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O Fenômeno está vivo
Data de Publicação: 19 de março de 2006 | | |
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A oitenta dias da Copa do Mundo, o jogador mais famoso do mundo é considerado gordo e desmotivado. Mas a história mostra que é cedo para decretar o fim de um fora-de-série.
André Fontenelle De Veja
A decadência definitiva de Ronaldo voltou a ser anunciada na semana passada, quando o atacante do Real Madrid ficou no banco de reservas, situação rara em sua carreira, e ao entrar em campo perdeu o pênalti que daria a vitória a seu time. Mas, parafraseando o que o escritor americano Mark Twain certa vez disse sobre si mesmo, as notícias sobre sua morte são um tanto exageradas. Os números não mostram uma queda de rendimento tão assustadora como se comenta, e a história do futebol ensina que, em se tratando de jogadores fora-de-série como ele, vaticínios pessimistas muitas vezes dão errado (veja quadro).
A oitenta dias da Copa do Mundo, é inquietante que o atacante titular da seleção não esteja jogando bem. O próprio Ronaldo anda aborrecido com a maré baixa. O pênalti perdido o deixou particularmente abalado, segundo amigos. Em entrevista à Rede Globo, induzido por uma pergunta, chegou a referir-se à atual fase como o "fundo do poço". Nem ele, porém, deve realmente acreditar nisso. Ainda que não esteja jogando bem, é o artilheiro do Real Madrid no campeonato espanhol, e sua média de gols por partida nesta temporada (0,52) é praticamente a mesma do ano anterior (0,53). É verdade que esses números são inferiores ao 0,75 (ou seja, três gols em cada quatro jogos) que ele alcançava no início da carreira. Mas aos 30 anos (idade que Ronaldo terá em setembro) Pelé também fazia menos gols que aos 18, e isso não o impediu de brilhar na Copa de 1970.
Além disso, Ronaldo tem alguma experiência em fundo de poço. Ele o atingiu em 12 de abril de 2000, dia em que, voltando de uma cirurgia que o afastou por cinco meses, rompeu totalmente o tendão patelar do joelho operado. Essa lesão gravíssima o afastou por quinze meses do futebol, e por pouco não decretou o fim de sua carreira. Quando Luiz Felipe Scolari decidiu apostar nele no Mundial de 2002, poucos acreditavam que daria certo. Ao chegar à Copa ele havia jogado só 23 partidas em dois anos, e em apenas duas havia agüentado noventa minutos em campo. Isso não o impediu de voltar da Ásia como pentacampeão, artilheiro máximo com oito gols e autor daqueles que decidiram a semifinal contra a Turquia e a final contra a Alemanha. Diante dessa história, o poço atual é bem raso.
A pessoas próximas, Ronaldo prometeu "calar a boca dos críticos" na Copa da Alemanha. Há bons argumentos a favor, e não apenas o precedente de 2002. Embora tenha sofrido uma série de pequenas lesões nos últimos meses, aparentemente não tem nenhum problema maior (a não ser incômodas crises de herpes labial). Em razão das contusões, jogou menos partidas nesta temporada (33 até agora, contra 45 no mesmo período do ano passado), o que significa, também, que chegará à Copa com pouco desgaste. A vida pessoal tem andado relativamente discreta para os padrões ronaldianos, embora o namoro com a modelo Raica Oliveira exija operações de guerra para driblar os paparazzi.
Ronaldo terá outra motivação na Copa: já estará com a cabeça longe do Real Madrid. É certo que depois do Mundial o craque jogará em outro clube. A especulação mais concreta o põe no futebol inglês. O casamento de quatro anos com o Real acabou no mês passado, quando ele se queixou publicamente das vaias da torcida. A lua-de-mel já havia sido curta. Ronaldo estreou em outubro de 2002, da melhor forma possível, fazendo um gol apenas um minuto depois de entrar em campo. Na primeira temporada o Real foi campeão espanhol, mas mesmo assim de vez em quando a torcida vaiava o craque. Como desde então o time não conquistou mais nenhum troféu importante, o que não acontecia havia meio século, Ronaldo passou a ser visto como um fracasso pela exigente torcida madrilena. Os jornais de Barcelona, cidade do time rival, põem lenha na fogueira publicando boatos. Segundo um deles, o "Gordito" (como gostam de chamá-lo seus críticos) chegou às vias de fato no vestiário com um companheiro de equipe, o espanhol Guti. Segundo outro, o brasileiro se distanciou do clube porque este estaria devendo dinheiro a ele. Ronaldo desmente ambas as histórias.
Na atual crise do Real Madrid há uma dose de exagero. Por pior que seja o clima entre os jogadores, o time não vai tão mal assim. Só foi eliminado da Liga dos Campeões, o torneio mais importante da Europa, ao final de dois jogos equilibradíssimos contra o forte Arsenal, da Inglaterra. No campeonato espanhol, está em segundo lugar, a 9 pontos do Barcelona de Ronaldinho Gaúcho, uma diferença que pode ser tirada nos onze jogos que restam. Mas três anos sem conquistas são uma eternidade para um clube que se considera escolhido pelos deuses - a Fifa o premiou como o mais vitorioso do mundo no século XX - e, sobretudo, que gastou 400 milhões de euros com contratações nos últimos seis anos, 11% disso só com o brasileiro.
Pesa contra Ronaldo o fato de ser muito mais visado que outros jogadores. Recentemente Adriano, seu provável companheiro de ataque na Copa do Mundo, ficou dez partidas sem fazer gol. Também perdeu um pênalti, na terça-feira passada. A má fase de Adriano não consumiu um décimo da tinta gasta com as vicissitudes de Ronaldo. No fundo, tanta preocupação com a forma de um único jogador não deixa de ser uma prova de sua importância para a seleção que vai tentar o hexacampeonato.
É FÁCIL QUEIMAR A LÍNGUA
O que se disse sobre nossos craques antes de outras Copas
"Se houvesse um plebiscito, o escrete se dissolveria, Didi voltaria para os braços de Guiomar - e não iríamos levar à Suécia o espetáculo de nossa desorganização esportiva." (revista O Cruzeiro, um mês antes da Copa da Suécia, em 1958, na qual Didi, longe da esposa, Guiomar, foi eleito o melhor jogador)
"Gérson não pode jogar (na seleção). Não vai para a briga, não transmite segurança e não dá motivação para ninguém." (jornal Última Hora, dois anos antes da Copa de 1970, em que Gérson fez o gol decisivo na final contra a Itália)
"Ronaldinho é um ex-jogador de futebol. Todos vêem isso, mas poucos admitem." (site no.com.br, seis meses antes da Copa de 2002, que consagrou Ronaldo como artilheiro e campeão) - Próximo texto:
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