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Vírus da gripe aviária chega à Europa Ocidental e gera medo de pandemia


Data de Publicação: 5 de março de 2006
 
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NAS ASAS DO PÂNICO

A gripe aviária ultrapassou as fronteiras da Ásia e causou suas primeiras vítimas na Europa no fim do ano passado. Desde então, vem-se espalhando pelo continente em ritmo acelerado. Em menos de seis meses, treze países europeus registraram casos da gripe, dentre os quais Itália, Áustria e Suíça. Há cerca de dez dias, a notícia da morte de um gato vítima da gripe do frango na Ilha de Ruegen, na Alemanha, reforçou o temor de que o vírus H5N1, causador da doença, esteja mais perto de se tornar transmissível de uma pessoa para outra - hipótese que poderia acarretar uma pandemia de proporções planetárias. Os especialistas afirmam, no entanto, que não existe relação entre uma coisa e outra. Até o momento, todas as 194 pessoas que contraíram gripe aviária no mundo estiveram em contato com aves contaminadas e foram infectadas pelo mesmo vírus que causa a doença nos animais. Ou seja, não foi encontrada nenhuma forma mutante do vírus que permitisse o contágio entre humanos. Diante disso, é inevitável que se faça a pergunta: qual seria, afinal de contas, o perigo real de uma pandemia de gripe aviária?

A ciência identificou o vírus H5N1 em 1925, mas ele só se tornou fonte de preocupação dez anos atrás, depois que um ganso morreu, numa fazenda localizada na província de Guangdong, na China. Descobriu-se que a doença incomum que havia vitimado a ave fora causada pelo H5N1. Um ano depois, em Hong Kong, um menino de 3 anos morreu vítima da mesma doença, o que configurou o primeiro registro oficial da gripe em humanos. Esse primeiro surto durou poucos meses e atingiu dezoito pessoas, matando seis delas. A nova gripe parecia não ser grande ameaça, até que voltou a atacar, em 2003. Desde então, o H5N1 espalhou-se pela Ásia, pela África e pela Europa e o número de pessoas e animais doentes mantém-se em curva ascendente. Os primeiros sintomas da gripe aviária em humanos são muito semelhantes aos de uma gripe qualquer: dores no corpo, fadiga e febre alta. Como as defesas do organismo não conseguem reconhecer o vírus e combatê-lo, a doença evolui e, em poucas horas, atinge a maioria dos órgãos do corpo, sobretudo o sistema respiratório, o fígado e os rins. Ao debilitar o organismo, ela abre caminho para o aparecimento de pneumonia, insuficiência hepática, diarréia e hemorragias - o que pode matar em menos de uma semana. A letalidade do H5N1 aviário em pessoas é de cerca de 50%.

Três pandemias

A tensão em torno de uma possível epidemia resulta também de uma constatação histórica. "A cada século ocorrem, em média, três pandemias provocadas por subtipos do vírus influenza, que causa a gripe", afirma o médico João Toniolo Neto, coordenador do grupo de estudos de gripe da Universidade Federal de São Paulo. A última epidemia do gênero, a gripe de Hong Kong, foi registrada há quase quarenta anos. Por isso, os epidemiologistas acreditam que uma nova pandemia esteja à espreita. O perigo iminente fez com que a Organização Mundial de Saúde criasse, em 1999, uma classificação em seis fases, para avaliar a evolução do vírus influenza (veja quadro). O da gripe aviária encontra-se na três. Nessa fase, o vírus de gripe presente em animais começa a infectar humanos, mas as contaminações de pessoa para pessoa ainda não acontecem.

Diversos países fecharam suas fronteiras para a entrada de produtos avícolas provenientes de países onde já houve casos da gripe das aves. O Brasil, que ocupa o primeiro lugar no ranking mundial de importação de plumas, também o fez. Se a crise se agravar, apostam alguns importadores brasileiros, é possível que o Carnaval do ano que vem fique mais pobre em penachos. O Brasil montou duas frentes de ação envolvendo nove ministérios para se preparar para a chegada da gripe aviária. Uma delas, coordenada pelo Ministério da Agricultura, visa ao controle de uma possível epidemia entre as aves. A outra, elaborada pelo Ministério da Saúde, prevê o investimento em infra-estrutura para futuras internações, compra de medicamentos e fabricação de vacinas, além do treinamento de profissionais de saúde. "Algumas medidas já foram postas em prática, como a criação de um laboratório dentro do Instituto Butantan, em São Paulo, que fabricará 20.000 doses de vacina contra o vírus H5N1 circulante até o meio do ano", diz o médico Jarbas Barbosa, secretário de vigilância em saúde, do Ministério da Saúde.

Rastreamento

O Ministério da Agricultura, em parceria com o Ibama, rastreia o vírus H5N1 no país desde 2002. Já foram encontrados por aqui alguns outros tipos de vírus de gripe aviária, como o H2, o H3 e o H4, que não são considerados perigosos. "O território brasileiro apresenta características menos favoráveis à doença que os países europeus e asiáticos", afirma o veterinário Luiz Cláudio Coelho, da coordenação de sanidade avícola do Ministério da Agricultura. Uma delas é a temperatura. O vírus é muito sensível à radiação solar, o que reduz suas chances de sobrevivência num país tropical. Outro ponto é que a disseminação da doença acontece principalmente por meio do fluxo de aves migratórias provenientes da Ásia e da Europa, e as aves que migram para o Brasil vêm da América do Norte e do Pólo Sul. As aves aquáticas, consideradas o principal reservatório do vírus H5N1, têm como destino único no país duas lagoas localizadas no Rio Grande do Sul, o que facilitaria o monitoramento e o isolamento delas, se isso for necessário. Além disso, as rotas de migração incluem algumas reservas ecológicas e regiões litorâneas, geograficamente distantes das regiões onde estão as principais granjas do país.

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