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PLANETA UNISERSITÁRIO - Jovens praticam aborto clandestino



Data de Publicação: 27 de agosto de 2006
 
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CRIME
É difícil informar o número exato de abortos que são realizados no Maranhão devido à sua clandestinidade. A maioria das mulheres que interrompe a gravidez não vai a um hospital ou maternidade após o aborto. Primeiro porque abortar (ainda) é crime - o Código Penal prevê pena de detenção de um a três anos às mulheres. Exceto em casos de estupro ou quando há risco de morte para mãe.

No Brasil, mais de 1,5 milhão de abortos clandestinos são realizados por ano. O aborto acontece longe do ambiente hospitalar. Geralmente em clínicas clandestinas ou em casa, por meio de métodos não recomendáveis e extremamente perigosos. E, às vezes, perversos.

Os abortos clandestinos são realizados em locais, muitas vezes, sem condições sanitárias e por pessoal sem qualificação. Pela sua clandestinidade, ninguém sabe onde essas clínicas funcionam.

Somente quando há complicações pós-aborto é que as mulheres procuram um hospital ou maternidade em busca de atendimento de urgência. Chegam geralmente com hemorragia e infecção, que podem resultar em septicemia e a morte. Há também casos de lesões por perfuração do útero, intestino e bexiga. Uma das maiores complicações a médio e longo prazo do aborto é a infertilidade.

As mulheres têm 2,95 mais chances de morrer de aborto do que de um parto. O aborto é hoje a terceira causa de mortalidade materna no Brasil. Segundo estimativas da Organização Mundial da Saúde (OMS), metade das gestações é indesejada e uma a cada nove mulheres recorre ao aborto. No Brasil, os cálculos mostram que o índice de abortamento é de 31%. São 3,7 abortos para cada 100 mulheres.

São mais de 243 mil casos de curetagem por ano no Brasil. No ano passado, foram realizados em Sergipe, nas unidades que atendem pelo Sistema Único de Saúde, SUS, quase 5 mil procedimentos de curetagem pós-parto, conforme dados da Coordenação de Informação da Secretaria de Estado da Saúde.

De acordo com os relatos médicos, a maioria das mulheres que procura atendimento de emergência para as complicações do aborto não teve o útero evacuado completamente. Ou seja, chegam com restos fetais e placentários.

É por isso que é preciso fazer a curetagem, que consiste na remoção desse material por meio da raspagem com um instrumento chamado cureta, semelhante a uma pequena colher. Um mês depois, a mulher está pronta para engravidar de novo.

Os abusos
Aos 21 anos, solteira, desempregada e com um filho de quase dois anos, a recepcionista Karina (ela concordou em dar entrevista desde que seu sobrenome não fosse revelado) decidiu, no final do ano passado, abortar no quarto mês de gravidez. "Foi uma decisão difícil", afirma. Ela contou, com detalhes, como fez para interromper a gestação dentro de casa e sem que os pais percebessem.

Por indicação de uma colega, procurou uma farmácia no centro da cidade e comprou um remédio. Engoliu dois comprimidos e introduziu dois outros no útero, à noite, antes de dormir, trancada no quarto. Ainda assim não abortou.

Decidida, procurou outros métodos. O namorado de uma amiga se ofereceu para intermediar a compra de um preparo vendido supostamente por um profissional de saúde que atua em uma farmácia da cidade. Pagou cerca de R$ 150,00 pelo remédio.

Para favorecer o aborto, antes de ingerir o preparo, ficou 24 horas sem comer. "Ele avisou que era para enfraquecer o bebê", revela. O medicamento foi ingerido na manhã do dia seguinte, ainda em jejum.

"Acordei de madrugada, fui ao banheiro e tomei o preparo. Voltei para cama e comecei a sentir muita dor. Levantei, e antes mesmo de chegar ao banheiro já estava abortando", conta.

Sentada no vaso sanitário esperou até que o feto saísse. Quando ia levantar-se outro feto caiu dentro do vaso. Karina estava grávida de gêmeos. "Eu não tenho condições de criar um, imagina três. Meu pai ia me matar", afirma. Preferiu, ela, "matar" o filho.

Após a expulsão dos dois fetos, Karina deu descarga e voltou para cama. Mesmo com hemorragia, não procurou um hospital. "Pedi a uma amiga que trouxesse água inglesa, que é bom para limpar o útero. Bebia um copo todos os dias pela manhã, em jejum", conta. Seus pais nem chegaram a tomar conhecimento da gravidez.

Felizmente, ela não teve complicações pós-aborto. Pelo menos por enquanto. Mas nem sempre é assim.

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