Ditador
Mas um jornalista é perseguido
A exemplo do que já havia acontecido antes com os jornalistas Carlos Nina, Walter Rodrigues e Cunha Santos, antigos colaboradores do Jornal Pequeno desde os tempos em que aquele matutino era tido como uma trincheira democrática e não um pasquim alugado ao governador do estado como o é agora, mais um decano do jornalismo maranhense é censurado por Lourival Bogéa, rompe o contrato e abandona o Jornal Pequeno disparando contra o ditador parido pelo Palácio dos Leões.
O jornalista Aldir Dantas, que escrevia no JP a coluna Espaço Aberto há dez anos, dispara contra Lourival em carta enviada à dona Hilda Bogéa, matriarca da família Bogéa e presidente do JP. Abaixo, a carta, na íntegra.
Prezada Senhora,
Forçado pelas circunstâncias, vejo-me no inarredável dever de separar a amizade e o respeito que tenho por V. Sa. para comunicar-lhe minha decisão de afastar-me do Jornal Pequeno, diante de inominável e inaceitável censura que de há muito se vislumbrava nesse Jornal e que culminou, semana passada, na censura total à coluna ESPAÇO ABERTO, que mantive no Jornal Pequeno há quase uma década.
É compreensível que todo jornal tenha e assuma uma linha editorial ou uma posição político-partidária, ou mesmo com relação a eleições classistas, embora, quanto a estas últimas, isso não seja salutar, posto que os veículos de comunicação devem assegurar a esses segmentos igualdade de tratamento, sem prejuízo dos colunistas dos jornais, que, por se tratar de edição própria, devem ter sua liberdade preservada.
Contudo, não é isso o que tem acontecido no Jornal Pequeno, após o falecimento de Ribamar Bogéa.
Levado para o Jornal Pequeno na década de 60, por Carlos Nina, que editava a Página da Juventude, aí começou minha atividade jornalística, passando depois por outros veículos de comunicação, sem jamais perder o contato com esse Jornal, onde a amizade e o respeito com seu fundador e sua família me faziam sentir parte do Jornal Pequeno. Daí porque voltei a escrever uma coluna, ESPAÇO ABERTO, que se encerrou semana passada, em virtude da censura que me foi imposta pelo jornal, por ordem de seu Diretor de Redação, Lourival Bogéa.
O suposto motivo teriam sido três notícias, nas quais me referia às eleições da OAB no Maranhão, sobre a qual esse jornal tem dado amplo espaço ao candidato da situação, seu presidente, que disputa a reeleição, e em cujo benefício um colunista desse mesmo jornal tem feito campanha sistemática, fato público e notório.
O fato, na verdade, não se reveste de maior repercussão para o jornal porque este, desde que assumiu a defesa do Governo, perdeu suas características de espaço democrático, do qual se vangloriavam seu fundador e a população, passando a publicar, no que se referia ao espaço de responsabilidade direta da Redação, apenas o que convinha à sua nova postura política.
Isso foi uma opção da direção do Jornal, contra a qual seus colunistas nada podiam fazer. Contudo, a direção do Jornal, sob pena de exercício de censura explícita, não deveria interferir no conteúdo do que escrevem seus colunistas.
A censura à minha coluna da semana passada, na verdade, foi mais um gesto inconfundível para me afastar do jornal, já que eu insistia em manter a liberdade em minha coluna. A censura à minha postura já havia sido sinalizada antes, quando, há poucas semanas das eleições do 2º turno, noticiei a agressão de um vereador a uma professora. O vereador era aliado do Governador, defendido pelo jornal, e a nota foi censurada. Semana passada, a coluna foi censurada totalmente, pelas razões já expostas.
Esses fatos me fazem lembrar a postura de Ribamar Bogéa, cuja liberdade dos jornalistas ele respeitava com tal ânimo que deixou que publicassem, sem qualquer censura, mesmo tendo conhecimento prévio, como editor, uma crítica que um dos empregados do jornal, Bolívar da Cruz Leite, fez ao próprio Jornal. E mais: não lhe impôs nenhuma retaliação.
Assim era o Jornal Pequeno. Como já não comporta a liberdade nem de seus colunistas, já não posso continuar colaborando nesse espaço.
Faço questão de deixar registrado meu apreço à senhora, a Josilda, Luis Eduardo, Luiz Antônio, Ribamar Bogéa Filho e Gutemberg, e meus agradecimentos pelo espaço que me permitiram ao longo desses anos.
Contudo, não posso deixar de registrar, também, meu pesar pelo que foi feito do Jornal Pequeno, transformado em panfleto publicitário de interesses determinados e exemplo do que pode acontecer de pior à liberdade de imprensa: a censura.
São Luís, 20 de novembro de 2006
ALDIR DANTAS