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Estudos mostram tendência suicida no comportamento de Leocádio



Data de Publicação: 10 de setembro de 2006
 
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Itamargarethe Corrêa Lima
Da Editoria de Polícia


Suicídio ou Homicídio?
Polícia não "enxergou" potencialidade criminosa de médico

Na última matéria especial sobre a morte do prefeito João Leocádio, confrontaremos dados tendo suicídio ou homicídio como causa mortis. Levando em consideração a posição de repouso do corpo, a primeira suspeita levantada foi a de suicídio, mas em seguida, uma declaração irresponsável do governador do Estado, José Reinaldo Tavares, que não possuiu conhecimento técnico na área criminal ou forense, mudou o rumo das coisas.

Mostrando a falta de confiança no sistema de segurança comandado por ele mesmo, José Reinaldo externou o desejo de solicitar apoio da Polícia Federal. Para colocar mais lenha na fogueira, e sem se dar conta que a polícia não trabalha com bola de cristal, ele ainda estipulou um curto prazo para o "crime" ser elucidado e os culpados presos.

A declaração, inevitavelmente, juntou a fome com a vontade de comer, já que a família não queria aceitar a versão cogitada e o caso passou a ser tratado como crime, mas não comum e, sim, político.

SUICÍDIO - ESTADO EMOCIONAL ABALADO
Analisando os autos, detalhes em comum foram detectados em vários depoimentos, entre eles, o da viúva, Arlete Leocádio, da irmã Luciana Leocádio e do secretário de saúde, Odson Vieira, os quais evidenciaram que o quadro emocional de Leocádio estava abalado desde que assumiu a Prefeitura.

Nos depoimentos prestados dia 12 e ratificado 18 de março do ano passado, a viúva admite que o marido contraiu muitas dívidas para vencer as eleições, e por isso estava sendo pressionado pelos credores e aliados políticos, que buscavam empregos e altos salários, chegando a citar nomes de pessoas que o estariam cobrando, mas em nenhum momento "Marcão", Wellighton ou Wytamar foram mencionados.

Na cópia da agenda, escrita de punho, e que se encontra nos autos, Leocádio fazia o controle das dívidas, num total de mais de R$ 600 mil para advogados, comerciantes e outros. Esse montante, consideravelmente alto para um então professor, recém-eleito prefeito, que deveria administrar uma receita mensal de pouco mais de R$ 340 mil, seria pagos como, levado em consideração à honestidade excessiva que a família tanto faz questão de propagar?

RENÚNCIA EM TOM DE BRINCADEIRA
As informações foram confirmadas por Luciana, que em depoimento declarou: "...desde o início do mandato João aparentava estar preocupado e pensativo... que por volta do mês de fevereiro, numa conversa com a declarante e o tio de nome Bento Borges, em forma de brincadeira - a vítima disse: Luciana, o que tu acha da gente renunciar? - tendo a declarante perguntado: o que é isso rapaz?, para logo em seguida João sorrir e mudar de assunto.... disse que a genitora tinha comprado um complexo vitamínico e feito uma garrafada, como de costume, por achar que ele estava abatido e sem se alimentar direito, e finalizou dizendo que não acredita na possibilidade do irmão ter tirado voluntariamente a própria vida, pois não deixou nada escrito".

Odson também descreveu Leocádio como a esposa e a irmã dele. Durante uma reunião no Rio Poty, disse que o viu comentar com outros prefeitos a pressão que estava sofrendo. "Colegas teriam dito para não ceder, mesmo que desagradasse alguém", afirmou. Em uma reunião com a cúpula da SSP, onde também estava juntamente com Leocádio, Odson afirmou que o prefeito não fez qualquer menção quanto ao fato de estar sofrendo ameaças.

No dia 10 de março, Leocádio dispensou o motorista que o aguardava na porta de casa, mas antes de sair sozinho para o local onde o corpo foi encontrado, assinou um cheque da Prefeitura, no valor de R$ 10 mil, e entregou ao motorista como pagamento de dívida de campanha.

"ELE ESTAVA PREOCUPADO E TRISTE"
Outro depoimento que também revelou o estado de espírito da vítima - foi o prestado pela garota de programa, Lorena Soares da Silva, 22. Duas horas em um quarto de motel, dois dias antes de ser encontrado morto, foram suficientes para que a jovem com pouca instrução percebesse o quanto Leocádio estava triste e deprimido.

Em entrevista exclusiva prestada no último dia três à equipe do Veja Agora, no terraço onde mora em um bairro periférico na cidade de Caxias, Lorena confirmou o primeiro depoimento prestado dia 8/11/2005.

Segundo ela, Leocádio não se identificou como prefeito, apenas como professor, não manteve relação sexual, mas pagou R$ 100,00 apenas para desabafar. "Ele disse que estava com muitos problemas na escola onde trabalhava e que pretendia se separar da esposa, pois havia tido uma grande decepção com ela. Mostrava-se visivelmente preocupado", disse a jovem.

