Por Said Barbosa Dib*
O tucanóide Roberto Rocha (PSDB-MA), que representa as forças anti-Lula no Maranhão, que sempre votou contra os trabalhadores e aposentados no Congresso, afirmou: "Vitória de Jackson representa o nascimento de um novo Maranhão". A "profecia" foi feita em entrevista ao "Jornal Minúsculo" (02/11) depois de uma série de artigos pagos que vinha publicando naquele panfleto, todos com aquele cansativo e improdutivo discurso de uma nota só: ataque à família Sarney. Lógico!
Rocha: aríete contra trabalhadores e aposentados
Lendo a entrevista, fiquei realmente preocupado com os novos quadros da política maranhense. Ele, um político jovem, sempre associado ao que se conhece em Brasília como "baixo clero", derrotado nas últimas eleições estaduais e abandonado naquela campanha pelo próprio "aliado" tucano, José Serra, como parlamentar, sempre foi um perigo para os interesses dos trabalhadores maranhenses, em particular, e brasileiros, em geral. Trata-se de um político que tem a cara de pau em falar de justiça social no Maranhão, mas sempre votou integralmente a favor das diabruras privatistas e recessivas do desgoverno FHC, portanto, sempre contra os trabalhadores.
Segundo o DIAP, foi pelo desmanche da CLT e votou "sim" para o "Fator Previdenciário", que prejudica o contribuinte individual; apoiou a "Conciliação" na empresa, restringindo o acesso do trabalhador à Justiça do Trabalho. Ainda defendeu a privatização da previdência do servidor e votou pela quebra da paridade e da integralidade; além de defender a redução do prazo prescricional, que diminuiu o período para reclamação dos trabalhadores rurais junto à Justiça do Trabalho, hoje, excluídos de fato dos mecanismos de defesa trabalhistas. E, desavergonhada e cruelmente, o moço ainda tem sangue frio e sadismo de falar das mazelas das "quebradeiras de côco" do Maranhão!
A grande contradição: inveja/admiração
A ansiedade adolescente e desastrada com que o imaturo político maranhense se desatava em difamar a família Sarney naqueles artigos, por alguma razão, me fez pensar numa velha preocupação epistemológica da pedagogia: é necessário, por exemplo, que um aluno que queira se destacar na criação musical já tenha um dom natural, como Mozart; ou bastam técnicas apreendidas repetidamente em aula, como caninamente o burocrático músico Salieri foi treinado? Ou, no caso político em questão, será que se pode ser um Sarney, quando se nasce um Roberto Rocha? O filme Amadeus, que coincidentemente, poucos dias antes, eu havia assistido em vídeo, trata exatamente desta questão: a frustração de não ser tudo aquilo que se deseja e o ódio decorrente justamente da constatação da própria incapacidade para o sucesso. Em ambos os casos, verifica-se o recalque de se saber que há alguém infinitamente melhor do que você justamente naquilo que mais se ama. Mozart, um gênio. Salieri, um medíocre invejoso e vingativo. Sarney, homem de Estado, conciliador, realizado e respeitado nacionalmente, tanto por aliados quanto por adversários. Roberto Rocha, sem luz própria, pequeno, improdutivo, embora filho de um homem competente e sério: Luiz Alves Coelho da Rocha, ex-governador eleito com apoio decisivo justamente do amigo Sarney. Mas, Rocha, o filho, moço sem uma mínima dimensão política, frustrado, tenta se fazer presente justamente à custa de Sarney, cuja mãe, a saudosa dona Kiola, foi sua madrinha de batismo.
O filme de Millos Forman gira em torno da relação doentia que se estabelece entre os dois músicos. Da parte de Mozart, uma confiança ingênua, somada a um desconhecimento natural pela arrastada obra de Salieri. Da parte de Salieri, um sentimento ambíguo de respeito/deificação - e inveja destrutiva -, postura simbiótica que leva o espectador a associar o personagem Salieri a uma série de pessoas do nosso dia-a-dia, como acabei fazendo com o jovem político do tucanato maranhense. As melhores cenas do filme são aquelas em que Salieri, já velho e no leito de morte, relata toda a sua história ao padre que veio tomar-lhe a confissão. Ali, principalmente, Abrahans, o ator, rouba o espetáculo. É assustador ver aquele velho amargurado, solitário e, por vezes, horrorizado consigo mesmo, descrever com uma sinceridade arrebatadora todo o seu ódio por aquele rival/ídolo do passado: Mozart.
Roberto Rocha: reles antinomia de Sarney
Mas Salieri é capaz de tomar atitudes tão paradoxais que, por algumas vezes, o espectador fica na dúvida se ele ama ou odeia Amadeus, como no caso do armagurado Roberto Rocha com relação ao sucesso do acadêmico Sarney. Tanto em Salieri, quanto em Rocha, na verdade, há ambos os sentimentos, pois, ao usar a própria existência política (que dependeu de seu pai, repito, histórico aliado de Sarney) para difamar justamente os Sarneys, não encontra identidade própria nem coerência e, por isso, rancoroso, à custa de difamações e incongruências, tenta forjar uma imagem que não possui, esforça-se em ser algo que não é: honesto e independente. Mesmo que, diante desta lambança toda, tenha que manchar a própria história do pai.
A cena mais emocionante do filme acontece quase ao final, quando Salieri tem a oportunidade de ver Mozart compondo, como ocorre com o sofrível Roberto Rocha, quando está a assistir o sucesso absoluto de Sarney em nível federal, mas vê a própria carreira política se deteriorar. Numa cena decisiva, enquanto o criador de "Requiem em ré menor" literalmente dita as notas, o compasso e a letra, para um incrédulo Salieri, este percebe o quão incapaz é de acompanhar o ritmo do gênio. Ele não consegue sequer compreender o que lhe está sendo dito. Mas, por instantes, seduzido pela magia de Amadeus, bloqueia momentaneamente o próprio ódio e fica maravilhado com o talento do oponente, como o menino Roberto Rocha fica estupefato com a capacidade política de Sarney e a sua própria incompetência. É uma cena magistralmente dirigida pelo diretor Millos Forman, enriquecida pelas estupendas atuações dos atores. Resume, em si, o filme inteiro. Assim como os artigos de Roberto "Salieri" Rocha, pela inconsistência do conteúdo, pelas distorções políticas e históricas, pelos argumentos falhos e vazios, pela hipocrisia tucana em falar de "justiça social", resumem não a ânsia de um jovem político para com a verdade e a justiça, mas o caráter de um desesperado, um rebelde sem causa e irresponsável, inconformado com o sucesso de alguém que sempre idealizou e quis inconscientemente ser, mas que sabe que jamais será. Luís Rocha, seu pai, com certeza, deve estar se remoendo no túmulo.
* Said Barbosa Dib é historiador e analista político em Brasília