Parece uma situação orquestrada. De repente, a delegada Ana Karla Silvestre, que conseguiu prender em flagrante o padre Felix Barbosa Carreiro, um pedófilo assumido e confesso, viciado em maconha e usuário de cocaína, se transforma em vilã. De repente, se crucifica a delegada e se aceita um depoimento em juízo de pessoas já qualificadas como partícipes do esquema de prostituição envolvendo também um dos ícones da Cúria Metropolitana, o padre José Raimundo Trindade, o então todo-poderoso diretor da Rádio Educadora do Maranhão.
Todos os depoimentos tomados pela delegada Ana Karla aconteceram na presença dos advogados dos acusados e das vítimas, além da promotora Fátima Travassos. Um dos adolescentes molestados pelos padres chegou a revelar que esteve, inclusive, no apartamento do padre Felix, na Igreja de São Pantaleão, tendo, na ocasião, se relacionado sexualmente com ele. O jovem descreveu, com minúcias, o quarto do padre. No local, a polícia aprendeu vários objetos, dentre eles uma CPU de computador, preservativos e revistas pornográficas. A delegada foi assistida nessa busca pelo delegado Marcos Affonso, então Superintendente de Polícia da Capital, que esteve no local e lacrou os objetos para a perícia. Até hoje não foi divulgado nenhum laudo sobre o conteúdo do computador do padre.
O próprio padre, ao ser preso, confessou da forma mais cínica e fria o seu comportamento desqualificado. Agora, de forma orquestrada, todos os depoentes cantam o mesmo hino, afirmando que, na ocasião, o padre estaria bêbado e que, somente por isso, teria confessado sua predileção - que alguns chamam, hipócrita e criminosamente, de orientação sexual -, por crianças e adolescentes.
A condição de bêbado do padre circula com uma desenvoltura invulgar. É como se um padre bêbado fosse menos culpado. Seria, na nova postura adotada pela defesa e na visão caolha de alguns, uma atenuante. Ora, o simples fato de um padre pagar bebidas a menores já é um fato gravíssimo. A ninguém é dado o direito de desconhecer que o padre lidava com milhares de crianças e adolescentes em escolas católicas como o Santa Teresa, o Instituto Farina e o Divina Pastora. Era o demônio em pele de cordeiro.
Se o padre estava bêbado e pagou bebidas para seus acompanhantes - como fazia quase diariamente -, isso não deve ser algo que possa ser usado em sua defesa. Ao contrário, ao se aproximar de jovens, oferecendo-lhes bebida, ele, premeditadamente, as preparava para seus atos libidinosos. A bebedeira, longe de ser uma atenuante, tem que ser vista como agravante.
O que causa espécie é a tentativa de jogar sobre os ombros de Ana Karla a responsabilidade por supostos erros cometidos na elaboração do inquérito policial. Ora, se a delegada pecou foi por excesso de preciosismo ou, premida pela falta de tempo. Se erros existem, cabe à juíza determinar que o inquérito seja refeito.
O estardalhaço com que se deu publicidade aos supostos erros legais da delegada é, no mínimo, suspeito. Então, o que os depoentes disseram ao juiz José Joaquim Figueiredo dos Anjos deve ser apagado e só pode ser levado em conta o que disseram à juíza Ângela Salazar? Justamente agora, quando os envolvidos tiveram tempo suficiente para serem amestrados pelos seus advogados?
O que foi dito ao juiz que instruiu o processo, na presença dos advogados das vítimas, dos acusados, da Igreja Católica e também na presença da promotora Fátima Travassos foi forjado?
Ou muita gente mente movida por interesses escusos ou muita gente está com medo da excomunhão. O que não pode é a delegada Ana Karla, que cumpriu seu papel com dignidade, ir para a cruz no lugar de um criminoso comum. Ainda que seja padre.