Especulações à parte, a montagem do secretariado do governador eleito Jackson Lago pode fazer com que, antes mesmo de seu governo começar, a confusa aliança que se formou em torno de seu nome no segundo turno possa ser desfeita em meio a uma grave crise de interesses menores.
O governador José Reinaldo Tavares, por exemplo, que jamais aceitou a candidatura de Jackson Lago e preferiu criar um monstro de três cabeças para inviabilizar a candidatura de Roseana, tem aparecido como nunca na mídia, defendendo, ao contrário do que acreditava Jackson Lago, o acerto de sua decisão e tomando para si os louros da vitória do pedetista. O governador vai, com certeza, cobrar a fatura do próximo governador e quer, para si e para seus mais leais serviçais, um naco significativo do bolo. Pode não ganhar e, se for isolado pelos pedetistas, pode desequilibrar a aliança, rompendo com o governador em breve tempo.
Como ligar José Reinaldo a seu governo alardeado como ético e de mudanças pode acarretar um desgaste desnecessário, Jackson pode querer premiar José Reinaldo de outra forma que não com cargos no primeiro escalão. José Reinaldo, para ter a certeza de que terá foro privilegiado nos casos de processos de corrupção nos quais figura como réu, poderia ganhar a chefia da representação do Governo do Estado em Brasília, cargo que tem status de secretário. Lá, José Reinaldo poderia continuar sua dolce vitta em companhia de sua mulher Alexandra e das filhas, gozando as maravilhas da fortuna amealhada ao longo de seu desastroso governo.
As arraias miúdas do PSB deverão ficar de fora da partilha das dezenas de secretarias, que também deverão passar por um processo de enxugamento, já que a atual estrutura administrativa do governo, pesada e corrupta, construída para abrigar toda a camarilha de José Reinaldo, não deverá ser mantida sob pena de se transformar num pesado ônus para os projetos do pedetista.
O PSDB, aliado mais visível do PDT na sucessão estadual, vai cobrar seu quinhão. E não será pouco o que Roberto Rocha, Castelo & cia vão exigir do velho caudilho pedetista. Também isso pode se transformar num calcanhar de Aquiles do novo governador. Outros aliados, como o PT "de resultados" de Dutra não vai aceitar que os rivais tucanos saiam ganhando na hora H.
Políticos carreiristas, que passaram para o lado de José Reinaldo também não deverão ter boa vida no futuro governo. Nem mesmo aqueles que foram eleitos pelo próprio PDT.
A panelinha pedetista que sempre mandou e desmandou na administração de Jackson não vai aceitar ficar à margem do governo que eles ajudaram a construir e quase desconstruíram com os inúmeros escândalos na Coliseu e em outros órgãos durante os mandatos de Jackson na Prefeitura. Assim, vetarão qualquer favorecimento dos neopedetistas. Isso é outro sinalizador do surgimento, em breve, de novas áreas de atrito. Quem veio com Jackson desde o começo não vai permitir que os carreiristas mandem na legenda. O PDT funciona como uma tribo onde há muitos caciques e poucos índios.
Até mesmo a eleição para presidente da Assembléia Legislativa não deve acontecer sem rupturas traumáticas. Há tantos candidatos que a eleição pode ser o grande divisor de água do futuro governo.
Jackson está sentado sobre uma bomba-relógio e ainda não percebeu. A qualquer hora ela explode e leva junto seu governo. É esperar para ver.