A vítima marcou de voltar três dias depois, mas um dia antes do previsto, a irmã dela que estava na porta da casa quando Leocádio chegou acompanhado de outras duas pessoas, o reconheceu quando o caso estava sendo noticiado na TV. Ao ser indagada sobre o porquê de ter mudado o depoimento na reinquirição, Lorena disse que não foi pressionada, mas queria evitar novos problemas, tendo em vista que aos 15 anos teve sérios problemas com a polícia. Diante do delegado Hagamenon Azevedo, ela disse que Leocádio não seria o homem com quem esteve no motel.

O QUE DIZ A PSIQUIATRIA
Para um melhor embasamento sobre o assunto, estudos de especialistas em suicídios foram analisados e as conclusões são quase que unânimes. Dentre as pesquisas, uma chamou a atenção em especial. Assinada por Daniela Prieto e Marcelo Tavares, ambos da UNB, chegou-se a conclusão que, no geral, 86% dos suicidas são do sexo masculino; ceifam a vida com uso de arma de fogo e apresentam características semelhantes com as descritas por familiares e amigos de Leocádio. Falta de apetite, insônia, nervosismo, quadro depressivo acentuado e histórico familiar com tendências suicidas. Outro dado interessante é que a maioria dos suicidas não deixa nada escrito, pois decidem se matar 24 horas antes, agindo com impulsividade, o que também podemos observar no caso em tela, conforme a irmã dele declarou em depoimento.

HISTÓRICO FAMILIAR
Não poderíamos deixar de citar o histórico familiar. Tanto o tio-avô de João Leocádio, conhecido como Soares, e o tio Manoel Borges, recorreram ao suicídio. Se não bastasse tudo isso, tentativas também foram registradas na família, dentre elas, pelo tio José Henrique, que tentou dar cabo na própria vida quando era prefeito da cidade.

Além dos dados científicos, nem mesmo o resultado do exame residuográfico, que constatou vestígios de pólvora na mão de Leocádio, assim como a perícia, que concluiu que a arma usada foi o próprio revólver 38 dele, foram suficientes para que a polícia aprofundasse as investigações tendo suicídio como causa mortis.

HOMICÍDIO
Agora passaremos a dissecar a possibilidade de Leocádio ter sido executado. A simples derrota foi o suposto motivo para que Coelho contratasse "Marcão" e Wytamar para executarem o crime.

Vale ressaltar que com a morte de Leocádio, Wellighton não seria beneficiado, além do que já foi derrotado em duas eleições anteriores, mas nem por isso mandou matar alguém. Quanto aos motivos de "Marcão" e Wytamar dispensam comentários, não existem.

Se a polícia trabalhou com a possibilidade de homicídio e investigou durante 13 meses, como não suspeitou do médico paraibano José Carlos Falcão e Silva, e que há mais de seis meses estava trabalhando e morando na cidade?

Ele foi denunciado no programa Linha Direta, em 12/2003 acusado de dois homicídios, que tiveram como vítima um cobrador no Paraná e o próprio irmão dele. O primeiro com três e o segundo com cinco tiros, ambos mortos por dívidas, o levaram a uma condenação de 31 anos de reclusão no total.

Quanto à possibilidade de homicídio e, diante das informações, soa estranho o fato de a polícia não ter trabalhado com outras linhas de investigação, concentrando forças em elucidar a possível trama do envolvimento Wellighton, Marcão e Wytamar.

ASSASSINO EM POTENCIAL
Preso no mês passado pela PRF, em Uruçui, o médico foi contratado em abril de 2004 e até um mês antes da eleição permanecia como aliado do ex-prefeito Wellighton, mas depois que começou namorar uma sobrinha do atual prefeito Nonato Pereira, decidiu apoiar a vítima e, ainda, segundo comentários, teria emprestado R$ 40 mil para a campanha.

No dia do fatídico, de acordo com informações da direção do hospital em Uruçui, onde ele deveria estar trabalhando, José Carlos trocou o plantão com o um colega e desapareceu. Conforme os autos - uma outra informação intrigante que não poderia deixar de ser citada -, é que no dia 9/03/05, Leocádio recebeu uma ligação do nº 89/35441974, da cidade de Uruçui, onde ele estaria residindo.

No caso do médico, facilmente podemos vislumbrar três motivações - a dívida, o emprego e a vida pregressa. Como cinco delegados trabalharam no caso e não conseguiram enxergar que estavam próximos de um assassinado em potencial? Será que foram incompetentes, negligentes ou direcionaram as investigações de forma proposital?

Outro ponto que também passou despercebido pela polícia seria a existência de um seguro de vida de mais de R$ 280 mil, em uma instituição privada, além da possível transferência de quase meio milhão para a conta de familiares. É bom lembrar que, em se tratando de suicídio, o valor do seguro não é pago. Esperamos que ao final da série de matérias especiais uma nova luz surja no final do túnel.

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