falta de fiscalização, formaram a infeliz receita que provocou uma nova tragédia que abalou o balneário de São José de Ribamar, na Grande São Luís.
Às 6h da manhã, acerca de 8 quilômetros do cais do Barbosa, naquela cidade,o barco Estrela Guia I, que transportava cerca de 40 passageiros, naufragou. Nove pessoas morreram, sendo sete delas crianças e há notícias que outras 12 estariam desaparecidas.
O número de desaparecidos é contestado pela Capitania dos Portos, que garante que só há uma pessoa mais desaparecida. A maioria das pessoas era de integrantes da dança portuguesa Marinheiros de Portugal, do bairro J.Câmara. O grupo estava viajando desde terça-feira para o povoado Marajuí, em Icatu, onde fez duas apresentações em um festejo religioso.
Clenilson Silva, 18 anos,um dos sobreviventes, ficou nadando por mais de meia hora. Ele disse que a tragédia só não foi maior porque o dia já estava clareando e outra lancha que transportava o restante do grupo, percebeu que uma forte onda atingiu a embarcação, fazendo-a virar. "Como a outra já estava perto do cais, deixou os passageiros e retornou ao local do acidente para salvar alguns náufragos", disse Clenilson Silva.
Iraneide Cardoso, 18, também conseguiu sobreviver, mas perdeu a filha, dois sobrinhos e uma irmã. Ela também esperava encontrar o pai vivo, mas até o fechamento desta edição ele continuava desaparecido. "Eu ainda carreguei a minha filha nos braços, mas veio alguém e a tirou de mim. Quando a procurei vi apenas o corpinho boiando. O mar estava muito agitado", lamentou a jovem. Além de Iraneide e da mãe dela, Maria de Fátima Cardoso, Ivanimara Araújo, Diego de Jesus, José Nildo Machado, conseguiram se salvar se apoiando em uma tábua que se soltou da embarca ção.
A superlotação da embarcação foi apontada como causa principal da tragédia. "Além dos 20 integrantes do grupo, mais de uma dezena de passagens foram vendidas pelo responsável da embarcação", disse o sobrevivente Alcimar da Silva. Além da superlotação, ele denunciou que as únicas quatro bóias existentes estavam amarradas, o que dificultou a situação dos tripulantes. Durante toda manhã a movimentação foi intensa na Unidade Mista de São José de Ribamar, onde os sobreviventes foram atendidos. Quatro pessoas ainda foram socorridas com vida e encaminhadas ao Hospital Socorr ão II, mas morreram no caminho.
Críticas
Apesar da informação sobre o naufrágio ter chegado à Capitânia dos Portos só duas horas após o acidente, o capitão dos Portos Luís Augusto Freitas, determinou que todas as medidas para o salvamento das vítimas e resgate dos corpos fossem adotadas. "De imediato deslocamos para o local a lancha de praticagem São Marcos, a lancha patrulha São Jorge, bem como um rebocador do consórcio de rebocadores", garantiu o capitão Freitas. Ele relatou que a capitania passou o aviso ao Salva Mar-Norte, baseado no Pará, e ao SalvaMar Brasil, do Rio de Janeiro, para que alertassem aos navios mercantes que estivessem na área para prestar ajuda no local do acidente, no resgate de possíveis sobreviventes.
Em decorrência da maré e distância onde as lanchas e o rebocador estavam, no Porto do Itaqui - ambos só chegaram à baía de São José de Ribamar por volta das 15h. "As lanchas tiveram que cruzar a baía de São Marcos, em seguida o Estreito dos Mosquitos para só então chegar a Baía de São José. Já o rebocador, mesmo indo por mar aberto, teve que esperar certo tempo até a maré encher", justificou o capitão dos Portos, Freitas.
Muitas pessoas reclamaram da falta de fiscalização da Capitania dos Portos. A embarcação que só está autorizada a ser usada na pesca e transportar até duas pessoas. Mesmo assim, segundo familiares das vítimas é comum ver esse tipo de embarcação cruzando a baía com dezenas de passageiros. O capitão Freitas negou veemente tal informação. Segundo ele, as fiscalizações em São José de Ribamar são constantes e que a tragédia foi ocasionada pela negligência do proprietário.
Segundo ele, no início do mês, após a previsão feita pelo Centro de Hidrografia da Marinha dando conta das condições desfavor áveis para o mês de agosto, foi feito um alerta pela Capitania a todos os pescadores e donos de embarcações.
"Nós informamos que a previsão do tempo seria com pancadas isoladas e ventos de 5 a 6, ou seja, os ventos normais poderiam chegar a 54 quilômetros por hora, enquanto a rajada poderia ser de 70km/h. Divulgamos isso para que as pessoas tivessem mais cautela na hora de viajar ou trabalhar", finalizou o capitão. O procedimento administrativo, que será julgado pelo Tribunal Marítimo - conseguir á detectar as responsabilidades.
A cidade Parou
Uma multidão tomou conta do cais e orla marítima de São José de Ribamar.
Centenas de pessoas procuravam informa ções sobre parentes e amigos que viajavam na Estrela Guia I. A movimentação foi tão intensa que a partir das 10h, a Polícia Militar fechou a avenida que dá acesso ao cais.
Além da Capitania dos Portos, equipes do Corpo de Bombeiros, Polícia Militar, rupo Tático Aéreo e pescadores ajudaram no trabalho de buscas. Das 11h30 às 15h o trabalho de resgate foi suspenso devido à seca da maré.
Muita gente imaginava que o refluxo da maré pudesse ajudar a encontrar os orpos, mas nenhum foi encontrado no período da tarde.
Os números de desaparecidos são desencontrados. Pelo relatório emitido pela Capitânia dos Portos apenas uma pessoa estaria sumida, no entanto, de acordo com familiares, esse número poder á chegar a 12.
Entre os desaparecidos ainda estão Antônio José de Oliveira Martins, Kerliane Brito Morais, 10 anos, filha do senhor identificado como Carlinhos, o dono da brincadeira, Marina Nayana Sousa, 15 anos, Rafael Araújo, 19 anos e Luciana Bastos, 15 anos.
Luiz Augusto da Luz, genro de Antônio José não acredita que ele seja encontrando com vida. "Ele era um homem de 1,80m, mas mesmo assim acho pouco provável que ele esteja vivo, pois, não sabia nadar", disse. Muito abala-do, Luiz também perdeu uma filha de 4 anos na tragédia. Assim como os demais, ele também questionou o número de tripulantes que foram transportados na pequena embarcação.
No final da tarde as buscas foram suspensas e serão reiniciadas nas primeiras horas da manhã de hoje. Às 19h, um corpo foi localizado na praia de Juçatuba e encaminhado ao IML mas não havia sido identificado. A polícia também ainda não havia conseguido localizar nem o dono da embarcação, conhecido como "Cumbica" nem o mestre, que conseguiu se salvar e fugiu em seguida. O proprietário não estava viajava quando tudo aconteceu.
No meio da tarde, após ser rebocada, a Estrela Guia I foi ancorada na praia do Vieira.
LISTA DOS MORTOS
+Maria do Livramento Costa dos Santos, 44 anos
+Clécia Rosette Lima dos Santos, 18 anos
+Juliene Matos Maciel, 14 anos
+Ana Paula Araújo Conceição, 16 anos
+Clejane Lima Garcia, 14 anos
+Juliane Camile Silva Martins, 1 anos e 6 meses
+Carlos Antônio Correia Martins, 14 anos
+Larissa Cristina Martins Santos
+Rejane Correia Martins