Sabe tudo!
Por Said Barbosa Dib*
Como vencer uma eleição sem ter conteúdo?
Resposta simples e direta: através do engodo, da difamação, do jogo sujo e dos caminhos medíocres dos argumentos falaciosos e sofísticos. A divulgação dos arquivos da secretária de Comunicação do Governo José Reinaldo Tavares (PSB-MA), Flávia Regina, fazendo “Sugestões estratégicas para o 2º turno das eleições 2006”, demonstra um caso paradigmático neste sentido, ou seja, de como e porque um triunvirato de candidatos pouco comprometidos com a coisa pública, liderados por um governador meão, pode ganhar de uma candidatura vigorosa que havia vencido os demais no primeiro turno - e que tinha o apoio do presidente da República. Trata-se, como exaustivamente vem divulgando o jornal Veja Agora, de um fato que comprova o uso desavergonhado da máquina administrativa em favor das forças políticas anti-Roseana Sarney (PFL-MA). Portanto, da utilização do dinheiro PÚBLICO, pago por todos os maranhenses que votaram - e os que não votaram - em Roseana.
Argumentações Falaciosas
“Abstraindo-se” o aspecto obviamente ilegal e imoral que o caso demonstra, seria interessante algumas reflexões político-filosóficas sobre os discursos utilizados pelas forças que apoiaram Jackson Lago (PDT-MA). A campanha fascista “Xô Roseana”, o argumento anêmico acerca de uma pretensa “oligarquia” e os ataques sistemáticos e caluniosos lançados pela SECOM – Secretaria de Comunicação – contra a candidatura Roseana Sarney, enquadram-se perfeitamente ao conteúdo do livro “Dialética Erística”, do filósofo alemão Arthur Schopenhauer, que no Brasil ganhou nome menos complicado: “Como vencer um debate sem precisar ter razão”. Eris era a deusa do caos e da confusão na mitologia grega. Portanto, “dialética erística” significa o uso do discurso para causar confusão, não para se chegar à verdade. Um verdadeiro manual de patifaria intelectual? Não. Trata-se, sim, de um manual de como se defender dos que debatem sem ter razão e de como desmascarar os esquemas da argumentação maliciosa e falsa, que sempre estão na moda. Em outras palavras, um verdadeiro manual de como se defender de um vigarista. E, justamente por isso, de leitura obrigatória.
Na Grécia antiga, a erística era a arte de vencer o adversário num debate, sem se preocupar com a ética. Ao contrário do diálogo filosófico, que usava a dialética (debate) com a finalidade de estabelecer a verdade, o uso da erística visava superar o adversário a qualquer custo. Era um método usado pelos sofistas nos debates públicos, tanto na esfera política, onde era preciso convencer a assembléia, quanto na esfera judicial, para convencer os juízes. Não importava se a causa era justa ou não. Os sofistas eram capazes de defender com igual bravura um argumento ou o seu oposto. No Brasil de hoje a erística é usada amplamente na mídia, na Internet, na política, na justiça, no trabalho e também na vida cotidiana. “Feio é perder. E, para superar o outro, os falsos democratas são capazes de tudo”. Ou seja, se você não pode convencer, então confunda.
“Estratagemas” Capciosos
O livro de Schopenhauer relata 38 “estratagemas” para lidar com situações de debate. Alguns exemplos típicos são: argumento ad hominen - ataca-se o argumentador, não o argumento; repetição - repete-se o argumento ad nauseum até a outra parte se esgotar; argumentação circular - duas premissas são usadas para se justificar mutuamente; argumento non sequitur - uma conclusão ilógica é tirada das premissas; argumento de autoridade - o debatedor se refere a alguém cuja posição seria a priori indiscutível. Portanto, o filósofo alemão indica “os caminhos oblíquos e os truques de que se serve a natureza humana em geral para ocultar seus defeitos”.
O caso do charlatão Jackson Lago corresponde rigorosamente ao estratagema número 19, “fuga do específico para o geral”: “Se o adversário solicita alguma objeção contra um ponto concreto da sua tese, mas não encontramos nada apropriado, devemos enfocar o aspecto geral do tema e atacá-lo assim”. Foi o que ocorreu quando Roseana, nos debates televisivos, tentava discutir propostas concretas e factíveis voltadas para o bem-estar dos maranhenses, mas o senhor Jackson caía sempre na mesma ladainha cansativa de “oligarquia pra cá, oligarquia pra lá”.
Lei Eleitoral: Cumpra-se
Mas o importante é se ter em mente que a democracia não é perfeita. Tem também contradições. Quanto mais o processo democrático se amplia e se consolida, mais provoca distorções, pela sua própria natureza popular. Este é um processo “normal”, principalmente numa democracia de massas, onde os veículos de comunicação, formadores de opinião, tendem a ampliar os efeitos nefastos dos argumentos sofísticos e da dialética erística. A campanha “Xô Sarney”, por exemplo, ampliada pela Internet e apoiada por muitos formadores de opinião do eixo Sul/Sudeste (financiados pelo Tucanato paulista e pelas transnacionais, que nada ou quase nada se interessam pelos estados do Norte e do Nordeste), é exemplo triste de tais desvios. Daí a necessidade imperiosa de se estar sempre atento para que se faça cumprir, rigorosamente, a Legislação Eleitoral, única forma de se aperfeiçoar o processo democrático e republicano. Se a Justiça Eleitoral não agir realmente com precisão e severidade com relação ao que aconteceu no segundo turno das eleições para o Governo do Maranhão, todo o esforço de aperfeiçoamento democrático estará sacrificado. Caso contrário, não há alternativa: recomenda-se à população maranhense a leitura atenta do esclarecedor livro de Arthur Schopenhauer.
* Said Barbosa Dib é historiador e analista político em Brasília
