O Brasil corre o risco de a malária repetir neste século XXI o mesmo flagelo que ceifou milhares de vidas na Amazônia há 100 anos atrás. O alerta está no estudo Malária, Amazônia e Desenvolvimento, publicado em maio na revista Scientific American Brasil. A malária é considerada problema de saúde pública em mais de 100 países, onde cerca de 2,4 bilhões de pessoas (40% da população mundial) convivem com o risco de contágio.
“A tragédia pode se repetir caso o modelo de desenvolvimento continue baseado na agricultura extensiva e na execução de megaprojetos de infra-estrutura, que resultam em mais migrações e desmatamento”, alertam Manuel Cesário e Raquel Rangel Cesário, sanitaristas da Universidade Federal do Acre (Ufac), responsáveis pelo estudo. O exemplo mais alarmante do avanço da malária na Amazônia é o Acre, com aumento de 153% de 2003 para 2004, e de 63% de 2004 para 2005. “A partir de 2001, a incidência de malária tem crescido mais intensamente no Acre, em Rondônia e no Amazonas. Em Roraima e no Amapá também se observa crescimento nos últimos anos,” aponta o estudo. Segundo o levantamento, apenas no Pará, no Maranhão e em Tocantins é que a tendência de decréscimo de 1999 e 2000 se manteve.
Aumento de 600%
No Acre, a malária virou epidemia no Vale do Juruá desde 2001. E, apenas nos três primeiros meses deste ano, a cidade de Cruzeiro do Sul registrou 13 mil casos. O número é quase 600% a mais que o verificado no mesmo período do ano passado.
Quatro municípios do Juruá, mais Rio Branco, concentram atualmente 80% dos casos de malária. Só Cruzeiro do Sul responde por 50% dos registros. Em 2005, o Ministério da Saúde contabilizou no país 599,6 mil casos de malária, com 88 óbitos.
Entre junho e julho o governo do Acre chegou a comemorar a redução de 14% dos casos. Foram apenas 531 casos negativos, de um total de 3.324 lâminas positivas. No município de Rodrigues Alves, também no Juruá, a redução foi ínfima: apenas 2%.
Para o ministério, o aumento da malária na Amazônia deveu-se, principalmente, à intensa e desordenada ocupação das periferias das capitais do Amazonas (Manaus) e de Rondônia (Porto Velho) e no município Cruzeiro do Sul, no Acre.