A escritora Maria Clara Machado escreveu, em 1954, uma peça que a consagraria para sempre entre a elite da intelectualidade brasileira: O Rapto das Cebolinhas, que narra à estória do rapto de raríssimas cebolinhas da Índia do sítio do Vovô Coronel. Como se sabe, a obra foi premiadíssima, mas era tão-somente uma ficção da brilhante mente da grande escritora.
No Maranhão, o governador José Reinado usou a suposta ameaça de rapto de suas três filhas para justificar a também suposta separação de sua mulher, a ainda secretária de Solidariedade Humana, Alexandra Miguel Cruz. Quando tirou o argumento da cartola dos mágicos da empresa de publicidade "Pública", José Reinaldo nem parecia adivinhar o quanto seu pretexto era estapafúrdio. Seu pretexto não parecia vir de mentes brilhantes, mas ter saído de uma mente atormentada, que não consegue dizer, escrever nem fazer uma série concatenada de atos.
É razoável crer que a ameaça anunciada pelo governador seja fruto apenas de um jogo sobre o qual ele sequer conhece as regras. Afinal, quem iria seqüestrar a filha de um governador? Seus adversários políticos? Ora, essa idéia chega a ser cínica, já que remete à questão: o que eles lucrariam com isso? Fazendo o governador de vítima, seus adversários não dariam munição para que ele pudesse fazer exatamente o que esses mesmos adversários não querem? Um seqüestro - ou rapto, se assim preferir o governador - só o ajudaria a eleger seu sucessor, que é exatamente o que o Maranhão não quer.
O governador traiu 40 anos de amizade e silenciosa subserviência ao senador José Sarney, que o criou e o projetou para a vida pública. Nas muitas vezes em que se reportou sobre o assunto, alegou que sua mulher estava sendo perseguida. Mentira. Deslavada mentira! Se o governador traiu 40 anos de amizade pelo amor de uma mulher, por que deixaria essa mesma mulher quando diz que sua família está ameaçada? Que tipo de homem é esse que abandona a mulher e as três filhas exatamente quando, segundo sua mente doentia, elas mais precisariam dele e se sentiriam ameaçadas? Que marido amantíssimo se livraria do grande amor de sua vida quando ela e as filhas se vêem ameaçadas?
O rapto - ou seqüestro, se assim o preferir o governador -, é mais uma encenação. Um ato de uma comédia cujo enredo foi redigido nos porões do Palácio dos Leões e que não terá nunca um epílogo, já que nem o próprio autor da comédia sabe seu final. A suposta ameaça de rapto das filhas do governador e a separação do casal são apenas frutos da imaginação de alguém que prefere fugir da realidade, buscando na ficção o consolo para sua vida.
Não há seqüestro, rapto ou coisa que o valha. Se existisse o governador já teria colocado todo o aparato policial sob seu comando na caça aos supostos criminosos. Mas, não. O governador prefere a empulhação, a mentira, o engodo. Não existe nenhuma investigação do suposto rapto. Não existe inquérito policial, nada. Como uma obra de ficção de quinta categoria, o rapto das filhas do governador só pode ser obra e arte de uma bruxa má, que, à falta de argumentos e de horizontes, pegou sua vassoura e se mandou para o Gama.