A Justiça Eleitoral decidiu ir atrás dos pequenos e deixou de lado a análise acurada das contas de quem realmente driblou a legislação para comprar seu próprio mandato. Detalhes burocráticos ganharam mais importância na análise dos doutos membros da Procuradoria Regional Eleitoral do que a investigação criteriosa e detalhada da captação de recursos e dos gastos de alguns candidatos que exorbitaram nos limites da legalidade e da moralidade.
Um exemplo disso é o pedido de cassação do diploma do deputado Ricardo Murad, eleito pelo PMDB e um dos parlamentares mais votados em todo o estado. Murad fez uma campanha à altura dos custos reais de uma eleição desse porte. Sua prestação de contas é a mais transparente e ele relatou ao TSE de maneira clara e cristalina que gastou pouco mais de R$ 649 mil. E os fez com riqueza de detalhes. Até mesmo os gastos feitos em publicidade e fabricação de material de propaganda na sua empresa foram regiamente pagos mediante à apresentação detalhada de notas fiscais. Numa delas, a de nº 158, datada de 28 de setembro, o deputado contratou e pagou a fabricação de "santinhos" e a divulgação de sua propaganda no Jornal do Povo do Maranhão, pessoa jurídica que edita Veja Agora, de propriedade do próprio parlamentar oposicionista.
O representante do Ministério Público, entretanto, se ateve à letra fria da lei e pede a cassação do diploma baseado apenas no fato de que, supostamente, no Demonstrativo de Receita e Despesa se deixou de mencionar os gastos de publicidade, embora isso tenha sido feito em outro momento da prestação de contas. A própria Comissão de Controle Interno do Tribunal Regional Eleitoral - TRE relatou pela aprovação das contas de Ricardo Murad.
Em documento enviado ao juiz Megbel Abdala, Ricardo Murad informou ao TRE que as despesas de publicidade no jornal Veja Agora estavam declaradas no item 2.11 de sua declaração, sob a rubrica "Publicidade por Matérias Impressos". Como se vê, o pedido de cassação do diploma não tem sustentação legal e demonstra apenas o apego do procurador aos penduricalhos legais.
A outra face da moeda, entretanto, não conseguiu chamar a atenção da Procuradoria Regional Eleitoral. Foi a derrama de recursos públicos, injetados a olhos vistos nas campanhas dos candidatos majoritárias e proporcionais aliados do governador José Reinaldo Tavares. Como havia anunciado - e sobre isso há um processo aberto que repousa em alguma gaveta - José Reinaldo estuprou as eleições para, de todo modo, eleger seu sucessor. A ameaça de eleger alguém alinhado com o governo corrupto e mercenário que implantou no Maranhão foi anunciada pelo próprio governador em discurso realizado na convenção do PSDB, no começo deste ano.
Apesar da denúncia ter sido feita logo imediatamente após o discurso ameaçador do governador, nenhuma providência foi adotada para impedir a sangria dos cofres públicos. Ainda assim, Veja Agora publicou uma série de reportagens com flagrantes de abuso de poder econômico e captação fraudulenta de recursos dos candidatos da chamada Frente da Traição. Nada foi feito para impedir o crime.
Um simples exame superficial dos gastos de campanha de Jackson Lago mostra que o que ele diz que aplicou na compra de seu mandato é simplesmente irrisório. O aluguel de duas aeronaves e a contratação de profissionais de marketing a peso de ouro no mercado nacional demonstra que a Justiça Eleitoral não deu o devido crédito à decisão de José Reinaldo de comprar a eleição. Fosse qual fosse o seu preço.