Por Jonas Costa*
É o dia em que se comemora o nascimento de Cristo. Data consagrada esta, que merece ser festejada com alegria, que o estado de alma que corresponde a uma situação de bem-estar físico, moral, espiritual e capaz de, nesse momento de reunião com a família e amigos, quando a tranqüilidade da consciência é manifestada por uma irradiação contagiosa de todos pelo riso, a fragilidade da fé abre espaço para o momento mais sagrado da festa: o anúncio do Dia do Senhor, quando todos mantidos pela alegria, que supõe a força d'alma, tomam a iniciativa tendente à solidarizarem-se na consciência da fraternidade que os une, isto é, na consciência de que todos são irmãos. Além desse reconhecimento de amor ao Pai, na humanidade ainda se vê comunidades humanas divididas por lutas e rivalidades que ameaçam a própria sobrevivência, como se que os homens ainda não se dessem conta da sua condição de irmãos, ou porque, dominados pelo ódio ou pelo egoísmo, não agem com coerência com suas convicções. Eis o motivo por que a humanidade vive numa situação permanente de catástrofe, com milhões de desabrigados e famintos. Uma situação, portanto, que precisa mudar. Para isso, é preciso que o ser humano se habitue a ver no outro um irmão, e não um rival; que os Chefes das Nações se recordem da existência da Declaração Universal dos Direitos Humanos, ONU, e procurem cumprir a lei, porque, só com a ausência de sofrimentos do ser humano, o relacionamento constitui propriamente uma ordem, do qual a paz é a resultante mais autêntica. Antes as elites políticas, cultural e financeiras viviam numa paz aparente, porque supunham ou procuravam convencer-se de que a condição das massas fazia parte inexorável de uma ordem universal e imutável. Hoje, a humanidade vem aprendendo, a duras penas, que enquanto existir fome e miséria, persistirá uma desordem radical, fruto do egoísmo dos indivíduos, dos grupos e das nações, sobre a qual é impossível conquistar a paz duradoura. Portanto, não poderá haver paz, enquanto não houver, para todos, condições concretas para atingir níveis de vida compatíveis com a dignidade humana. E Santo Agostinho acrescenta: a paz é a aspiração fundamental de cada homem e de toda a humanidade, a ponto do seu conceito quase se confundir com o de felicidade; é a tranqüilidade da ordem. Pois a tranqüilidade sem ordem, ou vice-versa, podem até existir, porém, em nenhum dos dois casos haverá paz, uma vez que toda tranqüilidade nasce da quietude das coisas que não lutam por abandonar o lugar em que se encontram.
Em resumo, o homem só atinge a plenitude da paz interna quando consegue a ordenação de suas potencialidades em torno de um ideal digno de ser vivido. Só esta paz é durável; não se altera com as lutas e tribulações da vida, porque não se confunde com as fases transitórias da euforia que experimentamos, por vezes, por ocasião da recuperação da saúde ou a realização de um bom negócio. Portanto, enquanto não houver um bom relacionamento entre os homens, grupos ou nações, fundados na justiça, na realidade e no amor, não haverá paz social; não haverá paz no mundo. Apesar de tudo, cresce na humanidade a consciência desta verdade, e por isso vemos que se multiplicam os organismos supranacionais voltados não tanto para impor uma falsa paz, pela força, mas para combater as causas radicais da integridade que são a iniqüidade social, a injustiça na participação das riquezas, numa palavra, a desordem. Daí a imensa significação social de amar. Sem amor, os problemas sociais não serão fáceis de resolver e edificar a grande civilização do futuro.
Jonas Costa é Advogado e Professor
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