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Deficientes: discutir o tema é o caminho para a conscientização


Data de Publicação: 19 de março de 2006
 
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Rafaela Marques
Editoria de Cidade


Os deficientes estão no centro de muitas discussões no ano de 2006. A Campanha da Fraternidade, promovida anualmente pela Igreja Católica no período da Quaresma, traz como tema a inserção social das pessoas especiais.

Com o lema “Levanta-te e vem para o meio”, retirado do Evangelho de São Marcos, é de uma passagem que narra o dia em que Jesus Cristo curou um homem da mão seca, um excluído para época.

A campanha visa promover a conscientização das comunidades acerca das limitações de cada um, e ocorre em duas etapas: a primeira foi um curso para a arquidiocese, enquanto a segunda, realizada depois do lançamento, consiste em palestras de conscientização nas comunidades e nas paróquias.

São poucas as igrejas católicas que possuem rampas de acesso para deficientes físicos, especialmente as mais antigas, mas a construção será uma das metas para 2006.

As pessoas que tem alguma limitação física ou mental são quatorze por cento da população brasileira, que sofre diariamente com a falta de espaços adequados, com a discriminação, o preconceito e com a falta de oportunidades no mercado de trabalho.

Segundo Paulo Roberto Barbosa Ramos, titular da Promotoria do Idoso e do Deficiente, este será um ano com muitos debates sobre o assunto em todo Brasil, o que deverá oportunizá-los uma maior inserção social.

Ele conta que uma das questões mais recorrentes é a dificuldade de acesso aos espaços públicos, e que a preocupação inicial é com as escolas: “A promotoria ajuíza ação cível contra o poder público para garantir que o deficiente possa freqüentar a sala de aula. As escolas municipais, estaduais e particulares têm prazos para se adequar às necessidades dos cadeirantes, por exemplo. As que estão mais aquém do ideal são as escolas públicas do estado, mas nosso trabalho é levar à todas termos de ajustamento de conduta”.

Quanto aos bancos, o problema é bem menor do que tempos atrás, já que hoje a grande maioria tem acesso para pessoas com necessidades especiais. No entanto, há uma grande preocupação com as vias públicas.

Todas as ruas novas devem ter rampas de acesso às calçadas e ao meio-fio, enquanto as ruas mais antigas devem ser adaptadas à medida que são reformadas. Como conseqüência, é fundamental cobrar do poder público a manutenção desses acessos, já que o desgaste do concreto é natural, e se os buracos não forem reparados o efeito pode ser contrário ao desejado.

É preciso também pressionar os órgãos públicos para a construção de rampas, em prédios como o da Assembléia Legislativa, os tribunais e o Fórum estadual.

As empresas de ônibus da capital são obrigadas por lei municipal a colocar à disposição da população pelo menos um ônibus com elevador. No entanto, esses elevadores nem sempre funcionam.

Paulo Roberto afirma que anteriormente, uma lei municipal garantia 10% da frota; no entanto, a Câmara Municipal de São Luís votou e aprovou num pacote de decretos sobre transporte urbano, um projeto que reduzia o número para apenas um carro por empresa, fato que ilustra a falta de comprometimento com as minorias, que é um grande retrocesso.

A legislação federal, porém, aprovou um decreto que estabelece um prazo de dez anos para a adequação de toda a frota de ônibus brasileira à necessidade dos cadeirantes.

Desrespeito

José de Souza, que possui uma deficiência que o impede de andar, diz que ganhou sua cadeira de rodas através de doações e que sofre muito com humilhações diárias dos transeuntes. Pensionista do INSS, José afirma que parte do que ganha ajuda em casa e outra parte é destinada à compra de remédios.

“As pessoas não tem consciência, reclamam, xingam, fazem piada. Há um ano eu não ando de ônibus porque da última vez não tinha quem me ajudasse a subir, quando os motoristas paravam para mim, porque eles geralmente não param. Eu fiquei quase o dia inteiro na parada só esperando uma ajuda para ir para casa”, contou ele.

José usa uma cadeira de rodas de segunda mão, quebrada e em péssimo estado de conservação: “Eu estou sempre por aqui (na rua treze de maio), e fico à espera que alguém se compadeça da minha situação e que possa me ajudar com uma cadeira nova, porque a necessidade é muita”, completou ele.

Perto da esquina onde Veja Agora encontrou José fica a CDPAE – Centro Dialético dos Pais e Amigos dos Especiais, uma organização não-governamental que realiza nas comunidades projetos de habilitação e reabilitação social para pessoas com deficiências.

Luta

Liani de Souza, psicopedagoga e presidente da associação, tem um filho de 17 anos com paralisia cerebral. A história da ONG se confunde com a história da família: “Nós, pais de pessoas especiais, queremos possibilitar integração aos nossos filhos. Eu e meu marido encontramos na APAE (Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais) um outro casal que tinha a nossa mesma angústia. Resolvemos então criar uma união para pais de crianças com paralisia cerebral. Colocamos um anúncio no jornal, que não especificava que tipo de deficiência. Por causa desse pequeno erro, apareceram pais de crianças com Síndrome de Down, pais de crianças autistas, e nós não tivemos coragem de dizer não. Hoje nós damos graças à Deus pelo erro”.

A CDPAE tem cerca de quinhentos associados e realiza em média quatrocentos atendimentos ao mês. Através de um consórcio com o governo federal, a associação põe em prática vários projetos, como pintura, bordado e confecção de bijuterias.

“Neste último, em que eles tiveram aulas de bordado, nós também fizemos com que eles participassem de trabalhos voluntários. Só quem completasse as atividades garantia a bolsa de cento e cinqüenta reais dada pelo governo federal. No próximo, vamos incluir cinco crianças sem nenhum tipo de deficiência, porque acreditamos que é importante promover a integração”, contou Liani, que completou: “Ter um filho com deficiência é uma viagem. Depois do susto inicial, aprendemos a amá-lo, compreende-lo e aceitá-lo. Acredito que é preciso combater a super-proteção, e ensina-los a serem pessoas, com integridade, antes de tudo. Sou contra tratá-los com muita diferenciação. Quanto mais eles crescem, mais se tornam capazes de compreender as normas de convívio na sociedade”.

Síndrome de Down:
Caracteriza-se por um atraso no desenvolvimento mental e diferenciações físicas.

É resultado de uma falha genética, a ocorrência de três cromossomos 21, um a mais do que nas pessoas sem deficiência. Um ambiente amoroso e estimulante, intervenção precoce e esforços integrados de educação irão sempre influenciar positivamente no desenvolvimento da criança.

Paralisia Cerebral:
É causada por uma lesão no cérebro, que pode acontecer durante a gestação, durante o parto ou depois do nascimento. A pessoa que tem paralisia cerebral tem inteligência normal, a não ser que a lesão tenha afetado partes do cérebro responsáveis pelo pensamento e pela memória.

Autismo:
É uma inadequacidade no desenvolvimento que se manifesta de maneira grave por toda a vida. Acomete cerca de 20 entre cada 10 mil nascidos e é quatro vezes mais comum no sexo masculino do que no feminino. Distúrbios no ritmo de aparecimentos de habilidades físicas, sociais e lingüísticas são algumas das características.

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