ANJO DA GUARDA
Bairro é abandado pelo prefeito
Bairro-mãe da mais famosa apresentação teatral ao ar livre de São Luís, a Via Sacra do Anjo da Guarda, nos demais dias do ano vive um cotidiano de problemas de infra-estrutura que a administração municipal nunca se preocupou em resolver. O espetáculo que em três dias encena o sacrifício de Cristo pela humanidade, Tadeu Palácio nos demais 362 confirma que o oposto do céu existe.
O dia-a-dia dos moradores do Anjo da Guarda é cheio de problemas com os esgotos nas ruas, com quase todas as ruas sem pavimentação, uma feira suja e sem higiene, assaltos e falta de segurança em vários pontos. Todos esses elementos juntos levam a população local a suplicar para que o anjo que guarda o lugar não seja apenas no nome.
Entrada
Se assim é tratada a avenida, o bairro fica em segundo plano. A entrada do Anjo da Guarda tem como primeiro cartão-postal uma feira suja e fétida. "Uma nojeira", classificou a feirante Eusamar Nunes Moraes que tem um box há mais de 20 anos. A feirante, que "criou os filhos na feira", diz que, antes, o lugar era bem melhor. "Aqui era muito bom. Agora está largado. Não está prestando mais. Já reclamamos muito. Conversamos com a administração. Ela diz que vai arrumar. Não faz nada. Estamos sofrendo muito aqui dentro. Está tudo muito sujo, muito largado", diz a feirante que afirma nunca ter visto a Vigilância Sanitária no local.
É fácil constatar a verdade do que a feirante afirma. Dentro e fora da feira, o aspecto é terrível. A sujeira está por todo lado. São restos de frutas, pedaços de pele retirados de carne, sangue de animais, penas de aves, lama e outras porcarias mais que compõem o cenário no qual são comercializados os alimentos que os consumidores compram diariamente no local. Para completar o quadro deplorável em que se encontra a feira, um esgoto corre livre entre os boxes e na frente da feira, espalhando o mau cheiro que exala o ambiente.
Trajeto
Para se chegar ao Anjo da Guarda percorre-se a avenida mais cara de São Luís: a Avenida dos Portugueses. Por ela passa boa parte da riqueza de São Luís e onde estão localizadas a Universidade Federal do Maranhão, a Alcoa, a Petrobrás, a Companhia Vale do Rio Doce.
Entretanto, mesmo com todo esse status, ela é tomada pelo lixo. Não tem uma calçada para as pessoas andarem, nem passarela, nem segurança para os transeuntes e ciclistas. A falta de passeio público obriga os pedestres a disputarem espaço nas pistas onde o tráfego de carros é intenso, principalmente veículos pesados, como os caminhões e ônibus que passam constantemente pela via.
Onde deveria ser o canteiro central, lixo e mato são o que se pode ver. A necessidade de passarelas para a travessia de pedestres é visível. O trânsito é intenso, com o vai-e-vem de carros de passeio e veículos pesados, alguns deles em alta velocidade, além de ciclistas, motociclistas e carroceiros que circulam no local. "O trânsito aqui é muito ruim, um risco para os pedestres", observa a dona-de-casa Roseane Frazão. "Sempre tem atropelamento, principalmente de ciclistas. Deveriam fazer um acostamento, fazer calçadas. E o canteiro é um verdadeiro lixão", completa.
Esgotos
No Anjo da Guarda, a noção de esgoto que os moradores têm são uns córregos construídos nas beiradas das ruas para escoar as águas, mas que no período chuvoso entopem por causa da coleta "regular" de lixo e inundam as ruas, invadindo as casas dos moradores. Esse é o drama que vários bairros enfrentam. No Anjo da Guarda, a situação não é diferente.
"Quando chove, isso vira uma lagoa!", conta Aurélio Dominici. Segundo ele, "a Prefeitura asfaltou muitas ruas no bairro, mas aquelas que já tinham asfalto eles não voltaram para ajeitar". A rua onde ele tem um negócio foi asfaltada em 1980 e nunca foi ajeitada depois disso. Por causa desse negócio, ele mesmo compra material para tapar os buracos na esperança de diminuir as poças que se formam com a água de esgoto.
Na opinião de Maxwell Gomes, a Prefeitura se preocupa apenas em passar asfalto e esquece do saneamento básico nos bairros. Ele avalia que isso acontece em todos os bairros da capital. Maria dos Santos concorda e conta que em todo o Anjo da Guarda não tem sistema de esgoto, apenas sarjetas que entopem e o esgoto que escorre pelo meio da rua causando um mau cheiro e muita sujeira.
A conseqüência de toda essa sujeira é muito mosquito, rato e barata. Cansada de esperar providências do prefeito de São Luís, Ivonete resolveu com seu marido que vão, por conta própria, colocar uma encanação para escoar o lixo para mais longe, "minha vizinha já foi na Prefeitura e não vieram. Então vou agir sozinha", finaliza.
Ruas

Recentemente, os moradores de três ruas no Anjo da Guarda reivindicam serviço que consta na Prefeitura como executado, mas que, na realidade, não passou de obras ilusórias que hoje geram grandes problemas. As ruas são Holanda, Japão e Israel próximas à Avenida dos Portugueses, todas sem pavimentação, sistema de esgoto e com a iluminação precária.
Nessas ruas, o esquecimento foi geral. Tanto a Caema, Cemar e Prefeitura de São Luís não realizaram qualquer serviço de infra-estrutura. "Entra prefeito e sai e ninguém faz nada", bradou outra moradora Maria Assunção Nunes da Silva, que mora na Rua Holanda e tem uma banca de vender lanche na porta, mas que está se sentindo prejudicada com o esgoto que escorre na beirada da calçada. "Quando chove, não dá nem para sair de casa", completou.
Revoltados com tanto problema, os moradores das três ruas se uniram e, por várias vezes, fizeram abaixo-assinado e levaram à Prefeitura. Ao todo, foram cinco abaixo-assinados enviados para Tadeu Palácio; o último foi entregue no final do mês passado, informou Maria Bayma, moradora da Rua Japão, mas, até agora, não receberam nenhuma resposta. "Nem promessa!", lamentou.