Fernando Silva
A crise do apagão aéreo e a tentativa dos parlamentares de aumentarem seus salários em 91% fecham com "chave de ouro" o ano de 2006. Elas são reveladoras da esculhambação geral dos podres poderes da República e da falência paulatina do Estado brasileiro, servil que é, através dos governos e do Congresso Nacional, à agenda neoliberal.
O mais relevante para se compreender a complexidade da situação brasileira é que 2006 foi o encerramento do primeiro mandato de Lula. Mais do que uma retrospectiva deste ano está em pauta uma apreciação do significado do governo em seu conjunto, principalmente porque Lula terá um novo mandato.
Mas, para os objetivos práticos desta retrospectiva, destacaria três aspectos gerais da primeira fase da "era Lula", aspectos que estiveram representados no ano de 2006.
Primeiro: o governo se caracterizou por manter intactas as benesses ao capital financeiro e à sua agenda, que se traduziu em investidas significativas sobre direitos da classe trabalhadora; o governo Lula começou com a reforma previdenciária no setor público e se encerra com o super-simples, a super receita, o início da regulamentação das PPPs.
Segundo: a degeneração institucional do PT e do governo com a perda da última trincheira deste partido, a bandeira da ética, e com escândalos que levaram grande parte do núcleo dirigente histórico do partido para o noticiário policial; escândalos que se tornaram públicos pela primeira vez em 2004, arrastaram o partido para um lamaçal em 2005 e se estenderam por 2006.
Terceiro aspecto e, de certa forma, um produto dos dois primeiros: a perda de referências, de esperança, de entusiasmo, a frustração das camadas mais ativas da classe trabalhadora e da juventude, muito visível também na própria campanha eleitoral.
Lula venceu as eleições apoiado na amplitude de políticas compensatórias e como um mal menor diante da ameaça da volta do bloco PSDB-PFL (que representa um período na história recente do país que traz não menos tristes recordações ao povo brasileiro). Mas venceu em um cenário eleitoral de enorme apatia e distanciamento do povo para com a atividade política, em eleições marcadas pela polarização midiática entre Lula e Alckmin, sem militância e sem comprometimento. Localizado como partido da ordem, o PT e seu governo contribuíram para aumentar um senso comum na população de que "política é negócio", "é carreira"; aliás, senso comum este bastante correto, a julgarem os "antecedentes criminais" que definem o caráter da institucionalidade política no país, mas que tem como conseqüência deixar órfãos de um autêntico projeto de poder popular dezenas de milhões de homens e mulheres, que foram parte da história de acúmulo das lutas populares desde o final dos anos 70.
Torna-se um desafio inerente a todos aqueles que não aceitam que a esquerda termine em Lula e no seu governo reconstruir um projeto autêntico de ruptura, um projeto de índole socialista, para conseguir substituir o ceticismo pela esperança.
Quaisquer que sejam as apreciações dos resultados obtidos nas eleições de 2006, mais importante do que isso é observar que a experiência da Frente de Esquerda marcou de forma positiva um ano difícil, pois fincou a bandeira de que há muitos e milhares que vão continuar resistindo à agenda do grande capital e dos seus governos, sejam eles quais forem.
Fernando Silva, jornalista, é membro do diretório nacional do PSOL e do Conselho Editorial da revista Debate Socialista.