Lula e a CNBB estão se estranhando. O presidente ficou aborrecido ao tomar conhecimento de que o secretário-geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, dom Odilo Sherer, criticara as políticas econômica e social de seu governo. Segundo Sherer, os juros altos fizeram do Brasil "um paraíso financeiro". E "a sociedade tinha a expectativa" de que o governo Lula praticasse "políticas sociais mais eficazes". Lula analisa a hipótese de responder ao que classificou de "avaliação equivocada" da Igreja.
Na opinião de Lula a CNBB deveria considerar o fato de que, a despeito de todas as dificuldades, a pesquisa Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios), divulgada pelo IBGE em novembro, demonstrou que seu governo logrou reduzir a desigualdade entre ricos e pobres no Brasil. Os dados foram depois corroborados pela FGV.
As declarações que deixaram Lula irritado foram feitas por dom Sherer durante entrevista coletiva convocada para marcar o lançamento da Campanha da Fraternidade. O tema escolhido pela Igreja para 2006 é "Fraternidade e Pessoas com Deficiência".
Dom Sherer foi duro com o governo. Chegou a defender a revisão da política econômica, com baixa dos juros e adoção de medidas voltadas à geração de empregos. Ao converter o Brasil num "paraíso financeiro", disse o secretário-geral da CNBB, o governo promove a concentração de renda.
O líder religioso lembrou os mega lucros dos bancos em 2005 e a pífia taxa de crescimento da economia no ano passado: 2,3% do PIB. "Sabemos que os governos têm limites", disse dom Sherer. "Mas não podemos deixar de dizer que a sociedade tinha expectativa de políticas sociais mais eficazes de distribuição de renda e combate à desigualdade e à pobreza."
Ao falar sobre a política social do governo, dom Sherer disse que, embora seja "positivo", o Programa Bolsa Família, menina dos olhos de Lula, é "insuficiente". Para o secretário-geral da CNBB, "a mais importante política social é a geração de trabalho e renda".
Referindo-se às eleições presidenciais deste ano, dom Sherer disse o seguinte: "Os candidatos serão fortemente cobrados. A população quer saber o que de fato será feito para gerar trabalho, renda e até para reduzir a sangria de recursos que acabam nas mãos de grupos financeiros."
O arcebispo de São Paulo, dom Cláudio Hummes, ecoou as críticas de dom Sherer ao lançar na capital paulista a Campanha da Fraternidade 2006. Referindo-se à taxa de crescimento econômico de 2005 (2,3% do PIB), dom Hummes disse:
"O PIB ficou abaixo da esperança e das previsões. A esperança já não era tão grande, mas existia a expectativa de que fosse mais do que a esperança." Sem mencionar nomes de candidatos à presidência da República, o arcebispo Hummes disse que o desempenho da economia precisa levar o eleitor a refletir sobre o futuro do país.