Por Gilberto Léda
Editoria de Política
Campanha
Deputados eleitos declaram gastos menores que os reais
Prestações de contas fajutas
Os governistas Carlos Brandão (PSDB) - eleito deputado federal com 134.643 votos - e Afonso Manoel (PSB) - eleito deputado estadual com 71.372 votos - podem ter sérios problemas com a Justiça Eleitoral tão logo seja finalizada a análise das contas de todos os candidatos eleitos e não-eleitos no último pleito.
Eles estão entre os candidatos que apresentaram suas contas dentro do prazo, entretanto, vem causando espécie no meio político os valores das despesas declaradas ao TSE (Tribunal Superior Eleitoral), considerados muito abaixo do que se viu como volume de campanha dos dois aliados de José Reinaldo (PSB).
Afonso Manoel, por exemplo - marido da secretária de Saúde, Helena Ferreira, e dono da proeza de ter saído da condição de quarto suplente nas eleições de 2002 para a de deputado mais votado este ano -, declarou ter gastado apenas R$ 261.798,21.
Com "Publicidade por carros de som", dispositivo muito utilizado pelo candidato, o pessebista declarou gastos de apenas R$ 25,6 mil. Pesquisas realizadas por Veja Agora revelaram que, durante o período eleitoral, o preço médio para aluguel de um carro de som era de R$ 5 mil por mês.
Partindo-se dessa lógica, o candidato só poderia ter contratado, então, cinco carros de som, por um mês cada um.
Mas não foi isso o que aconteceu. Fontes de Veja Agora garantiram que no período de campanha foram vistos pelo menos dez carros de som a serviço do, ainda, quarto suplente, abastecendo num posto no Calhau, em frente ao Comando Geral da Polícia Militar.
No local, um dos frentistas se negou a revelar o número de veículos que eram abastecidos todas as semanas no posto, mas confirmou a informação da nossa fonte de que era lá mesmo o local onde os carros a serviço de Afonso Manoel abasteciam.
Outro dado incongruente diz respeito ao valor gasto com "Combustíveis e Lubrificantes". Segundo a prestação de contas do deputado eleito, esse quesito consumiu R$ 68.300,00 dos recursos angariados para a campanha.
Tomando-se por base o preço médio do óleo diesel, por exemplo, hoje comercializado na faixa de R$ 1,90, cada um dos cinco carros que Afonso Manoel declarou ter alugado consumiu, durante a campanha, espantosos 7.200 litros de combustível. Essa quantidade seria suficiente para uma caminhonete viajar do Oiapoque ao Chuí (cerca de 4.300 km) 16 vezes sem preocupação alguma com pane seca.
Mas isso não é só. Dos R$ 261.798,21 declarados como despesas, devem ser descontados, ainda, R$ 21.282,00 de "Multas eleitorais" aplicadas pelo TRE (Tribunal Regional Eleitoral); R$ 1.525,25 de "Encargos financeiros e taxas bancárias"; e, ainda, R$ 10 mil de "Baixas de recursos estimáveis", somando R$ 32.807,25. Assim, sobram de gastos reais, do candidato, apenas R$ 228.927,96.
Brandão
A declaração de Carlos Brandão, ex-secretário-chefe da Casa Civil do governo José Reinaldo, segue os mesmos rumos. Dono de uma das campanhas consideradas mais caras entre os candidatos a deputado federal - pelo menos visualmente -, Brandão declarou gastos de apenas R$ 133.000,37.
No mesmo item, carros de som, o ex-secretário apresenta dados ainda mais chocantes. Segundo o documento apresentado ao Tribunal Superior Eleitoral, o deputado federal eleito teria gastado apenas R$ 3.000,00 com publicidade por carros de som. Ou seja, se o seu fornecedor cobrasse um dos preços mais baixos do mercado, Brandão teria alugado apenas um veículo para esse tipo de propaganda. Nas ruas não foi o que se viu.
No item Combustíveis e Lubrificantes, mais indícios de fraude. Com uma campanha praticamente toda concentrada no interior do estado, o candidato alegou ter gastado R$ 15.214,00 com os produtos.
O detalhe, entretanto, é que os dois postos de onde Brandão afirma ter adquirido o combustível ficam em São Luís. Um na Avenida Ana Jansen, na Ponta d'Areia, e outro na Avenida São Luís Rei de França. Das contas apresentadas, não consta da aquisição de combustível em nenhum posto do interior.
Menos recursos
Se forem retirados das contas de Carlos Brandão, os itens "Encargos financeiros" e "Baixas de recursos estimáveis" - tal como feito com os dados apresentados por Afonso Manoel -, tem-se que o candidato gastou, teoricamente, ainda menos recursos.
No total, os dois itens, juntos, somam R$ 3.376,37. Assim, sobrariam, em tese, apenas R$ 129.624,00 para a "pobre" campanha do tucano.
Até o próximo dia 14 - data da diplomação dos candidatos eleitos em outubro -, os juízes eleitorais trabalham em ritmo acelerado para viabilizar a análise das contas de todos os eleitos, uma vez que a aprovação dos dados é condição para a diplomação.
Caso sejam confirmadas as suspeitas de irregularidades, os dois candidatos podem não ter o direito de assumir seus mandatos dia 1º de janeiro.

